O governo invisível do passado

quinta-feira, 27 de abril de 2017 Postado por Lindiberg de Oliveira

É uma tolice tornar a experiência a instância suprema de julgamento em todas as circunstâncias. Embora essa afirmação pareça sutil, não é preciso se colocar no lugar de algum drama enquanto experiência direta para compreender os elementos categoriais que regem aquele estado de coisas.
O número de coisas que podemos averiguar pelos sentidos é sempre mínimo. Para realizarmos qualquer experiência que seja, é preciso confiar em tantas coisas que nos foram legadas pelas gerações anteriores que a experiência iria apenas complementar o julgamento do que é real. Ou seja, a experiência não pode ser o centro do conhecimento. O que se pode conhecer por experiência é apenas uma fração daquilo que podemos imaginar e conceber, e que só conhecemos por experiências e narrativas de terceiros.
Para irmos até as últimas consequências sobre este critério, é preciso deixar claro que não há nenhuma experiência que confirme que a experiência é o juiz supremo do conhecimento. A experiência de cada ser humano, limitada e claudicante, prova justamente o contrário, pois sem a herança cultural não podemos sequer começar a pensar. Ou confiamos nesse legado cultural ou sequer sairemos do lugar. De outro modo, seria impossível reproduzir esse oceano de experiência que foi cultivado antes da nossa existência. Existem várias fontes de conhecimento e a experiência direta é apenas uma delas.
Michael Crichton, em seu livro Timeline, nos faz mergulhar nesta compreensão quando diz:
A verdade é que o mundo moderno foi inventado no passado. Quem não sabe disso não sabe os fatos básicos a respeito de si mesmo. Todos nós somos governados pelo passado, embora ninguém compreenda isso. Ninguém reconhece o poder do passado. Mas se você pensar no assunto, o passado sempre foi mais importante do que o presente. O nosso mundo cotidiano está construído sobre milhões e milhões de eventos e decisões que ocorreram no passado. Um adolescente toma café da manhã e vai até uma loja comprar um CD da sua banda favorita. O adolescente pensa que vive no momento moderno. Mas quem definiu o que é uma “banda?” Quem definiu “loja”? Quem definiu “adolescente?” “Café da manhã?” Isso pra não falar no resto, todo o seu ambiente social — família, escola, roupas, trans­porte e governo. Nada disso foi decidido no presente. A maior parte dessas coisas foi definida há mais de cem anos. O ado­les­cente está em pé na montanha que é o passado. E não percebe. Ele é governado pelo que não vê, por aquilo em que não pensa, por aquilo que não conhece. Esse mesmo adolescente é radicalmente contra qualquer espécie de controle — restrições dos pais, propaganda, leis do governo. Mas o governo invisível do passado, que decide praticamente tudo na sua vida, passa despercebido.
O contato com o que Crichton chama de governo invisível do passado é basicamente uma das fontes mais poderosa de conhecimento que existe; é desse toque que colhemos a intuição fundamental de que, aquém da política e do progresso tecnocientífico, existe uma ordem moral permanente e eterna que guia as mudanças sociais. Assim, além de termos uma melhor compreensão sobre nós mesmos, é possível ter acesso a essa ordem quando conseguimos escalar vigorosamente a construção intelectual dos grandes homens, dos grandes gênios — santos, artistas, poetas, estadistas, filósofos — da humanidade. Desprezar isso é submergir na alienação sobre as próprias percepções do espírito; essa rejeição nos faz perder a capacidade de aprender a desenvolver um diálogo com os sábios de todas as épocas e de todos os lugares. Ora, existem mais pessoas mortas do que vivas, portanto, aprender com a humanidade é ouvir os mortos. É tocar no mesmo tecido de compreensão que eles alcançaram; é ter acesso a mesma variedade das situações humanas e espirituais registradas.
Ortega y Gasset já dizia que as pessoas mais hostis a cultura são os “señoritos satisfechos” que se beneficiam do legado da civilização sem ter a menor idéia de como foi conquistado e, por ignorância de saber como tudo isso apareceu, acabam por reduzir tudo a escombros.
