O mundo e suas fábricas de ilusões

sexta-feira, 29 de agosto de 2014 Postado por Lindiberg de Oliveira
Nossa época é marcada, como diz Bauman, pela liquidez da realidade. Não vejo definição melhor. O homem contemporâneo é um “cadáver ambulante”, uma mascara, onde existir se torna autenticamente um fardo pesado. Como ser livre é angustiante, as pessoas preferem deixar-se guiar pelas ocasiões aleatórias que se apresentam; o efêmero, o transitório e o acidental tornam-se precisamente a realidade imediata do homem moderno.
Ora, essa questão não é totalmente perceptível. Vivemos numa era onde mentir virou modinha, e a autoajuda faz isso muito bem; não acredite em algum “segredo”, ou “dez passos” para ser feliz, muito menos nos belos sorrisos das redes sociais. Falar a verdade é optar por caminhar sozinho, e por ser surrado sozinho também – poucas pessoas se sensibilizam quando ouvem a verdade. Por isso tento ser visceral quando escrevo. Decidi levar a filosofia a sério e, por isso, já estou sendo apontado como o “cara que faz as pessoas pensar no que elas não querem”. Expor nossas misérias é manusear uma espada de dois gumes; eu saio dilacerado tanto quanto àquele que me lê – a ironia custa caro, meu amigo.
A modernidade é habitada por prisioneiros da vaidade; somos escravos da técnica, da TV, da propaganda, da religião, das ideologias, do pastor, do padre, da Bíblia, do Estado, do Facebook, etc. O capitalismo, a autonomia do mercado e o consumismo proveniente deste, nos faz correr sem parar. Mas correr pra onde? Isso ninguém sabe. Vivemos sem um telos (finalidade), os meios é que ditam as regras, e a ordem é: corra sem parar, porque se parar você pensa, e quem pensa sofre. Por correr, quero dizer: compre, consuma, seja feliz, deixe-se seduzir pela miragem das promessas do mercado, do dinheiro, do lucro, do progresso, etc. 
Essa é a doce ilusão de que o capitalismo vai transformar o mundo em um lugar justo, em que qualquer um pode enriquecer e ascender a uma escala social através de uma meritocracia. Por outro lado, tentar enxergar uma alternativa no comunismo é se inebriar na alucinação de que o Estado – esse ser impessoal, o qual Nietzsche chamava de “o mais frio dos monstros” – tem a capacidade de resolver nossos problemas. O Estado tem domínio do seu corpo; o capitalismo, da sua alma.
Do jeito que as coisas andam só posso concluir que estamos caminhando para uma distopia, onde o Admirável mundo novo, de Huxley, seria semelhante a um conto de fadas. Uma distopia onde a revolta é inexistente; onde a revolução será apenas mais uma invenção de um produto que você vai desejar comprar; onde a esperança não passará de um mero conceito abstrato. Mas já não é mais tão interessante dizer que a vida não tem sentido e que o mundo não é um lugar seguro; isso não é uma novidade e já não abala mais ninguém. As pessoas descobrem isso até no supermercado quando vão fazer suas compras – aliás, as pessoas vão fazer compras justamente para suprir a falta de sentido.
Na verdade, o que me seduz é a possibilidade de ter esperança; a possibilidade de construir uma verdadeira comunicação, um vínculo graciosamente genuíno. Isso, hoje, é o verdadeiro milagre: estabelecer a graça como a base dos relacionamentos diante de um mundo onde o lucro é a medida de todas as coisas.
Apreender o mundo dessa forma, sendo guiado pela vibração da graça, não nos garante uma vida afortunada, mas, no entanto, nos certifica de uma vida autêntica, onde o indivíduo começa por dar um mergulho em si mesmo, se construindo no âmbito da consciência, e não se diluindo na massa, no geral, na religião, nos partidos políticos, na militância ideológica, onde o excesso de comunicação atrapalha a verdadeira comunicação, pois transforma todos em bandos, em massa de manobra, em desordem existencial, culminando em uma abstração do sistema, o que para Kierkegaard seria “as orgias espirituais da filosofia contemporânea”.
Jesus, o Verbo, nos convida a superar essa falta de caráter de nossa época; nos atrai a caminhar na liberdade, a optar pelo que é eterno, pelo absurdo da fé, sustentando um rompimento com a “justiça” universal fechada numa moral onde o que prevalece é a culpa. Enfim, os discípulos de Jesus nos mostram que a vocação essencial do cristão não é sair vomitando doutrinas e regras a torto e a direito, mas denunciar todas as fábricas de ilusões, que geram desumanização – principalmente aquelas que se autolegitimam sagradas ou divinas. 
O reino de Deus é marcado por gente que abre mão dos seus direitos em favor dos que nada têm; é marcado pela dilatação da Esperança, que transcende a mera objetividade e conceitos abstratos sem sentido. O reino de Deus é de outra ordem e, com certeza se torna escândalo neste mundo. Não é por acaso que nosso mundo não é muito acolhedor com aqueles que amam e ousam questioná-lo – Francisco de Assis, Thoreau, Gandhi e Luther King que o diga.

©2014 Lindiberg de Oliveira