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O dinheiro e sua não-neutralidade

quinta-feira, 30 de junho de 2016 Postado por Lindiberg Mustang
Muitos pensam que a piedade é fonte de lucro. De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos a esse mundo e dele nada levaremos; por isso, tendo o que comer e com que nos vestirmos, estejamos com isso satisfeito. Os que querem ficar rico caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos desordenados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, se desviaram da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos.

1 Timóteo 6.5-10

Já não existe mais uma noção simples pra definir o que seja o dinheiro. Hoje, o que pode ser entendido por dinheiro, seja como moeda ou como riqueza, guarda em si uma ideia complexa e quase não se pode mais contemplar essa palavra no vocabulário dos economistas. Ainda assim, o dinheiro é um fator significativo ao se tratar de uma vida econômica global, pois está inevitavelmente atrelado a jogos complexos de operações de produção, distribuição e consumo.
Mas nem sempre foi assim. Partindo de um período histórico, a Idade Média, por exemplo, o dinheiro não tinha tanta importância, pois não havia uma causa externa (o mercado, a propaganda) para estimular o interesse humano para o consumo. Assim, o dinheiro exercia um papel irrelevante na vida, no pensamento e nas preocupações dos medievais. Com o advento do capitalismo o “sabiá muda de canto”.
A partir do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já se encontrava em desenvolvimento econômico bem acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente a vida das pessoas. O sistema capitalista, gradativamente sujeitou toda a vida, individual e coletiva, ao dinheiro e, sucessivamente, o Estado, a Igreja, a Educação, o Direito, a Arte, tudo passou a se submeter ao poder do dinheiro. Não se trata, certamente, de uma questão de corrupção — o que não deixa de ser evidente o fato de que todos se meteu a pensar através do dinheiro.
Apesar de ter uma relação afetiva com o conceito de esquerda, penso que o socialismo não nos apresenta uma alternativa. O socialismo hostiliza o capitalismo apaixonadamente, no entanto, não podemos ignorar uma história embaraçosa de autoritarismo, centralismo e dogmatismo que sempre floresceram na esquerda. O discurso tradicional encabeçado pela esquerda é que esses vícios seriam desvios que não teriam lugar em um “socialismo verdadeiro”. Acredito cada vez menos nisso, e cada vez mais na hipótese de que esses vícios são parte característico da própria esquerda.
Durante décadas o socialismo esmagou o homem na tentativa de domestica-lo para dar outra direção a sua natureza. Dessa forma, o socialismo retomou o que há de pior no capitalismo justificando como teoria, subordinando o homem não ao dinheiro ou aos capitalistas, mas a uma produção esmagadora. Se no capitalismo o fenômeno é o desaparecimento do ser pelo ter, no socialismo trata-se de uma supressão do ser pelo fazer e pelo ter coletivo. No final das contas, não conseguiram eliminar a paixão pelo dinheiro e a submissão do homem ao dinheiro.
Já não pode ser medida minha preocupação de que, na presente ordem, o homem é impelido a correr cada vez com mais intensidade atrás do dinheiro numa busca desenfreada pela felicidade material. Dentro desse cenário, dois grupos de pessoas merecem destaques: o primeiro são aqueles que caem na armadilha de serem possuídos por sua própria riqueza; o segundo são aqueles que não conseguem obter nenhuma fortuna, no entanto, são possuídos pelo próprio desejo de possuir — são escravos que não podem pagar o preço pela sua liberdade. O poder do dinheiro domina solidamente ricos e pobres.
De forma mais intrigante, ao assumir a frequente menção do liberalismo à “mão invisível” do mercado, não é estranho que se entenda isso como uma espécie de “potestade” — uma força que subjuga e se encontra alheia ao próprio homem. Dessa sorte o liberalismo se evidencia com configurações de uma religião convidando todos a viverem debaixo dos poderes de uma “mão invisível” que, particularmente, se manifesta sobre o signo do dinheiro.
Não é difícil de entender e, dado essa natureza, o indivíduo não dirige mais seu olhar ao papel ou moeda, mas apenas ao poder de compra. E aqui entramos num terreno um pouco nebuloso, pois o dinheiro é apreendido por sua categoria simbólica aproximando-se de sua realidade econômica, que se manifesta numa dimensão cada vez mais abstrata; apresentando-se com clareza inquestionável, trazendo tudo àquilo que oferece progresso material. Ora, em outra esfera, não podemos ignorar o rigor matemático adotado pela ótica neopentecostal: dinheiro=bênção. Aqui o dinheiro torna-se um valor espiritual em si. Sendo um valor em si, o dinheiro deixa de ser meio e se torna um fim; deixa de ter uma importância econômica para tornar-se um valor moral e um critério ético.
Nesta ciranda, correr atrás da grana é o mesmo que correr atrás do poder que ela representa de forma acumulada — ou seja, a riqueza. E é natural que aquele que se utiliza de qualquer tipo de poder tem por inclinação associar a este poder seu amor, e consequentemente sua esperança. Jaques Ellul afirma que:
A fome por dinheiro está entre os homens na forma de signo, como a aparência de uma outra fome; o amor pelo dinheiro não é mais que o signo de uma outra exigência. Fome de poder, de superação, de certeza, amor de si mesmo que se quer salvar, de tornar-se sobre-humano, de sobreviver e de eternizar. E qual o melhor meio além da riqueza para se chegar lá? Nesta busca alucinada, precipitada, não é apenas o prazer que o homem procura, mas a eternidade, obscuramente.
Como tal, Paulo adverte que aqueles que empreitam nessa caminhada caem em tentações, em armadilhas e em muitos desejos desordenados e nocivos; isso leva a um mergulho devotado à destruição, pois há uma coisa que o homem não pode se utilizar do dinheiro para comprar: a si mesmo. Hoje pedirão a tua alma, e tudo ao seu redor se desfalece, na incapacidade de te salvar (Lucas 12:20); “De nada vale a riqueza no dia da ira divina” (Provérbios 11:4).
Jesus, que era bem mais atrevido que Paulo, não só nos alerta do perigo de correr atrás do dinheiro como também diz que este assume, diante do homem, a posição de um deus. Para Jesus, riqueza é Mamom: um ser que tem a presunção de ser adorado e servido. Nas considerações de Jesus, o dinheiro não é um objeto neutro e sem autonomia — vale lembrar que este é um episódio excepcional nos evangelhos, pois Jesus não costumava fazer personificações de objetos. E se o dinheiro não é neutro é porque se orienta por si mesmo, segue sua própria lei e se afirma na realidade como sujeito. Essa é uma característica do poder no sentido bíblico, seu paradoxo: o poder não é jamais neutro, ele é orientado e da mesma forma orienta os homens.
Não é de se surpreender que o rabi de Nazaré encare a ambição pelo lucro como um ato de adoração a esse deus, “porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. E continua nos advertindo: “ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6.24). A riqueza se projeta como deus porque preenche no homem, como um devaneio, seus desejos e ambições. É a busca por satisfazer esses anseios que orienta o homem a conferir toda importância ao símbolo; neste momento a riqueza se torna um fim em si. Destarte, é de extrema importância entender o paralelo que Jesus estabelece entre Deus e Mamom. Assim como entre o homem e Deus, a relação entre o homem e Mamom se constitui como uma relação entre um servo e seu mestre. Esta é uma realidade muito específica manifestada por Jesus.
Quando intuímos tudo isso com clareza pode-se perceber como o dinheiro sujeitou toda a vida ao seu domínio. Tudo pode ser comprado ou vendido, inclusive o homem: “Vocês vendem por prata o justo, e por um par de sandálias o pobre” (Amós 2:6). Como Ellul deixa claro, a moeda é somente uns dos meios de ação da potência do dinheiro, “o signo mais visível e concreto desta universalidade da venda”, onde o homem é posto de forma total à mercê dessas relações — a Bíblia é clara sobre o comércio de corpos e almas humanas (Ap 18:13). Essa dissolução interior do homem é enfática na traição de Judas como um ato pago. Porém, Jesus foi somente objeto da potência do dinheiro, mas nunca foi possuído por ela.
Desse modo, diferente do Antigo Testamento onde a riqueza era símbolo da glória de Deus, no Novo Testamento não há um verso sequer que justifique a riqueza — todos os ricos, e de forma mais clara no livro de Lucas, são aferidos com juízo. A riqueza não tem referência na pessoa de Jesus, assim como não tem também tudo que lembrava as ações de Deus no Antigo Testamento como os sacrifícios, o sacerdócio, o templo, etc. Jesus carrega em si toda a síntese do que essas coisas representavam. Em Jesus todas essas coisas foram suprimidas, porque ele é a representação máxima da riqueza de Deus para a humanidade.
O reino de Cristo é singular justamente porque não precisa da glória da riqueza para sustentar sua autoridade. O poder econômico e político são diretamente contrários à postura de Deus refletida em Jesus e seu modo de se dirigir ao mundo. Portanto, numa perspectiva cristã, o dinheiro é entendido apenas como uma coisa que possui um valor instrumental; ou seja, seu valor reside unicamente no fato de ser um meio para satisfazer o valor intrínseco.
O carpinteiro de Nazaré foi o principal patrocinador da ideia de que não precisamos nos preocupar com o dia de amanhã, que Deus provê os pássaros todos os dias e vestem os lírios com uma beleza magnifica, e que o valor que Deus dá a nós é inestimavelmente maior do que de aves e flores (Mt 6.25-34).
O concelho de Jesus era para não ajuntarmos tesouros terrenos, pois, traças e ladrões são atraídos para devorar e roubar impiedosamente tudo isso (Mt 6.19). O Mestre dizia que a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens. Levando isso em conta, chama de insensato o empreendedor bem sucedido que deposita a sua segurança em seus bens acumulados (Lc 12. 15-20).
Para Jesus, assim como para Paulo, é a piedade com contentamento que é uma grande fonte de lucro, pois nada trouxemos a esse mundo e dele nada levaremos; por isso, meu amigo, tendo o que comer e com que nos vestirmos, estejamos com isso satisfeito.
©2016 Lindiberg Mustang