Entender a importância que o passado exerce sobre nós é a plena execução do mandamento bíblico: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Êxodos 20:12). Honrar teu pai e a tua mãe é nutrir um respeito pela tradição, pelos nossos antepassados, por aqueles que deram a vida por este mundo presente. É a inclinação afetuosa àquela ordem que Edmund Burke chamava de “o contrato da sociedade eterna” e G. K. Chesterton, de “democracia dos mortos”.
Como pensava Burke, o verdadeiro pacto social é estabelecido entre os mortos, os vivos e os que ainda irão nascer. O desprezo pela tradição é o desrespeito pelos mortos, e quando os mortos não valem nada, ninguém vale nada. É o respeito pelo passado que nos faz caminhar em bom-tom para o futuro. O século 21 se ergue realçado por pessoas que acreditam que o mundo em que elas vivem nasceu prontinho; caminham sobre a história desconhecendo e desrespeitando o passado, incapazes de perceber que a ordem social se estabelece no tipo de mundo que você recebe dos seus pais e avós e o tipo de mundo que você entrega para seus filhos e netos. Esse é o tipo de reconhecimento da consciência interior necessário para vislumbrar uma unidade na própria realidade humana, que iluminou, da mesma forma, as almas mais corajosas que passaram pela história da humanidade.
O retorno da autoconsciência aos tempos pretéritos, como tentativa de se integrar — para frisar uma abordagem do poeta Matthew Arnold — no grupo das pessoas que criou o que há de melhor na alta cultura ao longo dos tempos, não é suficiente para resolver os problemas do mundo; no entanto, preenche as lacunas que nasce da violência do ser humano, da qual muitos ingenuinamente acreditam que a política irá resolver — a “religião política” que controla as nossas sensibilidades e que também é incapaz de resolver a destruição inerente em tudo o que realizamos.
Não existe uma solução humana para os dramas humanos. Por isso mesmo o que podemos fazer é entender que a história humana tem nuances, declínios e ascenções, momentos de grandezas e decadências, sempre oscilado de um olho de um furacão ao outro. Deste modo, estou convencido de que uma abordagem mais humanista, através de uma lente clássica e tradicional, voltada aos dilemas religiosos e propensa à elegância das grandes conclusões milenares possa ser uma âncora mais segura dentro da realidade. Essa âncora é o “mistério” que ao mesmo tempo sobrepõe à realidade, é o paradoxo, e que só pode ser tomada pela mesma experiência individual dito acima. Esse caminho se oferece como uma longa e sombria noite da alma onde todos temos de atravessar, mas poucos conseguem, pois é a vida de cada um que está em jogo à medida que o problema se apresenta. Esse é o trajeto para a conquista da liberdade interior, proclamada por Sócrates, encarnada em Jesus, anunciada por Paulo, confessada por Agostinho, e vaticinada por uma tradição que nos aponta o caminho, mas cabe a cada um de nós atravessá-lo com a dignidade de quem enfrenta os próprios demônios da alma.
Isso quebra a concepção moderna bem característica entre alguns filósofos, sociólogos e historiadores, do desenvolvimento progressivo da história, onde a época moderna é vista como um período culminante de libertação e desenvolvimento intelectual, de novos alinhamentos políticos e revolução cultural. Uma concepção que se ergue como um eclipse que impede um olhar mais lúcido sobre a realidade, degradando-se na forma de ideologia. O tipo de noção que dificulta a ascese do individuo rumo ao topo da excelência espiritual, pois é contaminada pela arrogância de querer expandir os limites da realidade, caracterizando a revolta do homem contra o próprio homem.
A comunicação viva e intensa entre nós e o passado acontece tendo como palco nossa própria consciência; através da imaginação podemos nos lançar no esforço de recuperar a experiência originária daqueles que já morreram, mas que deixaram suas vozes ecoarem através de obras dignas de serem reconhecidas ainda hoje. É assim que ampliamos nosso campo de referência para aprender com os sábios de outras épocas, outros lugares, outras situações, para termos meios de comparação e um repertório de alternativas mais alargadas.
Essa é a mesma empreitada dos escolásticos, que acreditavam que o sábio não acredita somente naquilo que as pessoas do seu meio acreditam, mas busca aquilo que todos sempre e em toda parte acreditaram. Aquilo que é crença comum da humanidade. O caminho está posto.

