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O poder de quem abriu mão do poder

segunda-feira, 2 de maio de 2016 Postado por Lindiberg Mustang

Quando exponho meus pensamentos políticos, sempre faço de forma desajeitada, como quem fica comendo pelas beiradas. Numa dessas brincadeiras, sentado com alguns amigos em frente uma lanchonete, disse desanimadamente que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Frase épica de Lord Acton.
— E Deus — replicou um amigo, discordando de modo categórico —, Deus é o detentor de todo poder e autoridade.
Bem, preciso adiantar que o homem não precisa do poder para se corromper. Essa tendência humana é inata. O desejo de dominar e de subjugar já está embutido na própria natureza humana, e isso é irreversível; o poder, apenas potencializa esse desejo lucifericamente.
O interessante dessa questão é que praticamente em qualquer contexto teológico, esta afirmação torna-se contundente: Deus é o detentor de todo poder e autoridade. Esta declaração nos leva de imediato para lugares comuns, com imagens dantescas de um Deus guerreiro, poderoso, implacável e que destrói seus inimigos. Penso que Jesus, o único homem que revela a totalidade do caráter e da ação divina, nos apresenta Deus com traços diferente desses desenhados na imaginação dos evangélicos.
Explico. Mas antes vamos voltar um pouco para o Antigo Testamento. Lá, Deus é apresentado com muita pompa, manifestações deslumbrantes, trovões, raios e fogo. Apesar disso, o vemos andar em consonância com gente como Abraão, que demonstra ter uma moral inferior à dos adoradores do deus sol; fica do lado de gente como Jacó, que engana o irmão descaradamente; perde tempo tentando convencer Moises, um gago com antecedentes criminais, a guiar um povo escravizado numa terra alheia; Deus acerta os ponteiros com murmuradores ruidosos como Jó, assassinos como Davi, mas, em nenhum momento Deus se deixa se compactuar com altivos, presunçosos e arrogantes. Deus trabalha ao lado de gente aparentemente fraca, incapaz, daqueles que recusam o chamado, pois, só os que rejeitam o poder estão aptos a geri-lo.
Os hebreus é o povo que melhor dilataram a revelação de Deus – quando o povo era apenas povo. E esse povo foi escolhido não por que era a melhor nação ou a mais bem sucedida; pelo contrário, eram escravos. E Deus age no meio desse povo não como um senhor soberano e dominador. Não! Deus intervém na história como um libertador. O Êxodo, que na tradição hebraica é o primeiro livro da Bíblia, apresenta justamente o Senhor que nos trás liberdade.
Diante da leitura do Pentateuco vemos que Deus levantou Israel para ser como espelho para os outros povos. Um dos ditames da Lei era para não se juntar aos outros governos, mas caso os outros reinos quisessem manter vínculo, o conselho era para que os israelitas os recebessem passivamente. Pois bem, Israel não só quiseram manter conexão, como também quiseram um governo semelhante aos outros reinos. Diante de pessoas com consciência mais elevada — como Samuel —, isso foi uma violação, uma atitude retrógrada. Diante de Deus, a atitude foi como uma total rejeição.