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Como a Igreja virou igrejas

terça-feira, 24 de maio de 2016 Postado por Lindiberg Mustang
O princípio da Igreja é fantasticamente simples e muito bem elaborado. A Igreja era vista como uma simples reunião, e não passava disso. Uma reunião que com o tempo virou uma comunidade, não por que todos eram iguais, mas simplesmente por que todos compartilhavam do mesmo ideal: “convencer o mundo do reino de Deus” inaugurado pelo Cristo (Atos 19.8, 28.23).
Sem pretensões de grandezas ou de algum tipo de ascensão política, os primeiros cristãos se gloriavam em suas tribulações, se identificavam com os pobres, amavam-se mutuamente; dividiam seus bens com os mais necessitados sem nenhuma ambição de acúmulo de posses. A Igreja se constituía no mundo como essa comunidade em fluxo e não como uma instituição fixa e paralisante que faz de Deus um ídolo.
Igreja se compreendia como um corpo que se reunia nas casas, numa escola e até mesmo em cemitérios (Rm 16:5,23); se reuniam como Igreja e não nas igrejas, pronunciando a Boa Nova, convidando o mundo a ser, e não a ter Igreja. E os que resolviam ser, consideravam-se como aqueles do Caminho somente (Atos 9.2, 19.9, 24.14). O projeto de Jesus estava se concretizando. Seu reino — evidenciado pela existência física da Igreja — era visto continuamente como o Caminho: um lugar sem endereço determinado, uma direção da qual Jesus não marcou um ponto de chegada.
Infelizmente esse quadro não persistiria por muito tempo. Aproximadamente três séculos depois, o imperador Constantino, que era adorador do deus sol, executou uma jogada de marketing político ao se converter ao cristianismo. Não foi uma conversão autêntica e, como o Império era marcado por uma cosmovisão politeísta, era comum cada deus ter o seu templo de adoração. Jesus não tinha um templo, logo, resolveram edificar um lugar respeitável para que o Filho do Homem fosse venerado, assim como os outros deuses. Com o templo nascem também hierarquias bem definidas, os dogmas irredutíveis, a centralização do poder religioso, a aliança com a política, etc. O Caminho começou a virar estradas e o Reino logo se identificou com o Estado. A comunidade orgânica do Evangelho foi substituída por instituições que mecanizou comportamentos, entorpeceu consciências. Nessa esfera o amor é suprimido, a graça é violentada, sobrando apenas exigências de um Deus distante que precisa ser temido, semelhante aos deuses gregos.
A partir de então deram início a construções grandiosas de catedrais e templos gigantescos, com uma arquitetura que seguia o mesmo modelo das basílicas e das sedes governamentais de Roma. As catedrais foram variando de acordo com as ocasiões contextuais na história. No início eram semelhantes aos templos greco-romanos, passando a ser idênticos a palácios de reis. Edificações monumentais que atravessaram séculos como uma das boas heranças deixada pelos medievais; uma herança que ainda hoje nos enche os olhos.
A construção de templos na Idade Média foi algo espantosamente magnífico, pois exalava arte, e a beleza era cultuada como um fenômeno transcendente. Através da arte e da beleza podemos ver Deus nos templos antigos, como uma tentativa de capturar a natureza de uma experiência que não encontramos mais nos dias de hoje — pois a arte está em guerra com seu passado. Com a chegada do capitalismo e a pós-modernidade, castelos foram substituídos por shoppings e as igrejas tornaram-se um reflexo dessa cultura que a imita tanto em sua estrutura externa (estética) quanto interna (administrativa) — só distinguimos um shopping de um templo evangélico por causa da placa e tanto um quanto o outro está interessado somente em vender um produto, ou fazer de você um produto. Bem, parece-me judicioso deixar claro que as exceções estão aí, e que generalizar não é um caminho apropriado.
Com o advento da Reforma, o próprio Lutero tentou evitar que essa patologia de grandeza continuasse. Mas como podemos observar, as pessoas ainda insistem em edificar uma morada aconchegante para Deus, e a cada dia que passa perseveramos incansavelmente em confundir templo com Igreja. Essa confusão gera no indivíduo o sentimento de segurança, de proteção, de garantia de barganhas que o afasta da verdadeira experiência mística com o Cristo ressurreto. Uma experiência marcada por uma liberdade que arrasta o indivíduo para um mundo hostil e sem garantias, onde todas as convicções, autoridades e até mesmo o próprio sujeito passa pela peneira da dúvida e do questionamento. Esse é o carimbo da fé na consciência, que isola o indivíduo, que o individualiza e o torna único diante de Deus. As igrejas, ao contrário, insere o indivíduo na multidão, diluindo sua consciência na massa; todos orientados a encenar o mesmo ritual, diante da mesma linguagem, falando o mesmo dialeto. Nesta atmosfera, o questionamento e a dúvida são totalmente esmagados.
A necessidade de um lugar de adoração a Deus não é o que entra em questão aqui. Podemos ter um lugar, um templo, no entanto, há de se cultivar a consciência de que é apenas um lugar como qualquer outro. Não é o lugar que é o problema, mas sim a demarcação entre “sagrado e profano” a partir do lugar. O questão é condicionar Deus ao lugar, criando um ser sagrado à nossa imagem e semelhança. Assim, o problema do lugar se constitui através da burocracia implantada fazendo da igreja a ponte exclusiva entre Deus e os homens — se não é a ponte, no mínimo está no meio do caminho cobrando pedágio.
Nesse sentido, as intenções do Nazareno foi desmantelar toda essa marca deixada pelas religiões ocidentais, pois a noção de templo era concebida antes mesmo de Israel existir como nação — ou seja, o templo não é uma invenção judaica, mas sim pagã, que se constituiu no mundo antes mesmo de Moisés fincar o primeiro alicerce do Tabernáculo no deserto.
O que os religiosos viam como um ponto de encontro para um relacionamento com Deus, Jesus enxergava um salto para a legalidade como um reflexo da paixão humana pelo controle e segurança. E ele demonstra isso através de histórias como aquela do bom samaritano, em que os que eram ligados à instituição (o levita e o sacerdote), foram justamente os que negaram caridade ao necessitado.
Portanto, Jesus começa a demolir todos os trâmites da religião institucional, mostrando que Deus se revela de forma autêntica não nos rituais, pois pra ele a verdadeira epifania é o grito do oprimido (Mateus 25:42-45). Ou seja, Deus não cabe dentro de definições engessadas, como se a teologia estivesse pronta e acabada. Aliás, Deus não cabe dentro de definição nenhuma. Ele é o Indefinível. Definir é por limites; definir Deus é o mesmo que marcar um começo e um fim para o Infinito.
Ora, hoje qualquer cristão está informado de que igreja somos nós. O que não se pode observar é essas mesmas pessoas internalizando e vivendo isso até às últimas consequências, que seria a simples tentativa de viver como Jesus: viver em um mundo amando pessoas e não placas. A proposta é realmente voltar ao princípio, à simplicidade do Evangelho. Talvez seja uma postura radical e perigosa demais para almas de porcelanas, que encontram em suas denominações um lugar aconchegante, um modo de blindar suas crenças sem precisar encarar o frio e o terror de uma existência autêntica, onde o mundo é encarado com todas as suas contradições.
Sinclair Lewis, em seu romance Elmer Gantry, ainda na década de 1927, conseguiu ser bem mais impetuoso, mais dramático, e mais ousado — de uma forma que eu jamais poderia ser. Um apelo que reflete bem a situação em que as igrejas chegaram, e que discerne de modo decisivo como é uma igreja que deixa de ser Igreja:
Ninguém neste recinto, incluindo o seu pastor, acredita na fé cristã. Nenhum de nós daria a outra face. Nenhum de nós venderia tudo que tem e daria aos pobres. Nenhum de nós daria o casaco a um sujeito que tivesse tirado nosso sobretudo. Cada um de nós acumula todo o tesouro que consegue. Não praticamos a religião cristã e não temos qualquer intenção de praticá-la. Logo, não acreditamos nela. Eu portanto me desligo, e aconselho vocês a pararem de mentir e se dispersarem.
©2016 Lindiberg Mustang