©2017 Lindiberg de Oliveira

O clima pós-moderno

quarta-feira, 22 de março de 2017 Postado por Lindiberg de Oliveira

Se alguém quiser saber o que se passa na presente fase da história humana chamada “era da incerteza” (uma ideia que permeia o mundo desde a metade do século 20), é obrigado a desenvolver uma habilidade que seja capaz de penetrar e discernir todas as camadas dos discursos pós-modernos — agora rebatizado de “pós-verdade”. Ortega y Gassete dizia que “cada época é como um clima, que predominam certos princípios inspiradores e organizadores da vida”. O período pós-moderno, que vive um momento de luto da razão como instância de significado, é responsável por dar (ou suprimir) sentido ou criar narrativas a toda concepção de mundo  enraizada em alguma certeza ou verdade: não há como ter certeza de nada porque tudo depende de nossa concepção subjetiva sobre a realidade. As pessoas discordam entre si e se dispõem de interpretações profundamente diferentes acerca do que significa viver neste mundo. Este é o princípio organizador de nossa época, nosso “clima”.
A ideia de pluralidade de percepções e de que cada indivíduo dá um significado circunstancial para o modo como olha a vida não é totalmente equivocado, e é coerentemente assentada na filosofia, na literatura, na política, na cultura, e também na teologia — um campo do conhecimento que ainda tenta conservar um status de pureza. Obviamente existe essa dimensão de incerteza da realidade fincada nos paradoxos e tão bem explorados por Nietzsche e Kierkegaard, mas essa concepção não contempla o todo da realidade; é apenas uma camada desta. Platão e Aristóteles captaram esta dinâmica da realidade, no entanto mergulharam mais fundo a ponto de vislumbrar uma unidade nisso tudo; não uma unidade simples, mas unidade do diverso, como em tudo que é real e vivente. Não chegaram a essa conclusão de modo vulgar, pela simples coerência lógica e mecânica, mas como uma tendência, uma disposição da própria diversidade a uma finalidade que tudo abrange.
Pensar o mundo como uma unidade não quer dizer que seja possível uma descrição total da ordem cósmica, pois este ato heróico está para além da estrutura da existência humana — nem mesmo a união de todas as religiões acompanhadas de todas as ciências poderia nos dar a condição de desenvolver uma descrição total da ordem cósmica. A realidade, senhoras e senhores, é formada por tempo, espaço e dimensões cosmológicas que fogem do nosso entendimento. Não obstante, mesmo com uma percepção fragmentada, é inegável não presumir que o Universo constitui alguma ordem que não depende do ser humano, pois é dentro dela que surge o homem; há, sem dúvida, elementos de desordem e de caos, contudo, esses elementos absurdos precisam estar presentes.
Quando não há a possibilidade de se emudecer diante da ordem cósmica, de calar e se abrir para o que existe efetivamente fora de nós, o que resta é profetizar o lamento relativista de que “o olhar é o que determina a imagem”. Ou seja, sob essa perspectiva é o homem que cria a realidade. Diferente do entendimento dos escolásticos, cujo o esforço era alcançar a contemplação da verdade, a noção moderna se desenvolve e alcança seu ponto de transição no pensamento de Marx com um convite para transformar a realidade — transformar o mundo.
Vale ressaltar que essa foi a tentativa de Marx, totalmente inoperante, de superar o subjetivismo moderno, negando a noção de que a História se move impulsionada por uma dialética que se dava no campo das ideias, como tinha dito Hegel. Marx trabalha com a ideia de que o homem é o homo faber, que descobre sua essência na práxis, fazendo, trabalhando. Na tradição marxista, qualquer reflexão sobre a realidade ou não realidade que se isola da práxis é uma perda de tempo e capricho de metafísicos.
Marx não descarta o componente dialético que move o mundo, no entanto, essa dialética não acontece no domínio das ideias como pensava Hegel, mas no mundo objetivo, entre o senhor feudal e seus servos, entre o patrão e o operário; a única dialética possível porque é fruto do agir humano. O problema é que Marx não chega nesta conclusão agindo objetivamente, trabalhando numa linha de produção ou participando de uma revolução, mas através de um esforço intelectual da própria imaginação; portanto, Marx tenta superar o subjetivismo operando exatamente no campo da subjetividade, tenta mudar o mundo através das conclusões de sua imaginação, antecipando, dessa forma, o que iria ser regra no pensamento pós-moderno.
Desse modo, guiada pela concepção pós-estruturalista — de que a realidade é considerada apenas como uma construção social e subjetiva, em perpétuo devir —, nossa época segue na impossibilidade de compreender o próprio drama em que vivemos.
A premissa básica para essa incompreensão é uma sinistra deformação da linguagem. A aquisição do domínio da linguagem é o elemento fundamental para que se consiga ser fiel a nossa experiência diante do mundo sem se deparar com a ideia posta de que tudo na vida pode ser mera alucinação. Ser fiel a experiência real evita que se reproduza na consciência apenas o que foi introjetado pela cultura e pela sociedade. Na maioria das vezes as pessoas absorvem valores que não correspondem a sua experiência direta, gerando uma cisão entre o indivíduo e sua experiência real. Ora, em todo caso, os elementos culturais nos ajudam a expressar para nós mesmos o que vemos no mundo; o problema é quando se decide em favor da cultura e não da individualidade. Os elementos culturais devem ser usados para as finalidades do indivíduo, servindo-o, caso contrário o indivíduo será assimilado por esses elementos tornando-se apenas um repetidor de frases de efeito, pensando a realidade sempre fora de sua experiência genuína.