A partir de então, a Lei — que era a suprema autoridade entre o povo, acima de sacerdotes e reis —, não estava sendo o suficiente para guiar o povo. Deus, então, coloca em cena uma comitiva de profetas que tinha como missão denunciar a corrupção do povo, em geral, e do poder oficial, em particular. Os profetas — tendo Elias como seu representante —, geralmente são aqueles que falam o que todo mundo tá vendo, mas ninguém tem coragem de bradar. A maioria de suas acusações sempre bate de frente com o rei. Sem dó e nem piedade, o profeta é aquele que fala em nome de Deus, e decididamente traz juízo sobre o poder centralizado que oprime e leva a nação ao abismo. O próprio Davi é um dos maiores exemplos; homem segundo o coração de Deus, autor de poesias belíssimas e ao mesmo tempo um homem truculento, homicida, péssimo pai e vingativo. Não escapou do juízo de Deus por seus abusos de autoridade.
As discursões sobre o poder não tem fim. Thomas Hobbes (†1679), teórico sobre a lógica do poder de estado, diz em seu famoso Leviatã que os homens em geral têm a tendência perpétua de desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte. E a razão disso não é a espera de um prazer mais intenso, mas, simplesmente o fato de que o poder só pode ser garantido na busca de mais poder. O principal motivo para o rompimento do psicanalista Adler com Freud foi por achar era o poder e não o prazer (a libido) a pulsão central da psique. E como disse George Orwell, “ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas o fim”.
É notável nas Escrituras o desprezo de Deus pelos poderosos. Diz o salmista que: “Embora o Senhor seja excelso, atenta para o pobre e humilde, mas ao soberbo, o rico e o dominador, os rejeita, pois conhece de longe” (Salmo 138:6). No Evangelho de Lucas, todos os ricos são aferidos com julgamentos ironicamente perturbadores. Jesus se mostra nos Evangelhos como um Deus único, singular, ímpar e totalmente imprevisível, chegando ao ponto de retirar de si todo o manto que o determinava como um deus — tradicionalmente concebido pela historia.
Jesus deixa subentendido que o poder é divino somente pela origem; no seu exercício segue os mecanismos de todo poder profano com seus mecanismos de segurança e de controle. Dessa forma, o carpinteiro de Nazaré se apresenta como um Deus que rejeita ser deus, sendo assim o verdadeiro Deus; ele “se esvaziou, assumindo forma de servo e a si mesmo se humilhando”, admitindo que é justamente a sua humildade a coroa de sua gloria. E por esse motivo, o nome de Jesus está acima de todo nome (Ef 2:7-11).
Tratando o nosso mundo de forma irônica  pois, não há outra forma de abordar um mundo decaído como o nosso , Deus vira todos os valores concebidos por nós de cabeça para baixo. “O maior é aquele que mais serve”, “aquele que se humilha é que é verdadeiramente exaltado”, “quando estou fraco é ai que sou forte”, “a sabedoria dos homens é loucura pra Deus”, e a lista não para aqui, deixando a entender que o poder, na verdade, está nas mãos daqueles que rejeitam no encosto da simplicidade, na doçura da naturalidade.
Dessa forma, nem sempre é possível notar isto nas manifestações divinas do Antigo Testamento, pois, Deus geralmente é ofuscado por revelações deficientes e desajeitadas. Sobremodo, Deus só é verdadeiramente revelado em sua totalidade na pessoa de Jesus — e somente nele. Nem Abraão, nem Moises, ou Davi, ou Elias, conceberam a revelação de Deus fielmente. Somente na pessoa de Cristo a revelação foi filtrada com total pureza. Não é por acaso que Paulo afirma que a Lei é sombra das coisas que haveriam de vir, ou um escravo, que serviu apenas para nos guiar a verdadeira realidade. Jesus é nosso modelo de subversão.