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Fé e razão, entre a loucura e a inteligência

sábado, 7 de maio de 2016 Postado por Lindiberg Mustang
Entendo a fé como o maior de todos os saltos; um salto para as camadas mais profundas da existência na angustiante tentativa de criar uma abertura no universo para tocar o infinito. Louis Lavelle declara que isso é uma dialética permanente a unidade da autoconsciência. Uma experiência tão cheia de sentido que suprime qualquer hiato entre a realidade e a idealidade.
Assim, é um erro compreender a fé como um mero símbolo de barganha para conseguir os favores de Deus. Os cristãos abandonaram o sentido — e consequentemente a experiência — existencial da fé contida nas Escrituras, assimilando-a a ajuntamentos cada vez maiores nas igrejas, todos orientados na mesma direção e arrolados no mesmo engano; transformaram a fé em sinônimo de conquistas financeiras, numa relação de posse e egoísmo, de obediência aos usos e costumes, aos dogmas, quando na verdade é o oposto disso; ou seja, uma viagem para as determinações mais profundas da existência tendo exclusivamente a implicação do encontro com o Eterno. Trata-se não só de seguir uma verdade, mas de experimentá-la, e vive-la até as últimas consequências.
Lavelle nos faz entender que essa não é uma experiência permanente  é rápido e embaraçoso; "são momentos privilegiados que parece que o Universo se ilumina e afigura-se como se nós mesmos tivesse escolhido nosso destino; depois o Universo volta a se fechar e logo tornamo-nos novamente solitários e miseráveis". Portanto, a sabedoria consiste em fazer permanecer em nossa memória esses momentos paradoxais e construindo sobre eles a trama da nossa existência quotidiana, e por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.
A confusão em apreender a fé reside em confundi-la com crença. Ellul, que faz uma lúcida distinção entre fé e crença, me convenceu de que crenças são meras insígnias e práticas que no final apenas atrapalha o grande passo para a fé. A crença turva nossa percepção de Deus transformando-o num ídolo, isto é, numa força a ser manipulada e temida. A fé, como deixa claro Kierkegaard, “é um incrível paradoxo capaz de transformar um crime em um ato santo agradável a Deus; paradoxo que não pode ser reduzido a qualquer raciocínio, pois principia exatamente onde termina a razão”. Dessa forma, Kierkegaard relaciona a fé à maior paixão humana, “uma relação absoluta com o Absoluto”.
Quem abraça a fé abraça também o desconforto, a insegurança e a dúvida, pois é um movimento que o deixa sozinho com um Deus que talvez pode não estar lá. Logo, a razão não serve mais como um guia, porque ainda está emaranhada pelos limites estabelecidos da cultura e da sociedade. Abraão não se deixou levar pelos elementos culturais ou os valores éticos de sua época ao decidir sacrificar seu próprio filho. O pai da fé se lançou de imediato em direção ao paradoxo da vida. Por amor a Deus, e de modo idêntico, por amor a si mesmo.
A fé é um milagre e ninguém está excluído dela, entretanto, não é conveniente dizer que os filósofos gregos deram o salto da fé. Porém, podemos acatar o esclarecimento de Eric Voegelin, que afirma que através de uma ordem noética os gregos tiveram o salto no ser. Sócrates fez o movimento infinito sob o critério intelectual, puramente cognitivo. Neste caso, a razão se torna a simples tendência da inteligência humana em direção ao fundamento, ou seja, a ordem divina. Para Platão, a realidade não pode ser desprovida de um alicerce transcendente, pois seria impossível pensar logicamente sem as determinações dos princípios universais. Isso é importante, e chegar aonde eles chegaram já é uma tarefa bastante elevada para as forças humanas; contudo, não seria possível abrir essa perspectiva sem o toque divino.
Os gregos entendiam a razão como o espírito, portanto, tudo que daí procede já nasce fechado para os limites da razão. Logo, a fé proposta pelo Evangelho, para eles era filosoficamente loucura, um suicídio intelectual. Platão e Aristóteles foram aos limites da razão na tentativa de esclarecer a realidade conceitualmente, através de definições e explicações. Segundo esse modo de encarar o mundo é possível dissecar a realidade a partir de um refinamento constante dos conceitos de que trata, tendo sempre a razão como a ferramenta que baliza e orienta o indivíduo na busca da verdade.
A questão é que o Evangelho estabelece um novo sentido para o que seja a verdade; eis a grande loucura do Evangelho: a verdade não pode ser depurada, corrigida, não pode ser dividida ou sequestrada pela retórica, pois não se trata de um conceito e sim de uma Pessoa. Não se trata de aderir a uma “doutrina cristã”, mas de confiar numa pessoa que se comunica com você. Então, não há outro modo de compreender e discernir a verdade a não ser através da fé. Por isso Paulo nos guia a seguir a verdade em amor; ou seja, trata-se seguir a verdade, e não de adotar um sistema de doutrinas ou teorias obcecadas pela perfeita formulação conceitual. Seguir a verdade é o mesmo que “seguir Jesus” — e viver todas as consequências dessa escolha.
Ainda assim, é preciso deixar claro que o salto da fé não exclui a razão, não é um movimento irracional preenchido de uma realidade abstrata. A fé assimila a razão formando uma unidade na consciência, reconhecendo o Definitivo em sua verdade incontestável. Portanto, a fé é a presença cada vez mais clara da realidade, não aceita nada imposto de fora; encara tudo com a máxima seriedade em face daquilo que é permanente, da eternidade, e em última instância, daquilo que é decisivo. Tudo que é transitório será olhado à luz do que é definitivo.
Diante disso temos duas escolhas: aceitar o refúgio da crença como um escape da realidade, como consequência da nossa busca natural por proteção, ou ser inundado pela fé e viver como um andante na existência, e não como um pedestre.
©2016 Lindiberg Mustang
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A supremacia da igualdade