O impacto disso é uma linguagem deformada geradora de um discurso que dificilmente alcança a compreensão dos fatos. Discurso é movimento, é transcurso de uma proposição a outra; é uma unidade formal organizada por premissas e conclusão. O discurso sempre deve estar ligado por algum nexo, seja ele lógico, analógico, cronológico, etc., que obviamente suscitará uma modificação no ouvinte por mais breve que seja — aceitar ou rejeitar um discurso é de alguma forma passar por uma modificação. Hoje, sob o clima da pós-modernidade, discurso foi reduzido à definições estranhas como: “dis-curso, desvio de curso”. Essa definição esquisita faz sentido dentro de uma ocasião oportunamente chamada de “pós-verdade”, onde a linguagem já não é mais capaz de expressar sua referência à experiência real.
O discurso, que hoje repousa à sombra de explicações pós-estruturalistas, e que se arrastam de Marx à Foucault — e de Foucautl à filósofos de 140 caracteres —, é incapaz de apreender o real, pois sempre aparece acorrentado a uma escolha ideológica (quando muito são discursos sobre textos que correspondem apenas a outros textos, descartando a experiência real). Assim, o subjetivismo moderno fez do relativismo a única experiência possível, e por isso mesmo é aceito como inquestionável o mantra que diz  que “todo discurso é ideológico e político”; uma ideia que joga no balaio tanto a oratória parlamentar quanto a poesia lírica, tanto uma notícia de jornal quanto o trabalho filosófico sobre metafísica, tanto o conselho moral de um pai para seu filho quanto o relatório de uma empresa a seus funcionários. Tratar as coisas dessa forma e dizer que “todo discurso é ideológico”, que “não há realidade sem ideologia”, é não saber o que é discurso, é não saber o que é realidade e menos ainda ideologia. É o típico mecanismo que reduz todos os discursos ao mesmo nível, sem uma hierarquia de valor; eis nivelamento que geme sob a bota do marxismo.
O problema dos marxistas de nosso tempo é que não leram Marx, que situou com muita precisão a ideologia como uma falsa consciência; uma ferramenta que deforma a realidade, colaborando para certa manutenção de relações de dominação. Ideologia é um pensamento total que tem por ambição explicar tudo de antemão, pois nada tem a aprender porque já sabe demais. Consequentemente, a realidade será mutilada e sempre ajustada ao discurso ideológico. Ora, a realidade não é ideológica, não depende da ideologia e muito menos de nós para ser o que ela é. A realidade, que é permanente, está fora de nós ao mesmo tempo que nos abrange, e como diz Heidegger, toda nossa orientação é guiada por ela, pelas coisas: “na irrupção do humano, nossas pesquisas confrontam as coisas”.
Se afastar de uma mente ideológica não significa abrir mão de nossas próprias perspectivas, e nem mesmo nos impede de assumir que a política pode ser compreendida de muitas maneiras — o que não implica aceitar todas as suas formas ou negligenciar nossas convicções em nome de uma suposta imparcialidade.
Assim, o sentido de ideologia, reinventado por Lênin e Gramsci, se converte numa concepção neutra que constitui qualquer ideário de um grupo de indivíduos. Como vimos acima, há uma tendência na pós-modernidade de mudar o sentido das palavras; se mudam o sentido das palavras a comunicação se torna impossível. Mesmo que se entre no plano de realidade do sujeito ideológico, a comunicação ainda se torna debilitada, pois o apelo à experiência é inútil, porque ele pode usar os mesmos nomes para designar os objetos da experiência, mas ele estará pensando outra coisa.
O sujeito ideológico ajusta a realidade ao seu próprio horizonte de consciência, como um alfaiate, que invés que ajustar o terno do cliente prefere lhe amputar o braço, adaptando a realidade às suas crenças. Ao contrário, é a realidade que nos orienta e, quando ela nos desampara, diz Heidegger, “o Nada nos encurrala, e, na sua presença, toda enunciação do ‘ser’ — tudo aquilo ao qual aplicamos o termo ‘é’ — se silencia”. A ideia aqui não é negar o relativismo, mas entender que este é apenas uma fina camada epidérmica da realidade, e não a totalidade do real. É apenas uma concordância prática, circunstancial, sem a dignidade de um genuíno ideal moral. E quando procura se adornar com uma ideologia autoglorificadora, que se justifica sobretudo como teoria "científica", os discursos mais bizarros se tornam deveras atraentes quando repousam em cabeças como de um Robespierre, de um Lênin ou de num Hitler.
Na cultura, as consequências são incalculáveis, pois ao excluir a moral e o direito natural os maiores absurdos da terra estariam legitimados em nome do relativismo; não haveria nenhuma razão pela qual se deva supor que um sujeito não possa ser morto por ter uma tendência homossexual, ou que um marido não possa bater na sua esposa: levando o relativismo às últimas consequências, qualquer condenação dependeria de fatores absolutamente contingentes.
Em um mundo onde o certo e o errado existem de fato, podemos afirmar com muita tranquilidade que os maridos não podem agredir suas esposas, que uma pessoa não pode ser assassinada por sua tendência sexual e etc. Não há como afirmar a imoralidade desses dois casos e rejeitar a moral. Esse é um paradoxo do qual determinadas filosofias pós-modernas nunca conseguirão escapar, pois elas vivem de ditar regras em cima de preceitos que elas próprias afirmam não existirem.
A pós-modernidade é nosso clima, frio, embaraçoso, insólito, disforme; é sob este clima que precisamos desenvolver uma habilidade que seja capaz de penetrar e discernir as camadas da realidade, tão ocultada pela neblina pós-moderna. Se enfrentada com honestidade, esta tensão será saudável, e a medida que se avança no cerco das ideias a melodia dramática consiste em manter sempre desperta a consciência dos problemas, que são o drama ideal.
Ao ultrapassar a neblina do relativismo pós-moderno, poderemos descer a assuntos mais imediatos, tão imediatos que se conflui com nossa própria vida, como dizia Ortega y Gassete: “a vida de cada um”. Mais ainda, quando se insiste em mergulhar por debaixo do que cada um costuma acreditar que seja sua vida, perfurando-a, vamos nos ingressar em regiões subterrâneas do nosso próprio ser, que permanecem secretas de tanto nos serem íntimas, por serem nosso ser.

