Mustang

sexta-feira, 31 de outubro de 2014 Postado por Lindiberg de Oliveira
Numa dessas pictóricas viagens de famílias, Jorge Luis Borges conta que seu pai sempre o surpreendia para que desse uma boa olhada em certas coisas porque estavam fadadas a desaparecer: "Ele queria que eu tivesse como contar aos meus filhos e netos que tinha visto essas coisas quando ainda existiam. Ele me disse para olhar para quartéis, bandeiras, mapas com cores diferentes representando diferentes países, açougues, igrejas, sacerdotes e alfândegas – porque todas essas coisas desapareceriam quando o mundo fosse um e todas as diferenças fossem esquecidas”.
Jorge Guilhermo Borges, pai de Jorge Luis, era anarquista e ambos desiludidos com o socialismo soviético – Cuba vai bem, obrigado. Meu pai, que nunca pisou os pés numa universidade, não teve esta intuição de achar que as coisas desapareceriam tão rápido, mas, no entanto, herdei dele essa preguiçosa desconfiança do progresso. Meu pai, que é dono de uma oficina de bicicletas, se recusa até hoje a fazer qualquer transição de sua profissão – “as pessoas não querem mais bicicletas, querem motos e carros”, dizia minha mãe.
Recordo-me sem muito esforço quando papai aposentou nossa TV “preta e branco”. Ele chegou em casa de surpresa com uma TV novinha e a cores, porém, manual, igual a antiga. Dizia que “essas coisas de controle remoto só servem para quebrar mais rápido”; disse o mesmo três anos depois quando comprou nossa antena parabólica “Century”. Meu pai é um cara que anda na mesma bicicleta há quase 40 anos; gosta de futebol e adora rir das piadas da “Praça é nossa”; sobretudo, me ensinou sobre a liquidez da modernidade antes mesmo de Bauman ter pensado sobre o assunto. Vivia me dizendo que as coisas antigas sempre duravam mais, eram resistentes, diferente dos objetos “modernos”, que foram projetados para quebrar e ser trocados com mais eficiência.
Ele sabia disso, pois presenciava constantemente em sua profissão. Reclamava que os fabricantes estavam substituindo peças de metais, resistentes, por plástico, quase descartável, sem nenhuma alteração no custo. Na época não entendia, não me interessava; hoje, vejo que essas explicações formaram uma base sólida na minha consciência. Apesar do atraente e encantador discurso moderno, meu pai preferia me dar de presente carrinhos e cavalos de madeira ao invés dos famigerados videogames. Ensinou-me a fazer meu primeiro pião, minha primeira pipa, meu primeiro revolver de madeira.
Não fazíamos refeições em frente à TV, pra isso tínhamos uma mesa enorme – pensando bem, hoje, ela não é tão grande assim. Gostava de me levar ao seu trabalho e em meio a parafusos e porcas eu me divertia com as ferramentas. Se o parque de diversões estivesse na cidade a brincadeira continuava depois do “trabalho”, em cima do carrossel com tinta descascando, pipoca quentinha, algodão doce colorido e muita gente pobre – típico de cidade pequena – ao som de muito flash back. A diversão era autenticamente estampada na face de todos ao meu redor. Mario Quintana estava certo quando disse que “criança não brinca de brincar”. Elas brincam de verdade; levam isso muito a sério.
Ora, meu pai é esse cara, sóbrio, desconfiado, fala pouco, brinca muito; nunca o vi bêbado ou fumando; não gostava de baralho, mas jogava dominó; é negro, mas minha mãe é branca; sempre me manteve no interior, mas hoje mora na capital; votou no Lula, mas até hoje não sei se é de esquerda ou de direita.
Agraciava-se de tal modo pelo futebol que foi técnico por mais de 10 anos. Numa época em que o politicamente correto não era tão desastroso, a molecada se divertia ao redor do campo o vendo gritar seus jogadores com a célebre frase “toca a bola, macaco!”. Hoje os vampiros do politicamente correto veria em meu pai uma hostilidade à democracia. De fato, ver um maraense, negro, de 1,60m, gritar “toca a bola, macaco”, não soaria tão amigável no dia em que se chama hoje.
Enfim, o time que meu pai foi técnico era o extinto Mustang. Mustang também é o nome de sua oficina de bicicletas. Mustang é como todos chamam meu pai. Menos eu; eu ainda o chamo de papai.

©2014 Lindiberg de Oliveira
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