quinta-feira, 5 de maio de 2016 Postado por Lindiberg Mustang

Jesus foi o único homem que recebeu a pura revelação de Deus e a transmitiu de forma igualmente genuína. Por isso não faz sentido separar o modo como Jesus enxergava o mundo e a realidade, apresentada nos evangelhos, do modo como os apóstolos assimilaram essa mesma realidade ao escreverem suas cartas no decorrer do Novo Testamento. Digo isso, porque, como Paulo Brabo acentua muito bem, “parece que existe uma fratura que separa as duas porções do Novo Testamento — de um lado os quatro evangelhos, do outro todo o resto”; um abismo mais profundo do que aquele que separa o Novo Testamento do Antigo.
O que Paulo disse, escreveu e ensinou foi acolhido pelos cristãos de forma tão apaixonada ao ponto de não ser mais possível intuir a simplicidade do Cristo nos quatro evangelhos. Não acredito que existam disparidades entre o que Paulo escreveu e o que Jesus disse, mas penso que haja dessemelhanças profundas entre boa parte dos cristãos e a unidade do Evangelho, que compõe todo o Novo Testamento.
Se me permitem, uma dessas dessemelhanças é em relação à sexualidade e — num contorno mais estreito — em relação à mulher. A maioria das culturas antigas foram desenvolvidos mecanismos para legitimar a superioridade do macho, e isso é ilustrado explicitamente no judaísmo: no templo, as mulheres não podia se aproximar do Santo dos Santos e a desigualdade nas sinagogas era delimitada da mesma forma: as mulheres tinham que manter uma distância semelhante na hora do ensino. Numa sociedade em que um homem não conversava com mulheres em público ou em que um rabi jamais se deixaria ser tocado por elas, Jesus, além de não dar bola pra isso, teve um atrevimento sob medida para romper com toda essa tradição, resistindo qualquer tipo de tentação de legislar algum tipo de norma para as ralações interpessoais.
A postura de Jesus é delicada e aparentemente o apóstolo Paulo nada tem a dizer sobre isso. E se Paulo nada tem a dizer, que dirá então a igreja dos séculos seguintes, que preferiu cortejar, através de uma afinidade ideológica, bem mais os refinamentos filosóficos paulinos do que a simplicidade de Jesus ao tratar a vida. Paulo parece ter entendido a radicalidade de Jesus de maneira mais acanhada; ele não titubeia em dizer que o homem é o “cabeça” da mulher; instruiu que as esposas devem ser submissa aos maridos e não diz nada contra a escravidão em si. A igreja, mais apaixonada pelos discursos teológicos de Paulo, optou por conservar a mesma estrutura da superioridade do macho. Agostinho (354-430 d.C.) opinava seriamente que o homem é feito à imagem de Deus, mas não a mulher. Tertuliano (160-220 d.C.) determinava que as mulheres reconhecessem ser o “portão do inferno”, “responsáveis pela entrada do pecado no mundo e pela morte do Salvador”.
A mera passagem do tempo não parecia melhorar as coisas. Mil anos depois de Tertuliano, Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.), influenciado pelo caráter aristotélico de enxergar a realidade, concebia a mulher como “um homem malfeito”, não possuindo uma alma racional — uma criatura apenas para “assistir com a procriação”.
Apesar disso, o cristianismo é sem dúvida a primeira religião a favorecer uma visão romântica da mulher, principalmente depois da veneração de Maria — uma reverência superestimada já no quarto século da cristandade. Maria era a personificação da bondade, da afeição e da benevolência: a mãe de Deus. Uma marca que de certo modo seria compartilhada por, abre aspas, todas as mulheres, fecha aspas. Paulo Brabo nos lembra de que a mulher medieval — e posteriormente a mulher moderna —, do dia a dia, era impura e “com frequência vilipendiada, segregada e usada como bode expiatório". Mas a maldade não é privilégio dos homens; e as mulheres podem produzir, e efetivamente produzem, como qualquer ser humano, tanta crueldade quanto. Há inúmeros registros sobre isso, inclusive em histórias bíblicas como de Jezabel, ou da mãe que devora seu próprio filho para não morrer de fome (2 Reis 6.29), também justificava certo ar de repugnância.
A despeito disso tudo, não penso que essa história se resume em algum tipo de conspiração de homens para explorar as mulheres. Penso nisso mais como um arranjo cultural desenvolvido organicamente. Não quero dizer que é eticamente certo agir assim, mas uma cultura não é uma entidade ética. Não é disso que se trata. E claro, o comportamento dos membros de uma sociedade que ilustram suas relações através de jogos sociais de poder deve ser mudado. E por pensar assim, as atitudes de Jesus foi um choque para sua época, e um chamado para que todos recusem e abandonem os mecanismos de controle e manipulação que este mundo produz. Assim, o reino de Deus se prefigura como uma fraternidade de irmãos que renunciam contundentemente qualquer forma de dominação, especialmente quando se trata de mulheres.
O rabi de Nazaré foi o primeiro que elegantemente tratou de minar essa ideologia da supremacia do macho; recusou-se a endossar a característica de um macho dominador começando pelo fato dele não ter sido casado. Uma escolha voluntária no mínimo singular pra época, principalmente pra quem desejava ser um mestre espiritual. Para um judeu, casar era uma indicação básica de masculinidade e portanto de valor. Jesus deixou claro que seu valor não estava fixado na postura de ser um provedor ou reprodutor. Ao contrário, por vezes o seu sustento foi promovido por mulheres.
O que não pode ser dito dos homens daquela época é que Jesus não só se sentia à vontade diante das mulheres — para visita-las, ensiná-las, bater um papo na beira de poço — mas também saiu em defesa delas. Ao tomar partido de uma mulher apanhada em adultério, Jesus prediz não só um reino de igualdade — pois somente a mulher iria ser punida —, mas também um reino onde a misericórdia suplanta todo juízo diante do pecador. O amor sempre fala mais alto que a justiça da Lei. É disso que se trata. Nada permanece o mesmo depois de ser tocado pelo amor.
Diante disso, o que Jesus fez foi pregar a igualdade entre homens e mulheres dois mil anos antes desta questão virar pauta ideológica. O feminismo obscurece o assunto quando acentua e radicaliza a igualdade negligenciando as diferenças (biológicas, psicológicas, simbólicas, social), enquanto a ideologia da superioridade do macho acentua e radicaliza as diferenças na medida em que negligencia a igualdade. O Evangelho, por outro lado, realça que homens e mulheres são iguais em termos de humanidade. É nessa consciência que Jesus anuncia essa boa nova.
Para os escritores do Novo Testamento essa boa nova soou como uma mensagem essencialmente universal. Paulo, da qual a igreja salientou somente suas recomendações truncadas, sobre as mulheres permanecerem caladas nas assembleias e submissas como afirma a própria Lei, escandaliza os ouvintes de sua época ao afirmar que “em Jesus não há judeu nem grego, nem escravo nem livre” — e pasmem — “nem homem nem mulher” (Gálatas 3.28). A supremacia do macho se desfalece diante da destruição do muro que separa os homens, pois todos formam uma unidade em Cristo. Paulo também coloca a mulher em pé de igualdade marital dizendo que “a mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido; e o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher”. A visão de casamento tradicional também foi minada por Jesus quando resgatou o arquétipo do Gênesis do “serão um só corpo”, onde o amor seria o laço dessa união. Um laço tão bem amarrado que Paulo não hesita em dizer que os maridos devem estar prontos para morrer por suas esposas.
Essa igualdade está explícita simbolicamente na descida do próprio Deus ao nível do ser humano. Deus se encarna de modo que todos puderam olhá-lo nos olhos, face a face. Essa é a manifestação mais formidável, reforçada em todo o Novo Testamento, de que a horizontalidade do amor de Deus é um terremoto que faz desabar todos os mecanismos de controle e manipulação que sustenta a ordem desse mundo. Esta é a revolução do reino: encarar as desigualdades fincadas na ganância, na superioridade moral, na hierarquia, na expropriação do mais fraco, enfim, encarar tudo isso na consciência de que a graça é uma força mais poderosa do que o ódio, que rompe todas as relações disformes entre os homens.
©2016 Lindiberg Mustang