©2017 Lindiberg de Oliveira

A consolação ilusória das multidões

quarta-feira, 23 de novembro de 2016 Postado por Lindiberg de Oliveira
A cobiça, que é sem dúvida o desejo mais entranhado no homem, e a vontade de poder que dela decorre, são características genuinamente individuais que habita desde tempos pretérito o coração de cada um. Isso se confirma com clareza nas palavras do apóstolo, que diz: “cada um é tentado pela sua própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido” (Tiago 1:14). Dessa forma, esse mal só pode ser discernido individualmente a partir de um confronto aprofundado com o próprio ser, que reconhece na experiência interior a sedução e a cupidez que leva à desordem da alma.
Se por um lado a cobiça tem sua origem no indivíduo, por outro, é na coletividade que ela se legitima — é o corpo social que a exalta. Observamos na massa a totalidade dos indivíduos que produz um acréscimo de poder, no entanto, um corpo social sobrepuja esta expectativa dando um caráter desmedido em relação ao sujeito, e um sentido último, que constrange todo indivíduo e que faz com que somente o corpo social pareça autêntico.
É da coletividade que brota o espírito de poder mais alucinado, onde as consciências se diluem e, por isso mesmo, assume um ar de verdade absoluta. Assim, a cobiça pessoal de cada indivíduo busca se justificar e se satisfazer numa via aberta para esse corpo social.
Jesus discerne com maestria essa dimensão da coletividade: “Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mateus 9:36). Nota-se que Jesus não trata com as multidões. Diante delas ele só exala sua compaixão e serenidade. O homem na multidão envolvido nas massas é inalcançável na medida em que abraça essa multidão na busca por uma consolação ilusória; a partir daí, cria-se um mundo peculiar de sentimentos e tudo que se faz é reforçar esses sentimentos.
O indivíduo que se submete a uma massificação internaliza constantemente a ilusão de que continua indivíduo, mas não tem condições de afirmar a sua prerrogativa individual. Assim, a multidão é incapaz de expressar até mesmo uma visão de mundo — no máximo expressam uma intersolidariedade grupal. Esse delírio é nossa condição diante da proliferação demográfica e no inferno das cidades.
A multidão é um monstro sem cabeça, e Mateus narra que Jesus a encontra aflita e exausta, sem nenhuma razão em si, nenhuma verdade, nenhuma mensagem, à mercê do primeiro louco, do mau pastor, do líder político, de um mito… Além da miséria contingencial que envolve as massas, Jesus se atenta justamente para esse potencial de horror quando as más autoridades tomam o controle. O povo ensandecido se inclina facilmente a lamber botas das autoridades, a erguer ídolos pra si, a prestar culto a salvadores da pátria. Freud dizia que a assustadora irracionalidade dos seres humanos emerge de grandes grupos e que as profundas forças libidinais de desejo (forças do amor) são entregues ao lider, enquanto os instintos agressivos (ódio) são dirigidos aos que estão fora do grupo. Há controvérsias sobre conteúdo da explicação freudiana, mas a lógica é perfeita.
O Filho do homem não é mestre de multidões, não se torna líder delas; não se mete a dirigir o que é ingovernável (e esse é o elemento paradoxal que torna a massa mais facilmente domesticável), pois sabe que ao se colocar na liderança de uma multidão, efetivamente, faria com que cada homem se despojasse mais ainda de sua individualidade própria. Assim, a multidão seria reafirmada contundentemente em seu “estado de multidão”, inexistente, e destituída de significado.
A máxima nietzschiana “nenhum pastor, um só rebanho”, é o último estágio do homem desolado. Mário Ferreira dos Santos comenta essa frase dizendo que o líder é apenas a projeção da própria multidão: “O líder é líder porque segue à frente da multidão e a multidão segue-o porque ele se coloca à sua frente. O líder é um produto da massa que se torna um rebanho sem pastor, porque não é conduzida. Na verdade, ela conduz o líder, que teme não ter acompanhantes. Esse é o estágio de que fala Nietzsche”.
O mecanismo básico das mentalidades das massas é irracional; a multidão não é guiada pelas suas mentes, mas pelos seus instintos. Há inúmeras causas envolvidas nas decisões humanas; não somente entre indivíduos, mas principalmente entre os grupos. Qualquer informação bem colocada, principalmente quando associadas a alguma imagem estonteante, tocará as emoções irracionais das pessoas, dirigindo todo o comportamento das multidões — ao ponto de fazê-las apoiar uma guerra ou desejar uma Coca-Cola; tudo isso através de coisas irrelevantes que podem se tornar fortes símbolos emocionais. A publicidade, claro, foi um dos setores do mercado que melhor entendeu isso quando faz essa conexão emocional entre um produto ou serviço.
A mensagem do mestre de Nazaré desconstrói as bases de todo corpo social muito bem engajado. Por isso a boa nova de Cristo é tão terrível para nós que vivemos nesta sociedade de massa, tentado a dizer as mesmas coisas que o grupo está dizendo, arrolado nos mesmos sentimentos e facilmente mobilizados para determinada organização política.
Presenciamos este fenômeno trágico onde cada conglomerado se reduz a um número, e se satisfaz em ser assim. O Evangelho é precisamente a Luz onde cada um pode encontrar sentido fora da massa, onde cada indivíduo pode discernir o caos dessa sociedade enlouquecida. Enfim, o slogan político "trabalhadores do mundo, uni-vos!", não passa de uma armadilha dantesca para a consciência individual. Essa “união” é uma adesão dissimulada a um espírito de manada, e isto nunca será algo atraente para qualquer sujeito, simplesmente por que lhe custará a supressão do fator Indivíduo. Por isso, senhoras e senhores, os discípulos de Jesus são orientados não a enquadrar a multidão, mas dispersa-las, promovendo a vertigem da liberdade nas consciências mais corajosas.

©2016 Lindiberg de Oliveira

O que é arte?

sexta-feira, 7 de outubro de 2016 Postado por Lindiberg de Oliveira
O que faz de algo uma obra prima? O que é arte? Bem, até o século 19 as respostas poderiam ser bem convencionais, todas aprovadas por um fator essencial da experiência humana: o êxtase, o devaneio, o arrebatamento íntimo, o sentimento que elevava o ser ao Eterno; era a iniciativa pela qual o indivíduo, amparado pelas mãos dos deuses, se anunciava ao mundo.
Foi no século passado que toda proclamação de valor estético caiu no vazio do relativismo. Depois de expor um urinol como obra de arte, intitulado como A Fonte, Marcel Duchamp espalhou um resíduo de ceticismo e muita gente começou a se perguntar: “O que de fato é arte?”. Desde então as respostas para essa pergunta começou a transitar entre o sublime e o vulgar, entre o admirável e o trivial. Em um mundo em que a afluência artística que tinha em si o brilho da beleza, a arte chega ao século 20 ofuscada pela piada de Duchamp.
Particularmente penso em arte como uma unidade composta por forma e conteúdo. Explico: como pensava Aristóteles, forma não se reduz a uma mera figura externa das coisas, mas é o princípio da sua própria funcionalidade. Forma seria então a estética de uma obra, são os traços de um desenho ou o contorno de uma pintura; é a estrutura da composição de uma música ou todo arcabouço de um filme; é a métrica de uma poesia ou o busto de uma escultura. O conteúdo, por outro lado, é o que dá o aspecto dialogal de cada obra; são os meios estéticos de expressão que se organiza em função de seu efeito artístico. O conteúdo é o que o artista quer passar, é a sua mensagem; é todo o aspecto dramático da obra em que o artista arrisca a vida para dar existência a sua criação. 