©2016 Lindiberg Mustang

O homem e a deformação da realidade

segunda-feira, 2 de março de 2015 Postado por Lindiberg Mustang
Vivo neste mundo como um estrangeiro em minha própria época; e é por este motivo que sou sucumbido por ele. Um indivíduo que pretende ser fiel à sua própria consciência em um mundo onde todos usam máscaras, com certeza será um incômodo para essa sociedade do espetáculo. Paulo Brabo diz que “Deus oferece aos santos dois destinos, não ser nada ou não ser compreendido”. No meu caso, fui acachapado com os dois.
Levando isso em conta, vez e outra alguém retruca: “Lindiberg, você diz essas coisas, mas, afinal, em que você acredita?” Uma pergunta válida e honesta que jamais poderia ser respondida em poucas linhas. Entretanto, minha vaidade não me permite ficar calado.
Sou cristão, e a pessoa de Jesus lança luz sobre tudo àquilo em que creio. Acredito na liberdade humana, em sua autonomia moral e intelectual, todavia, só em Jesus podemos ser de fato livres (Gl 5.1). Porém, em nossa liberdade escolhemos ser mais escravos do que de fato senhores de nós mesmos. A liberdade humana é o elemento central para entendermos a realidade circundante; somos livres dentro de nossos próprios limites.
Acredito na inerente corrupção humana herdada do “pecado original”. Somos seres inclinados ao caos, e somente através da supremacia da vontade humana sobre a condição humana podemos vislumbrar uma autêntica atitude revolucionária. Ou seja, foge de nossas possibilidades a capacidade de nos salvarmos. O problema consiste no fato de pouca gente ter entendido isso durante toda a História. O homem, sempre em algum momento dá um jeito de erguer seus “bezerros de ouro”: o dinheiro, o Estado, a tecnologia, a propaganda, o Mercado, tudo isso são produtos da ação humana, que se tornaram potências com suas devidas autonomias. Cada uma delas é independente, possuindo suas próprias leis; governam por si mesmas e sempre, sempre exigirão a total devoção do homem. Durante todas as épocas, sempre houve homens que depositaram sua confiança, segurança e sua esperança no Estado, no dinheiro, no Mercado, etc.
O homem deformou a realidade face a revelação de Deus, criando seus próprios deuses, sendo incapaz de construir com a ajuda exclusiva da moral, uma relação justa com o dinheiro ou qualquer uma das potências citadas. Potências que aniquilam a consciência, controlando ao mesmo tempo a organização objetiva da sociedade e o drama humano.
Todavia, nem a teologia, nem a Bíblia nos dão indicações que permitem decidir sobre a excelência de um sistema econômico ou de governo; não há uma doutrina política cristã. Ora, parece decepcionante não se possuir um sistema que corresponde à fé cristã; no entanto, Jacques Ellul salienta que “nenhum sistema pode nem corresponder a esta realidade nem organizá-la”. Isso porque o cristianismo em si é mais realista e cheio de substância que qualquer um dos três ou quatro sistemas que estão aí disponíveis, querendo estabelecer a organização da sociedade. A Revelação nos mostra qual é a realidade exata do homem e do mundo. E quando nos deparamos com essa Revelação, não encontramos uma filosofia, ou uma política e nem mesmo uma religião. Ellul conclui dizendo: “Nós encontramos um engajamento de um diálogo. Uma palavra pessoal que me é endereçada e que me interroga sobre o que eu faço, sobre o que eu espero e definitivamente sobre o que eu sou”. Somente neste entrelace que há a possibilidade de uma genuína liberdade.
Ora, se por um lado a Bíblia não nos fornece um sistema político ou econômico, por outro, a Revelação nos orienta a conviver com essas potências da maneira mais sóbria possível, sem se deixar escravizar por elas.
O homem escreveu sua própria história, criando seus próprios grilhões, sendo incapaz de se libertar. Shakespeare já nos avisou que a História é verdadeiramente uma narrativa contada por um idiota, é ruído e furor. A História está comprometida, o mundo está comprometido. É por isso que Deus penetra em nossa realidade, como o Filho do Homem, produzindo libertação e esperança na alma daqueles que nele confia; mostrando que a História não é um desenrolar mecânico de uma ordem preestabelecida. Não é pelas suas obras que o homem chega à liberdade; ele precisa ser liberto, precisa ser salvo. O verdadeiro sentido da história é a conclusão na liberdade. Somente Deus porá fim (e o homem terá sua participação) em toda desordem arquitetado pela obsessão humana; porá fim em toda potência que exige do homem adoração, e por fim, em todo engano lançado pelo Inimigo.
Claro, esta conclusão não nos deixa passíveis e confortáveis diante da realidade. Pelo contrário, nos comprometem e nos fazem entrar numa caminhada pessoal de resignação diante das configurações que sustenta o mundo (Rm 12.1). Dessa forma, não há nada mais imbecil do que a tentativa das instituições de santificar a sociedade, o Estado ou o dinheiro. Essa prática sempre se afunilou em desastre, pois o inimigo sempre será irredutível e impessoal; ou seja, o mundo continua mundo, o dinheiro continua dinheiro... A primazia do Evangelho, portanto, é exatamente mostrar essa realidade.

©2015 Lindiberg de Oliveira
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A morte de um rebelde

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015 Postado por Lindiberg Mustang
No leito de sua morte, Kierkegaard foi convidado a receber a Sagrada Comunhão; um costume dentro do luteranismo. Ao que ele responde: “Sim, mas não a partir de um pároco, a partir de um leigo”. Kierkegaard foi comunicado que seria difícil seu pedido ser atendido. "Então vou morrer sem ele”, retrucou. Com insistência, lhe disseram que aquilo não era certo. Ao que respondeu Kierkegaard: "Quanto a este ponto, não pode haver nenhum argumento, eu fiz a minha escolha. Pastores são funcionários do rei, os oficiais do rei não tem nada a ver com a cristandade”.
Kierkegaard foi um rebelde; um incrível abusado que torcia o narigão para as instituições eclesiásticas que, assim como hoje, se embeveceram com o vinho produzido pelo Estado, pelo lucro e por uma tradição duvidosa. Viu no cristianismo de sua época uma estranha e sufocante atmosfera que reduzia a fé em meras crenças asmáticas de fôlego reduzido.
O extremo desconforto de Kierkegaard aumentou sua popularidade, especialmente entre os acadêmicos, que não ignoraram seu desejo de não ter seu funeral em uma basílica. Houve protesto, o funeral foi interrompido e suas convicções religiosas radicais foram proferidas durante o enterro, deixando o deão presente enfurecido. Depois disso, o rebelde foi descido ao seio gelado da terra.