O poder de quem abriu mão do poder

segunda-feira, 2 de maio de 2016 Postado por Lindiberg Mustang

Quando exponho meus pensamentos políticos, sempre faço de forma desajeitada, como quem fica comendo pelas beiradas. Numa dessas brincadeiras, sentado com alguns amigos em frente uma lanchonete, disse desanimadamente que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Frase épica de Lord Acton.
— E Deus — replicou um amigo, discordando de modo categórico —, Deus é o detentor de todo poder e autoridade.
Bem, preciso adiantar que o homem não precisa do poder para se corromper. Essa tendência humana é inata. O desejo de dominar e de subjugar já está embutido na própria natureza humana, e isso é irreversível; o poder, apenas potencializa esse desejo lucifericamente.
O interessante dessa questão é que praticamente em qualquer contexto teológico, esta afirmação torna-se contundente: Deus é o detentor de todo poder e autoridade. Esta declaração nos leva de imediato para lugares comuns, com imagens dantescas de um Deus guerreiro, poderoso, implacável e que destrói seus inimigos. Penso que Jesus, o único homem que revela a totalidade do caráter e da ação divina, nos apresenta Deus com traços diferente desses desenhados na imaginação dos evangélicos.
Explico. Mas antes vamos voltar um pouco para o Antigo Testamento. Lá, Deus é apresentado com muita pompa, manifestações deslumbrantes, trovões, raios e fogo. Apesar disso, o vemos andar em consonância com gente como Abraão, que demonstra ter uma moral inferior à dos adoradores do deus sol; fica do lado de gente como Jacó, que engana o irmão descaradamente; perde tempo tentando convencer Moises, um gago com antecedentes criminais, a guiar um povo escravizado numa terra alheia; Deus acerta os ponteiros com murmuradores ruidosos como Jó, assassinos como Davi, mas, em nenhum momento Deus se deixa se compactuar com altivos, presunçosos e arrogantes. Deus trabalha ao lado de gente aparentemente fraca, incapaz, daqueles que recusam o chamado, pois, só os que rejeitam o poder estão aptos a geri-lo.
Os hebreus é o povo que melhor dilataram a revelação de Deus – quando o povo era apenas povo. E esse povo foi escolhido não por que era a melhor nação ou a mais bem sucedida; pelo contrário, eram escravos. E Deus age no meio desse povo não como um senhor soberano e dominador. Não! Deus intervém na história como um libertador. O Êxodo, que na tradição hebraica é o primeiro livro da Bíblia, apresenta justamente o Senhor que nos trás liberdade.
Diante da leitura do Pentateuco vemos que Deus levantou Israel para ser como espelho para os outros povos. Um dos ditames da Lei era para não se juntar aos outros governos, mas caso os outros reinos quisessem manter vínculo, o conselho era para que os israelitas os recebessem passivamente. Pois bem, Israel não só quiseram manter conexão, como também quiseram um governo semelhante aos outros reinos. Diante de pessoas com consciência mais elevada — como Samuel —, isso foi uma violação, uma atitude retrógrada. Diante de Deus, a atitude foi como uma total rejeição.
A partir de então, a Lei — que era a suprema autoridade entre o povo, acima de sacerdotes e reis —, não estava sendo o suficiente para guiar o povo. Deus, então, coloca em cena uma comitiva de profetas que tinha como missão denunciar a corrupção do povo, em geral, e do poder oficial, em particular. Os profetas — tendo Elias como seu representante —, geralmente são aqueles que falam o que todo mundo tá vendo, mas ninguém tem coragem de bradar. A maioria de suas acusações sempre bate de frente com o rei. Sem dó e nem piedade, o profeta é aquele que fala em nome de Deus, e decididamente traz juízo sobre o poder centralizado que oprime e leva a nação ao abismo. O próprio Davi é um dos maiores exemplos; homem segundo o coração de Deus, autor de poesias belíssimas e ao mesmo tempo um homem truculento, homicida, péssimo pai e vingativo. Não escapou do juízo de Deus por seus abusos de autoridade.
As discursões sobre o poder não tem fim. Thomas Hobbes (†1679), teórico sobre a lógica do poder de estado, diz em seu famoso Leviatã que os homens em geral têm a tendência perpétua de desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte. E a razão disso não é a espera de um prazer mais intenso, mas, simplesmente o fato de que o poder só pode ser garantido na busca de mais poder. O principal motivo para o rompimento do psicanalista Adler com Freud foi por achar era o poder e não o prazer (a libido) a pulsão central da psique. E como disse George Orwell, “ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas o fim”.
É notável nas Escrituras o desprezo de Deus pelos poderosos. Diz o salmista que: “Embora o Senhor seja excelso, atenta para o pobre e humilde, mas ao soberbo, o rico e o dominador, os rejeita, pois conhece de longe” (Salmo 138:6). No Evangelho de Lucas, todos os ricos são aferidos com julgamentos ironicamente perturbadores. Jesus se mostra nos Evangelhos como um Deus único, singular, ímpar e totalmente imprevisível, chegando ao ponto de retirar de si todo o manto que o determinava como um deus — tradicionalmente concebido pela historia.
Jesus deixa subentendido que o poder é divino somente pela origem; no seu exercício segue os mecanismos de todo poder profano com seus mecanismos de segurança e de controle. Dessa forma, o carpinteiro de Nazaré se apresenta como um Deus que rejeita ser deus, sendo assim o verdadeiro Deus; ele “se esvaziou, assumindo forma de servo e a si mesmo se humilhando”, admitindo que é justamente a sua humildade a coroa de sua gloria. E por esse motivo, o nome de Jesus está acima de todo nome (Ef 2:7-11).
Tratando o nosso mundo de forma irônica  pois, não há outra forma de abordar um mundo decaído como o nosso , Deus vira todos os valores concebidos por nós de cabeça para baixo. “O maior é aquele que mais serve”, “aquele que se humilha é que é verdadeiramente exaltado”, “quando estou fraco é ai que sou forte”, “a sabedoria dos homens é loucura pra Deus”, e a lista não para aqui, deixando a entender que o poder, na verdade, está nas mãos daqueles que rejeitam no encosto da simplicidade, na doçura da naturalidade.
Dessa forma, nem sempre é possível notar isto nas manifestações divinas do Antigo Testamento, pois, Deus geralmente é ofuscado por revelações deficientes e desajeitadas. Sobremodo, Deus só é verdadeiramente revelado em sua totalidade na pessoa de Jesus — e somente nele. Nem Abraão, nem Moises, ou Davi, ou Elias, conceberam a revelação de Deus fielmente. Somente na pessoa de Cristo a revelação foi filtrada com total pureza. Não é por acaso que Paulo afirma que a Lei é sombra das coisas que haveriam de vir, ou um escravo, que serviu apenas para nos guiar a verdadeira realidade. Jesus é nosso modelo de subversão.