Para Nietzsche, de tudo quanto se escreve só vale a pena se deter naquilo que é escrito com o próprio sangue. Eu diria que na arte não é diferente; o sangue é símbolo dionisíaco, significa vontade; símbolo também da vida. Escrever com essa vida significa a própria elevação do espírito, que possibilita estar na frente de todos, de antecipar situações e tendências. Isto acontece quando o artista transforma a situação em que vive na situação de usa própria época, tornando a obra não somente um comentário de seu tempo, mas também um comentário sobre todas as épocas, universalizando o que há de comum na história humana.
Ora, nem sempre é possível contemplar de imediato a forma e o conteúdo em perfeita harmonia numa obra. Às vezes o conteúdo se apresenta fixada numa forma embaraçosa, onde as imperfeições estéticas são as condições humanas da obra falar — prefigurando a própria beleza da obra.
Dessa forma, o que impressiona nas músicas de Bob Dylan não são seus simples acordes acompanhado de uma fonografia indefinida; o que nos surpreende nos filmes de Stanley Kubrick não é seu perfeccionismo já há muito ultrapassado pela tecnologia atual; o que assombra nos romances de Dostoievski não é o niilismo que parece engolir todo mundo. Não. Nada disso fica em pé diante da profunda experiência que emana do conteúdo dos trabalhos desses gênios, atulhado de angústia, solidão, orgulho, loucura, morte.
É assim que a arte cumpre seu papel funcional no mundo, inspirando, consolando, elevando o espírito ou comunicando o desprezo, a decadência e a humilhação. Tudo isso através da caneta, dos pinceis, da argila, da tinta, das imagens, dos sons, dos acordes, do movimento, da dança, etc.
Entretanto, só se pode perceber a função da arte quando se entende o conflito entre forma e conteúdo; e isso só é possível na medida em que o conteúdo sobrepõe à forma. É nesse momento que a redenção brada mais alto que as imperfeições estéticas, revelando que a supremacia do Bem prevalece sobre a desordem que arrasta para baixo toda dignidade humana. Assim, a arte oferece sempre uma arriscada travessia que vai das determinações mais baixas e aponta para uma dimensão sublime da realidade. Essa travessia não é possível para pessoas que mal sabem suas próprias opiniões sobre a natureza humana, ou seu lugar dentro da História; não é possível nem mesmo para uma elite que é incapaz de encontrar o sublime na fragilidade do grotesco.
Foi Paulo Brabo que me fez entender que o sublime estampado no grotesco também nos lembra de que somos gente, com nossas falhas e deformidades, revelando a crueza de nossas funções biológicas como a fome, a cede, o suor, o arroto, o peido — elementos estes que para a superficialidade do orgulho humano apenas nos distrai da ideia de eternidade. Ledo engano.
Não se trata de elevar essas necessidades primárias do homem, mas de entender que o sublime também pode ser encontrado no grotesco justamente porque este evoca o ciclo da vida e morte das coisas. E isso o homem urbano sofisticado não acolhe porque trata de uma realidade que arranca o sujeito da ideia de transcendência jogando-o na esfera do temporal, do relativo, do constrangedor, do indecoroso, do hic et nunc. Aqui o sublime se apresenta quando a beleza faz dessas coisas uma abertura para se vislumbrar algo mais elevado, que vai além do temporal. É a travessia que seguimos juntos com o artista da terra ao céu, do inferno ao paraíso que começa justamente na nossa decadência fisiológica.
Como Paulo Brabo deixa claro, essa é a ideia embutida na literatura de cordel: “O cordel é anguloso, despretensioso, barato, escatológico, relaxado, inferior, almeja o popular – sua mensagem é: posso estar na mão de todos”. Seu conteúdo é a de explicitar uma genuína participação que vai além dos anseios padronizados pela cultura. Ora, a beleza também é graça divina acessível a todos os homens e pensar o contrário é negligenciar sua natureza subversiva.
Diferente de cada criação da Apple, seja um dispositivo ou um anúncio, que fala de um ideal sofisticado, elegante, superior, distinto e sem arestas — com sua mensagem: posso estar na mão de poucos —, o cordel, grotesco, carregado de uma estética defeituosa, replicando tragédia, outrora comédia, representa igualmente a necessidade humana de consolo e harmonia; aquela ânsia da alma pela ordem que se alimenta precisamente do valor último que essas obras indicam. Nesse caso, o cordel indica, ou nas palavras de Paulo Brabo: “ilustra um modo subversivo de ler o mundo, um modo que fala de espaços abertos, temporários e sociais — festas populares, feiras e circos mais do que casas e shoppings”. Ou seja, exala um conteúdo que evidencia esse valor último que evoca o sentimento de participação numa comunidade.
É singular o fato da beleza repousar justamente naquilo que se universaliza no homem. Não por acaso a graça, “que se manifestou a todos os homens” (Tt 2.11), é atrelado ao conceito de beleza.
Quanto a verdadeira obra de arte, ela não só é uma expressão da vida moral, mas também o resultado de uma luta interior em que o objeto artístico se torna algo muito além da intenção do artista. É aquela situação em que o artista produz algo maior que a si mesmo, transcendendo suas sensações básicas e imediatas — uma missão que até os anônimos cordeis também cumprem. Afinal de contas, a expressão artística mais elevada não é aquela onde a perfeição estética fala mais alto, e sim aquela em que o Bem fala mais alto. E quando o Bem fala mais alto o horror desaparece sob o luz da beleza.
©2016 Lindiberg de Oliveira