©2015 Lindiberg Mustang

Confissão

terça-feira, 27 de novembro de 2012 Postado por Lindiberg Mustang

Sou uma farsa. Sou um patife, um mentiroso e um canalha. Sou também um santo em muitos sentidos, mas isso apenas distorce a essência da mensagem que eu deveria estar transmitindo.
Paulo Brabo

Quando li essa frase pela primeira vez não pareceu que eu estava lendo um texto; a sensação que tive foi de estar me confessando. Exatamente por que são essas as “qualidades” que me modelam: um patife, um canalha, um mentiroso, uma farsa. Sei que não estou só nessas categorias, mas tenho certeza absoluta que estou entre poucas companhias diante dessa confissão. Não pretendo mais esconder minhas limitações – isso eu deixo para os plotadinhos gospel dessa geração. Quero sujeitar-me para todos o quanto sou humano e falível. Quero mostrar para todos o quanto não sei de muitas coisas que muitas vezes dissimulo saber. Sou pequeno, e muitas vezes tenho dificuldades de reconhecer isso, e essa, é minha irredimível punição nesse mundo.

Você, meu amigo, entenderá que não somos muito diferentes. Sim, quando você, caro leitor, se observa diante do espelho contempla facilmente a face da inveja, do orgulho e da mentira com seu próprio nome. E caso esteja me lendo com aquele ar de reprovação se achando uma pessoa ética, você é um canalha. Alegro-me muito ao saber que também não sou diferente das pessoas a qual Jesus resolveu andar. Sendo chamado de “amigo de pecadores”, o rabi de Nazaré se envolvia de forma muito apropriada na companhia de gente que que muitas vezes apontamos o dedo e dizemos: “esse daí não presta”. Era na presença desses tais que Jesus se detinha e se sentia a vontade, longe da hipocrisia dos “imaculados”.

Cansei de ouvir e ler asneiras legalistas sobre a ira e a justiça de Deus com indicações totalmente punitivas em relação ao pecador, como se pudéssemos a qualquer momento através de um toque de mágica, parar de pecar. Ou como se o juízo de justiça que Deus nos deu não servisse de parâmetro para compreender a justiça divina.

Vejo o quanto estou distante de obedecer o sermão da montanha (Mt 5-7). Mas também entendi que esse sermão está distante de ser uma lei imponderável. Ao contrario, o sermão da montanha só indica o quanto é impossível encontrarmos o Ressuscitado frente a frente por esforço humano, mostrando assim a nossa incapacidade e insuficiência diante do Eterno. "Ai de mim se não fosse a tua Graça, Pai". Uma coisa eu entendo desse sermão: que a paixão de Jesus é pelos pobres, os que choram, os mansos, os caídos, os violados, os atormentados. "Habito no alto e santo lugar, mas habito também ao lado do humilhado e abatido de espírito, diz o Senhor" (Is 57.15). Discursos como “Deus odeia o pecador”, soa totalmente alheio aos ouvidos do pai de Jesus, que toma partido de gente mentirosa, assassinos, ladrões, e que, ainda por cima – pasmem – são chamados de heróis da fé ao qual o mundo não é digno. Vemos que Jesus preferiu morrer ao lado de dois malfeitores do quê se assentar a mesa dos religiosos. Chegando as raias do imprevisível, de no último instante, salvar um criminoso.

Permita-me, meu amigo, cometer a obscenidade de afirmar que esse Deus – o qual alguns afirmam que além de odiar o pecado, também odeia o pecador –, habita não mais ao lado, mas, repousa diretamente em vasos de carne. Sim, essas cascas cheias de máscaras como eu e você. Fez de nós o seu templo, sua mansão. E essa é a verdadeira beleza da redenção divina, que nos faz entender que a verdadeira religião (espiritualidade) não é ficar por ai vendo anjo ou fazendo viagens celestiais entre o Céu e o Inferno, mas simplesmente estabelecer relações com os órfãos, as viúvas, os encarcerados, os que têm fome e sede. Quando você abraça o Outro, você abraça também Deus, e todo tipo de vaidade e arrogância. Vai entender né.