©2016 Lindiberg Mustang

A simplicidade da santificação

quarta-feira, 8 de abril de 2015 Postado por Lindiberg Mustang
O maior desserviço do movimento evangélico está no fato de ter incutido no inconsciente coletivo de que só é possível falar de Deus se, de alguma forma, formos escravos de púlpitos. Ou seja, se você não é membro de alguma igrejinha, não usa gravata na hora de pregar, não segue determinados usos e costumes, provavelmente pouca gente te dará ouvidos.
Já está implacavelmente inserido no imaginário das pessoas o estereótipo de quem tem “autoridade” para falar de Jesus. Geralmente são aquelas pessoas que exalam certo tipo de “santidade”; nesse caso, santidade, seria um abraço a certas regras como: não ouvir “música do mundo”, não beber álcool, não jogar bola, dizer (apenas dizer) que não assiste novelas, frequentar campanhas, internalizar um novo vocabulário — palavras como: "vaso", "canela de fogo", "levita", "na carne", "retété", "tá amarrado", "vigiar", etc., a lista é grande e, qualquer pessoa que não esteja disposta a introjetar estes elementos do mundo gospel, será uma voz solitária.
Ora, para o Mestre de Nazaré, santidade é o próprio crescimento do ser na graça; isto é, um crescimento da consciência humana na própria pessoa de Jesus. Isto se resume numa caminhada de amor e misericórdia, e não numa lista de coisas a se fazer, pois, santificação não é uma burocracia divina. Santidade, para Jesus, é simplicidade, gratidão e contentamento; é amar quem ninguém ama, mesmo que isso signifique transgredir a lei. Santidade é maturidade para não se escandalizar com mais nada nesta vida, sabendo viver tudo que é lícito e discernindo o que convém e o que edifica.
A visão dessa moçadinha evangélica sobre santidade é pagã, farisaica e cheia de justiça própria, anulando totalmente a graça. Assim como os fariseus, tratam a lei com extremo zelo, ao ponto de sacrificar pessoas pelas regras. Quando falam em santificação, falam de suas próprias angústias, pois não enxergam o que foi realizado na Cruz. Nesse meio há uma pobreza da linguagem falada e vivida; “pastores” que são masturbadores de metáforas e não pregadores autênticos; não sabem o sentido do que ensinam. O movimento evangélico pode tranquilamente ser resumido como um povo que vivem a acender a fogueira das vaidades, com cultos sem a elegância da simplicidade, e totalmente desconexos com o movimento da Igreja Primitiva. E é justamente essa falta de conexão com o verdadeiro Evangelho que guia o movimento evangélico a essas novidades, fazendo a neurose ser identificada como devoção.
No momento em que estivermos seguro de já estarmos cumprindo os dois mandamentos supremos do Evangelho (amar a Deus acima de tudo e o próximo como a si mesmo), não haverá mais desejo de nenhuma regrinha imposta por instituições religiosas. Essas normas a cada dia se revelam mais inúteis do que nunca. É por pensar assim que há evangélicos que adorariam me ver no inferno, porque não sou “gospel” o suficiente segundo seus rigorosos critérios (graças a Deus não são por eles que sou julgado). Paulo, que era um apóstolo de verdade, nos adverte que “tais regras, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, todavia, não tem valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.8-23). Pensem comigo. Aliás, nem se deem ao trabalho de pensar. Apenas concordem. É preciso maturidade diante de questionamentos como: é lícito fumar? É lícito ouvir Cazuza? É lícito dizer palavrões? É lícito beber cerveja? É lícito achar Jean Wyllys um imbecil?
O apóstolo Paulo é excepcional ao dizer que é “bem aventurado o homem que não se condena naquilo que aprova” (Rm 14.22). Ora, admiramos e citamos com frequência homens como Lutero, que sabia apreciar uma boa cerveja; Calvino, que às vezes recebia seu salário em toneis de vinho; Charles Spurgeon (considerado o príncipe dos pregadores), que fumava charuto pra relaxar; C. S. Lewis, que fumava cachimbo e bebia whisky; Dostoievski, que gostava de vodca e, que tal Jesus, que comia com estelionatários, bebia com publicanos e era amigão de prostitutas (Lc 7.34). Esses homens entenderam perfeitamente as palavras do rabi de Nazaré quando disse que o que “contamina o homem não é que entra pela boca”… não é modelo da roupa, não é o teor alcoólico do vinho, não são os acordes de “Faroeste caboclo”, não é a marca da maionese e, sim, o “tamanho da língua”.
Finalmente, quem entendeu o Evangelho, entendeu que “tudo é puro para os que são puros” (Tt 1.15); entendeu que santificação não é uma conquista do indivíduo, não é mérito, não é medo; é graça, percebida pelo fruto da vida, em amor.