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A relação entre palavra e imagem

terça-feira, 6 de setembro de 2016 Postado por Lindiberg de Oliveira

Há milênios a literatura se arrisca a fazer uma releitura exemplar da realidade humana. Os romancistas com suas obras de ficção conseguiram expressar, até mais que os filósofos, um critério do real que ultrapassaram o seu tempo. Aliás, não só o seu tempo, mas o tempo. Apesar de cada obra de arte ter sua data de nascimento, ela se torna atemporal ao nos fazer apreender a eternidade naquele lapso de segundos em que nossa alma se abre para verdades até então ocultas.
Essa é a experiência quando se fita os olhos com profundidade em obras como de Homero, Dante, Shakespeare, Dostoievski, Kafka, etc. São histórias com aquela ousadia de uma narrativa sofisticada, que também nos ajuda a criar nossas próprias narrativas, clareando diante de nós nossos próprios dramas.
O cinema, sobreposto à literatura, também nos orienta diante de nuances da realidade para uma compreensão melhor da vida e da natureza humana. É isso que aponta filmes como 2001-Uma odisseia no espaço (1968), O poderoso chefão (1972), Laranja mecânica (1971), Blade Runner – O caçador de androides (1982), Clube da luta (1999), A vila (2004), Na natureza selvagem (2007), Watchmen (2009), O homem duplicado (2014), Mad Max – Estrada da fúria (2015), O regresso (2016). Contudo, como pontua Martim Vasques da Cunha, existe uma hierarquia sobre o assunto: “uma coisa é literatura; a outra são produtos derivados como o cinema e as séries de TV. A primeira é uma experiência que estimula a interioridade; a segunda atiça, em sua maioria, os sentidos da visão e da audição, mas também permite um diálogo frutífero entre a imagem e a palavra escrita”.
Quando cultivamos esse intercâmbio entre a palavra e imagem, podemos contemplar no cinema uma espécie de espelho da modernidade que revela o que há de mais belo — assim como o que há de mais traumático — na humanidade; A lista de Schindler, de 1993, por exemplo, retrata estes dois aspectos ao exibir a luta interior de um homem que se nega a fazer parte, mesmo de forma passiva, de um dos maiores genocídios da história. Schindler é o homem que discerniu a realidade do bem e do mal; o homem que não se permitiu ser massa; o homem que preservou as determinações de sua consciência individual mesmo pondo em risco sua própria vida.
É desse modo que o mundo cinematográfico se constitui como uma dimensão profunda da arte, captando os movimentos invisíveis do espirito. Apesar de a imagem ser atraente por sua fácil assimilação, elas ultrapassam a concepção vulgar de meras sequências de imagens para fins de entretenimento.
Cineastas como Stanley Kubrick, Martim Scosese, Woody Allen, os irmãos Coen, Quentin Tarantino, Francis Copola, Clint Eastwood, etc., são gênios do suspense, do mistério, da dissimulação, que gera no espectador experiências únicas através de visuais estonteantes e personagens caricatos moldados por histórias que às vezes dão um nó no cérebro. Apresentam-nos dramas de personagens que poderiam acontecer com qualquer um de nós.
Na literatura, obviamente, o leitor é convidado a fazer um esforço de imaginação para contemplar cada detalhe do que se lê. É necessário uma preparação da memória, da fantasia e da expressão verbal correspondente para ser capaz de sondar o mundo de experiências que está por baixo de cada trama, de cada relação e de cada evento. Por outro lado, diante do universo audiovisual, boa parte desse esforço é dispensável, pois salta aos olhos e ouvidos um conjunto abundante de experiência deixando para o sujeito apenas o zelo de criar uma relação lógica dos fatos ocorridos.
Diante de uma época onde o espetáculo é consumido 24 horas por dia, orientado pela publicidade, pela mídia, pelo marketing, a sedução da imagem fala mais alto que a sutileza das letras. Preferimos o encantamento dos simulacros a ter de encarar o teatro perturbador de Shakespeare. Temos de fazer um retorno aos clássicos da literatura mundial, um verdadeiro diálogo com os mortos, e experimentar todas as mortes narradas tanto por poetas, escritores, roteiristas e quem mais queira entrar neste ofício. Assim, poderá haver um diálogo vibrante entre imagem e a palavra. Um diálogo que cria em nós uma abertura para uma viagem da alma. Uma viagem com todas as volubilidades de qualquer viagem; às vezes negra e gelada, às vezes bela como um dia de sol.
©2016 Lindiberg de Oliveira
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Um baile de sombras