©2012 Lindiberg Mustang

A religião de Jesus

sábado, 6 de outubro de 2012 Postado por Lindiberg Mustang

Devemos reaprender a compreender o
significado da solidariedade humana:
Deus quer seres humanos, não fantasmas que
evitam o mundo. Ele fez a terra nossa mãe.
Se você tem anseio por Deus abrace o mundo;
se quer encontrar a eternidade, sirva o momento presente.
Dietrich Bonhoeffer

Nem pra todo mundo a existência de Deus é um problema. Para uns, Deus apenas é. Para outros, pouca diferença faz. Há aqueles que insistem em descortinar alguma evidência de sua existência, e tem também aqueles ateus ressentidos que dizem que Deus deveria ser menos tímido, se revelando assim de forma mais objetiva – caso existisse é claro. Não quero aqui entrar no mérito de provar a existência de Deus, mas então somente de mostrar algumas concepções históricas de como algumas religiões concebem ou discernem a sua existência. Especificamente o modo como ele se revela ao homem.

Cada qual com seu Deus

Partindo do pensamento de Joseph Campbel (1987), o mundo é dividido em dois grandes grupos: oriental e ocidental. Cada grupo tem suas religiões distintas, mas com essências intrínsecas. Ora, para as religiões monoteístas ocidentais (que nasceram curiosamente no deserto do oriente médio) Deus é um ser que fez tudo a partir do nada. Nesse caso Deus é um ser transcendente que é separado da sua criação, havendo assim uma tremenda distância entre Deus e o universo. Deus, nesse caso, é a grande realidade individual espiritual, sendo assim distinta e separada da sua criação, existindo antes acima do que dentro do mundo. Em contrapartida, o pensamento oriental segue num caminho oposto. As religiões orientais não fazem muita distinção entre Deus e o universo; na verdade o universo e tudo que nele há podem ser encarados como o próprio Deus – Deus é tudo e tudo é Deus –, levando, não raro, a um panteísmo nivelador.

A divisão desses pensamentos gera uma estrutura religiosa, psicológica, filosófica, politica e éticas totalmente distintas. Para as religiões monoteístas ocidentais (judaísmo, cristianismo e islamismo são as principais) Deus não se confunde com sua criação, mas ao mesmo tempo se aproxima parcialmente para uma relação de submissão, onde é estabelecido um conjunto de regras e ritos, em que o homem assume em face desse Deus longínquo e soberano uma atitude de temor e tremor e só obedece por meio do castigo e pela esperança do prêmio.

Para as religiões orientais Deus está essencialmente inserido em tudo, precisando apenas estabelecer uma relação imediata com a divindade, desenvolvendo assim um laço de identidade – Deus é tudo e tudo é Deus. O problema aqui é que Deus deixa de ser Deus e vira deuses, logo, seguindo esse raciocínio, eu também sou Deus. Esse é o alvo primário das religiões orientais. Nesse caso não é preciso nenhuma mediação entre Deus e o homem, pois os dois se fundem ao ponto de serem confundidos. A partir daí vemos todos os princípios hierárquicos religiosos ocidentais serem invalidados, o que é uma coisa boa na concepção de muitos filósofos.

Deus nos deu asas; as religiões inventaram as gaiolas

O principal problema em relação às religiões ocidentais – demonstradas tanto por Joseph Campbell quanto por Huberto Rohden (1981) – é que elas ainda não conseguem sobreviverem sem as instituições. O sujeito não consegue ter um relacionamento direto com Deus, tendo a instituição, como uma mediadora entre Deus e o homem. O ponto de encontro será sempre a instituição; e com instituição eu quero dizer tanto o templo como é tradicionalmente conhecido quanto a Bíblia, a sinagoga, as igrejas, as mesquitas, os mandamentos, o confessionário, ou até mesmo a oração voltada pra Meca. São essas as instituições que se interpõe inexoravelmente entre Deus e o homem.

Como já tenho falado e dito aqui neste blog incessantemente, Jesus se contrapõe de forma veemente em relação a essa forma institucionalizada de buscar a Deus. Sim, com a plenitude dos tempos (que começa no momento em que Cristo pisa nessa terra), nasce a morte da instituição. Mas, talvez eu esteja me adiantando caro leitor. Como disse Jack, o estripador, “vamos por parte”.