©2015 Lindiberg Mustang

O homem e a deformação da realidade

segunda-feira, 2 de março de 2015 Postado por Lindiberg Mustang
Vivo neste mundo como um estrangeiro em minha própria época; e é por este motivo que sou sucumbido por ele. Um indivíduo que pretende ser fiel à sua própria consciência em um mundo onde todos usam máscaras, com certeza será um incômodo para essa sociedade do espetáculo. Paulo Brabo diz que “Deus oferece aos santos dois destinos, não ser nada ou não ser compreendido”. No meu caso, fui acachapado com os dois.
Levando isso em conta, vez e outra alguém retruca: “Lindiberg, você diz essas coisas, mas, afinal, em que você acredita?” Uma pergunta válida e honesta que jamais poderia ser respondida em poucas linhas. Entretanto, minha vaidade não me permite ficar calado.
Sou cristão, e a pessoa de Jesus lança luz sobre tudo àquilo em que creio. Acredito na liberdade humana, em sua autonomia moral e intelectual, todavia, só em Jesus podemos ser de fato livres (Gl 5.1). Porém, em nossa liberdade escolhemos ser mais escravos do que de fato senhores de nós mesmos. A liberdade humana é o elemento central para entendermos a realidade circundante; somos livres dentro de nossos próprios limites.
Acredito na inerente corrupção humana herdada do “pecado original”. Somos seres inclinados ao caos, e somente através da supremacia da vontade humana sobre a condição humana podemos vislumbrar uma autêntica atitude revolucionária. Ou seja, foge de nossas possibilidades a capacidade de nos salvarmos. O problema consiste no fato de pouca gente ter entendido isso durante toda a História. O homem, sempre em algum momento dá um jeito de erguer seus “bezerros de ouro”: o dinheiro, o Estado, a tecnologia, a propaganda, o Mercado, tudo isso são produtos da ação humana, que se tornaram potências com suas devidas autonomias. Cada uma delas é independente, possuindo suas próprias leis; governam por si mesmas e sempre, sempre exigirão a total devoção do homem. Durante todas as épocas, sempre houve homens que depositaram sua confiança, segurança e sua esperança no Estado, no dinheiro, no Mercado, etc.
O homem deformou a realidade face a revelação de Deus, criando seus próprios deuses, sendo incapaz de construir com a ajuda exclusiva da moral, uma relação justa com o dinheiro ou qualquer uma das potências citadas. Potências que aniquilam a consciência, controlando ao mesmo tempo a organização objetiva da sociedade e o drama humano.
Todavia, nem a teologia, nem a Bíblia nos dão indicações que permitem decidir sobre a excelência de um sistema econômico ou de governo; não há uma doutrina política cristã. Ora, parece decepcionante não se possuir um sistema que corresponde à fé cristã; no entanto, Jacques Ellul salienta que “nenhum sistema pode nem corresponder a esta realidade nem organizá-la”. Isso porque o cristianismo em si é mais realista e cheio de substância que qualquer um dos três ou quatro sistemas que estão aí disponíveis, querendo estabelecer a organização da sociedade. A Revelação nos mostra qual é a realidade exata do homem e do mundo. E quando nos deparamos com essa Revelação, não encontramos uma filosofia, ou uma política e nem mesmo uma religião. Ellul conclui dizendo: “Nós encontramos um engajamento de um diálogo. Uma palavra pessoal que me é endereçada e que me interroga sobre o que eu faço, sobre o que eu espero e definitivamente sobre o que eu sou”. Somente neste entrelace que há a possibilidade de uma genuína liberdade.
Ora, se por um lado a Bíblia não nos fornece um sistema político ou econômico, por outro, a Revelação nos orienta a conviver com essas potências da maneira mais sóbria possível, sem se deixar escravizar por elas.
O homem escreveu sua própria história, criando seus próprios grilhões, sendo incapaz de se libertar. Shakespeare já nos avisou que a História é verdadeiramente uma narrativa contada por um idiota, é ruído e furor. A História está comprometida, o mundo está comprometido. É por isso que Deus penetra em nossa realidade, como o Filho do Homem, produzindo libertação e esperança na alma daqueles que nele confia; mostrando que a História não é um desenrolar mecânico de uma ordem preestabelecida. Não é pelas suas obras que o homem chega à liberdade; ele precisa ser liberto, precisa ser salvo. O verdadeiro sentido da história é a conclusão na liberdade. Somente Deus porá fim (e o homem terá sua participação) em toda desordem arquitetado pela obsessão humana; porá fim em toda potência que exige do homem adoração, e por fim, em todo engano lançado pelo Inimigo.
Claro, esta conclusão não nos deixa passíveis e confortáveis diante da realidade. Pelo contrário, nos comprometem e nos fazem entrar numa caminhada pessoal de resignação diante das configurações que sustenta o mundo (Rm 12.1). Dessa forma, não há nada mais imbecil do que a tentativa das instituições de santificar a sociedade, o Estado ou o dinheiro. Essa prática sempre se afunilou em desastre, pois o inimigo sempre será irredutível e impessoal; ou seja, o mundo continua mundo, o dinheiro continua dinheiro... A primazia do Evangelho, portanto, é exatamente mostrar essa realidade.

©2015 Lindiberg de Oliveira
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Os limites institucionais

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 Postado por Lindiberg Mustang
É muito significativo a fragmentação institucional do cristianismo neste último século. Claro, uma análise bem sucedida sobre este fenômeno comporia um livro, certamente; no entanto, vou me deter somente em poucas e rasas linhas.
Estou convencido de que essa fragmentação dentro do cristianismo tem seu princípio nas próprias configurações da instituição; ora, as instituições religiosas carrega em si mesmas o germe de sua própria ruína. Mas talvez eu esteja me adiantando, caro leitor; vamos primeiro compreender o cenário religioso que influenciou todo o ocidente.
Grosso modo, o cristianismo pode ser dividido em duas facções: catolicismo e protestantismo. O catolicismo pode ser visto como uma instituição muito bem definida; não cedendo às variações, às crenças e costumes das épocas, sempre se comportou como uma instituição inflexível no decorrer da história. Apesar dos partidos que ora e outra se divergem dentro da própria igreja, como os franciscanos, jesuítas, movimento carismático, etc., é comum todos darem as mãos formando uma unidade dentro da própria instituição. Bem, não é assim no protestantismo.
O protestantismo tem como parteira o desconforto e a reação de Lutero e Calvino diante de alguns abusos do catolicismo. No entanto, o protestantismo não se saiu melhor; foi construído sob dissenções e brigas, que consequentemente gerou várias outras no decorrer de seu desenvolvimento. Cada um dos grupos gerado por essas dissenções se apropriava da Revelação dizendo-se dona do monopólio divino. As igrejas oriundas da Reforma como Anabatista, Luterana, Anglicana, Presbiteriana, foram gerando outras com discursos tão fundamentalistas quanto estas; “nós somos a igreja verdadeira e o resto é fake”. Vale dizer também que nesse contexto, as disputas entre católicos e protestantes se transformou em um campo de batalha sangrento, onde os princípios mais básicos do Evangelho foram ignorados.
Ainda hoje, dentro do protestantismo, há várias instituições que carregam em seus dogmas a convicção de ser ela o “último Bastião de Deus”. Igrejas como Adventista, Testemunhas de Jeová, Congregação Cristã, Mormons, etc., rejeitam qualquer tipo de diálogo que coloquem em xeque suas autoridades institucionais como “igrejas verdadeiras”. Ou seja, não há unidade no protestantismo; o que há é uma delicada obsessão pela placa, pela bandeira, pelo grupinho; o que há é uma grande concorrência no mercado religioso pra ver qual é a instituição que oferece a “verdade” mais digestível. Nem mesmo na presente época, onde ser de Deus virou modinha, conseguimos superar as fronteiras desse caldo institucional. A geração de evangélicos atuais é herdeira desse mal que se fermentou ao longo dos séculos.
Jesus é a superação desses limites institucionais, já que, Deus não tem religião. O Rabi de Nazaré veio desmantelar todo esse arcabouço religioso que nós insistimos em edificar; desconstruiu toda estrutura hierárquica de relacionamentos em que as igrejas insistem recosturar; implantou a união entre os homens e Deus, enquanto a religião segue promovendo suas divisões; com sua morte, Jesus removeu todas as indulgências, penitências e débitos, que são abraçados tanto por quem se diz evangélico quanto por católicos; instituiu a graça como base para salvação, sendo que nós a pisoteamos todos os dias, pois achamos que podemos ser salvos através de nossos próprios esforços, pela quantidade de tempo que oramos, jejuamos ou falamos de Deus no Facebook.
A religião não sabe como amar; ela só reconhece suas próprias demarcações. A religião é responsável por transformar tudo numa grande efusão espiritual que embevece, alucina, entorpece as multidões, sem que o Evangelho seja anunciado e refletido. Jesus veio estabelecer a ordem na alma e desatar esse nó em que muitos insistem em permanecer amarrado. Não existe mais um espaço geográfico para fixar o limite do agir divino, “não é neste monte e nem em Jerusalém” (Jo. 4:21); o mundo todo é o limite de Deus; seu templo é feito de carne e sangue, e não de tijolos. E é através de carne e sangue que a boa nova é transmitida.