domingo, 7 de agosto de 2016 Postado por Lindiberg de Oliveira
Quando imitamos alguém isso revela um profundo desejo de querer ser essa pessoa. Ou seja, de viver, entender, ou internalizar as mesmas experiências que moldaram tal personalidade. De algum modo todos nós passamos por isso, quando lemos uma biografia, ou quando ouvimos algum músico, ou até mesmo quando assistimos a um filme. A imitação como um amparo instrumental é essencial para o aprendizado seja do que for, e de forma mais densa, nos leva à maturidade; é o que se passa quando encaramos pensamentos de gente como Nietzsche, Tolstoi ou um Chesterton da vida.
O problema é que a falta de caráter de nossa época tem produzido quilos e quilos de sujeitos que se contentam apenas com a imitação enquanto tal — elas não querem participar do mesmo drama, não querem ser, elas só querem parecer —, não acreditando na realidade mas apenas na encenação. Isso me lembra Machado de Assis em seu conto A teoria do medalhão, onde um pai aconselha seu filho dizendo que o que é realmente valioso é a aparência. Assim, o autor demonstra o caráter artificial dos círculos da sociedade em que ele mesmo viveu.
Hermann von Keyserling, filósofo alemão que passou parte de sua vida viajando pelo mundo, ao chegar no Brasil constata em seu diário esse mesmo fenômeno entre a elite brasileira. Ele concluiu que os brasileiros se satisfaziam tranquilamente se colocando no mundo apenas como simulacros: uma cópia imperfeita do que é real.
Isto nos explica muita coisa, porque é justamente esse comportamento que observamos em todas as dimensões de nossa cultura. Praticamente importamos todo tipo de ideias dos gringos: as músicas, programas de TV, enredos de novelas, gírias, moda, modinhas de rede social, etc. Com a diferença que tudo nos chega como uma cópia mal feita.
Tomemos rapidamente como exemplo o mundo gospel da metade do século XX até hoje. Importamos o neopentecostalismo com o mesmo formato de pregações e as mesmas ênfases na administração, na entonação da voz, no dinheiro, no sucesso. A imitação foi tão bem sucedida que não parou aí. A música gospel, sempre no lugar comum, recheado de bandas e artistas como Diante do Trono, André Valadão, David Quilan, Talles, Fernandinho, Aline Barros, parece ser repetições ou até mesmo plágio de bandas e artistas como Hillsong United, Planetshakers, Lifehouse, U2, Toby Mac, Jeremery Camp, Brooke Fraser, etc. Não questiono o talento desses músicos, mas a coisa é tão mal feita, que introduções musicais, riffs, solos, efeitos, performace, tudo isso chega aqui com adaptações e simplesmente estacionam nesse lugar comum. Não há uma busca por uma identidade ou originalidade. É apenas a imitação pela imitação.
A imitação deve ser cultivada como instrumento pedagógico para a aquisição de uma habilidade em que se possa encontrar a própria identidade do indivíduo. Mas em terras tupiniquins, a imitação se transformou num recurso para se atingir apenas o brilho social — é o mimetismo em sua função mais vulgar, que decorre do simples fato de seus meios serem, ao mesmo tempo, o seu fim.
Há de se abandonar esse culto à imagem e ao espetáculo das representações, pois como afirma Debord, o espetáculo “não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo”. A construção de uma identidade própria a partir da imitação mimética é essencial para evitar que o sujeito não seja consumido por uma falsa consciência. Assim, essa identidade não será apenas a impressão que você quer dar, mas também uma expressão real do que você é.
Mas as pessoas, os brasileiros, eu, tu, ele, nós, vós, eles, vivem numa espécie de palco de teatro e tudo que sabem é atuar. Habitam o mundo contemplando as estrelas como se o ser humano se encontrasse abandonado às traças divinas, sem forças para escalar até o céu na busca de algumas respostas. Como o mendigo do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, estirado nos degraus da igreja fitando o céu como se quisesse dizer: “Afinal, não me hás de cair em cima”. E o céu: “Nem tu me hás de escalar”.
Neste mundo abandonado por nós mesmos somente os corajosos encontram respostas. Somente os bravos conseguem ultrapassar esse jogo de imitações para alcançar a serenidade do ser. A imitação deve ser superada pela força da personalidade individual, caso contrário, continuaremos a admirar toda a vida social ser determinada por esse baile de sombras que se tornou nosso país, cheia de pessoas famintas por títulos, cargos, dinheiro e sucesso; constroem um edifício emocional insustentável como finalidade da existência humana, transformando a vida numa triste narrativa sobre a terra; tudo isso entorpece a alma e nubla nossas percepções sobre a bondade e a verdade.
Penso que a vida humana não precisa ser um teatrinho, que pode ser integralmente real, que um homem pode passar do autoengano das imitações para uma existência verdadeira. Pois é assim que o mundo é vencido: pela firmeza de pessoas que não se deixam levar pelo fascínio das encenações. Fascínio este que se assemelha a um abismo de espelhos, que paralisa, e dificulta uma verdadeira comunicação entre o próximo, porque é disto que se trata também.
Falar sobre isso é complicado se considerarmos que estamos inseridos numa sociedade industrial que produz infelicidade generalizada e felicidade superficial em igual modo. O drama da sociedade atual é que o comportamento de massa dá origem a vidas de massa, gerando uma existência efêmera que produz um ser covarde. Segundo Heidegger, só poderíamos ir além das máscaras eliminando o acidental e o trivial, concentrando-nos no cerne do ser humano; ou seja, tendo consciência de nossa finitude e nos libertando da superficialidade que a vida nos apresenta. Dessa liberdade brota coisas importantíssimas. Verdadeiros milagres, como por exemplo, a gentileza com o próximo, a sinceridade com nós mesmos, ou a lucidez necessária para se discernir as sombras.
©2016 Lindiberg de Oliveira
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