O mundo e suas fábricas de ilusões

sexta-feira, 29 de agosto de 2014 Postado por Lindiberg Mustang
Nossa época é marcada, como diz Bauman, pela liquidez da realidade. Não vejo definição melhor. O homem contemporâneo, vaidoso de suas tecnologias e conforto, é um “cadáver ambulante”, uma mascara, onde existir se torna autenticamente um fardo pesado. Como ser livre é angustiante, as pessoas preferem deixar-se guiar pelas ocasiões aleatórias que se apresentam; o efêmero, o transitório e o acidental tornam-se precisamente a realidade imediata do homem moderno.
Ora, essa questão não é totalmente perceptível. Vivemos numa era onde mentir virou modinha, e a autoajuda faz isso muito bem; não acredite em algum “segredo”, ou “dez passos” para ser feliz, muito menos nos belos sorrisos das redes sociais. Falar a verdade é optar por caminhar sozinho, e por ser surrado sozinho também – poucas pessoas se sensibilizam quando ouvem a verdade. Por isso tento ser visceral quando escrevo. Decidi levar a filosofia a sério e, por isso, já estou sendo apontado como o “cara que faz as pessoas pensar no que elas não querem”. Expor nossas misérias é manusear uma espada de dois gumes; eu saio dilacerado tanto quanto àquele que me lê – a ironia custa caro, meu amigo.
A modernidade é habitada por prisioneiros da vaidade; somos escravos da técnica, da TV, da propaganda, da religião, das ideologias, do pastor, do padre, da Bíblia, do Estado, do Facebook, etc. O capitalismo, o mercado e o consumismo proveniente destes, nos faz correr sem parar. Mas correr pra onde? Isso ninguém sabe. Vivemos sem um telos (finalidade), os meios é que ditam as regras, "a mensagem é o meio" como diria McLuhan, e a ordem é: corra sem parar, porque se parar você pensa, e quem pensa sofre. Por correr, quero dizer: compre, consuma, seja feliz, deixe-se seduzir pela miragem das promessas do mercado, do dinheiro, do lucro, do progresso, etc. 
Essa é a doce ilusão de que o capitalismo vai transformar o mundo em um lugar justo, em que qualquer um pode enriquecer e ascender a uma escala social através de uma meritocracia. Por outro lado, tentar enxergar uma alternativa no comunismo é se inebriar na alucinação de que o Estado – esse ser impessoal, o qual Nietzsche chamava de “o mais frio dos monstros” – tem a capacidade de resolver nossos problemas. O Estado tem o domínio do seu corpo; o capitalismo, da sua alma.
Do jeito que as coisas andam só posso concluir que estamos caminhando para uma distopia, onde o Admirável mundo novo, de Huxley, seria semelhante a um conto de fadas. Uma distopia onde a revolta é inexistente; onde a revolução será apenas mais uma invenção de um produto que você vai desejar comprar; onde a esperança não passará de um mero conceito abstrato. Mas já não é mais tão interessante dizer que a vida não tem sentido e que o mundo não é um lugar seguro; isso não é uma novidade e já não abala mais ninguém. As pessoas descobrem isso até no supermercado quando vão fazer suas compras – aliás, as pessoas vão fazer compras justamente para suprir a falta de sentido.
Na verdade, o que me seduz é a possibilidade de ter esperança; a possibilidade de construir uma verdadeira comunicação, um vínculo graciosamente genuíno. Isso, hoje, é o verdadeiro milagre: estabelecer a graça como a base dos relacionamentos diante de um mundo onde o lucro é a medida de todas as coisas.
Apreender o mundo dessa forma, sendo guiado pela vibração da graça, não nos garante uma vida afortunada, no entanto, nos certifica de uma vida autêntica, onde o indivíduo começa por dar um mergulho em si mesmo, se construindo no âmbito da consciência, e não se diluindo na massa, no geral, na religião, nos partidos políticos, na militância ideológica, onde o excesso de comunicação atrapalha a verdadeira comunicação, pois transforma todos em bandos, em massa de manobra, em desordem existencial, culminando em uma abstração do sistema, o que para Kierkegaard seria “as orgias espirituais da filosofia contemporânea”.
Jesus, o Verbo, nos convida a superar essa falta de caráter de nossa época; nos atrai a caminhar na liberdade, a optar pelo que é eterno, pelo absurdo da fé, sustentando um rompimento com a “justiça” universal fechada numa moral onde o que prevalece é a culpa. Enfim, os discípulos de Jesus nos mostram que a vocação essencial do cristão não é sair vomitando doutrinas e regras a torto e a direito, mas denunciar todas as fábricas de ilusões, que geram desumanização – principalmente aquelas que se autolegitimam sagradas ou divinas. 
O reino de Deus é marcado por gente que abre mão dos seus direitos em favor dos que nada têm; é marcado pela dilatação da Esperança, que transcende a mera objetividade e conceitos abstratos sem sentido. O reino de Deus é de outra ordem e, com certeza se torna escândalo neste mundo. Não é por acaso que nosso mundo não é muito acolhedor com aqueles que amam e ousam questioná-lo – Francisco de Assis, Thoreau, Gandhi e Luther King que o diga.

©2014 Lindiberg Mustang

A autoajuda e sua não-possibilidade

quarta-feira, 30 de abril de 2014 Postado por Lindiberg Mustang

Ser lúcido diante da vida é uma atitude pra poucos. O normal mesmo é achar que podemos encontrar a felicidade bem ali na esquina; ou achá-la manuseando um guia prático – tipo, “dez passos para ser feliz”, “sete lições para ser bem sucedido” –, como se fosse uma receita de bolo. O interessante é que livros com esses títulos estão sempre na lista dos best-sellers anunciando as ilusões do coração como se fossem verdades.
Qualquer discurso que vai contra essa mensagem da autoajuda é escândalo e é justamente isso que me faz entender o porquê os profetas do Antigo Testamento foram tão rejeitados. Afinal de contas, “o seu destino é ser vitorioso”. Você já foi predeterminado desde antes você nascer, quando, numa corrida, você deixou pra trás mais de duzentos milhões de espermatozoides e venceu em primeiro lugar. E isso é uma verdade que vale pra todos; desde Bill Gates até o gari que recolhe o lixo da sua casa.
Mas não para aí; “você é insubstituível” e “seu lugar é no pódio”. Exatamente, isso vale pra todos que concorrem à presidência da Republica a aqueles que participam da corrida olímpica. O primeiro lugar é de todos. Ignore as contradições, como diz o sábio, “quem pensa sofre”, e você não foi feito pra sofrer.
Não alcançou o primeiro lugar ainda? Relaxa, “não desista dos seus sonhos”. Isso vale pra qualquer sonho também, para aqueles mais bobos aos mais impossíveis. Por isso, não economize imaginação, sonhe alto, afinal de contas você é do tamanho dos seus sonhos. Hitler não desistiu dos seus sonhos. Chegou onde queria.
O livro do Eclesiastes, que nunca foi um best-seller, nos convida a andar com os pés no chão. Diz o sábio que “os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos” (Eclesiastes 9:11). Salomão deixa entender que na vida nem sempre dois mais dois são quatro; e nos convida a encarar o absurdo da existência e suas impossibilidades.
Jesus, com sua simplicidade, nos alerta que no mundo teremos aflições. “Tende bom ânimo”, é o seu conselho. Ora, isso não quer dizer que não seremos felizes. A felicidade é o processo dessa caminhada na vida. É a construção de uma ordem interna mesmo diante da inexorável angústia que nos rodeia. Nem o próprio Jesus se livrou dela: “estou angustiado até a morte”, disse o Mestre de Nazaré.
Enfim, o problema disso tudo é a confusão que criamos em identificar a dor com sofrimento e prazer com felicidade. Muita gente tem prazer, mas não é feliz. A felicidade transcende um mero conceito de prazer. O homem lúcido é aquele que tem consciência de sua angústia, e isso não suprime o fator felicidade. Felicidade não é ausência de dor.

©2014 Lindiberg Mustang