Jesus não foi o primeiro a vir com esse julgamento contra a instituição. Todos os profetas e messias traziam embutidos em seus ministérios esse conceito esmagador em relação à instituição, e a Bíblia hebraica está repleto dessa mensagem. Ora, Deus queria uma cidade sem templo, e por esse motivo pediu para que construísse um tabernáculo móvel, pois o Senhor queria que o seu povo, fosse um povo peregrino. A presença de Deus acompanharia a presença do povo. Essa era a ideia do tabernáculo. Um Deus móvel para um povo móvel. Hoje entendemos que o tabernáculo era um reflexo do próprio Cristo (Ap 21.22). O povo hebreu atravessa o deserto e entra na terra prometida. As coisas começam a fluir de acordo com a vontade de Deus, o povo é livre e entre eles não há templo, nem rei, nem castelo, somente o povo e Deus. Mas eles são obstinados. O desejo pelo controle e segurança faz com que seja estabelecido um rei, e este, tem a geniosa ideia de constituir um templo. Rei e templo são a materialização pelo desejo de controle, ordem e domínio. Mas, observe que a ideia do templo foi um desejo do rei, e a ideia de um rei foi uma reação obstinada do povo, considerada pelo profeta uma rejeição a Deus (1Sm 10.19). Deus oferece um tabernáculo móvel, e o povo escolhe a imobilidade de um edifício de concreto e a descomunhão dos grandes ajuntamentos que imprimem em nossos corações o orgulho e as dissensões.

A Bíblia mostra que Deus não tem receio em desfazer e derrubar aquilo que ele cria e começar tudo do zero. Foi assim no Éden, o mesmo aconteceu com a raça humana no dilúvio, e não foi diferente com Israel e Judá. Surge um momento na história em que o Criador aparece para destruir o templo e o reino[1]. Gaiolas são construídas para se possuir aquilo que, de outra forma voaria livre, para longe. Deus não barganha sua liberdade, e tudo é lançado poeira abaixo, não uma, mas duas vezes. E Deus não levanta sequer uma palha para impedir, pois o seu compromisso não é com templo, muito menos com sua conservação. Quando Jesus é surpreendido pelos apóstolos, querendo-lhe mostrar as maravilhas do templo, ele imprevisivelmente lança juízo dizendo: “não ficará aqui pedra sobre pedra” (Mt 24.1-2). E mais uma vez tchau templo.

Uma das intenções do Nazareno quando pisou nessa terra, era desmantelar essa marca deixada pelas religiões ocidentais, que era a institucionalização de Deus – o cristianismo e o islamismo não tinham nascido ainda, mas, mesmo assim, a noção de templo era concebida antes mesmo de Israel existir como nação[2]. O que os religiosos viam como um ponto de encontro para um relacionamento com Deus, Jesus via um salto para a legalidade. E ele demonstra isso através de histórias como aquela do bom samaritano, em que os que eram ligados à instituição (o levita e o sacerdote), foram justamente os que negaram caridade ao necessitado. Jesus deixa claro que Deus é o Espírito Universal, e como tal, não está condicionado a um espaço geográfico; “nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai”, pois, para um verdadeiro relacionamento com Deus requer somente um ato de devoção “em espirito e em verdade”. Desse modo, Jesus começa a demolir todos os trâmites da religião institucional, mostrando que Deus não cabe dentro de definições dogmáticas. Aliás, Deus não cabe dentro de definição nenhuma, ele é o Indefinível, porque “definir” quer dizer pôr fines, limites; definir o infinito é o mesmo que finitizá-lo; o mesmo que relativizar o absoluto; nas palavras de Rohden, o mesmo que individualizar o universal[3] – processos esses causados pela instituição e intrinsecamente absurdos e contraditórios.

Um novo modo de ver Deus

Jesus inaugura um novo modo de se relacionar com Deus fazendo a instituição torna-se algo totalmente arcaico e rudimentar. Infelizmente não demos muito atenção às palavras do Cristo; pergunte a qualquer cristão onde encontrar Deus e com certeza você receberá um sonoro convite para ir a uma “igreja”. Sim, essa é a respostas dos religiosos: Deus é encontrado nos templos. Quão enganado nós estamos! Enganados, tanto na pergunta quanto na generalizada resposta. Nesse caso, para obtermos a verdadeira resposta teríamos que fazer a pergunta certa também. Teríamos que perguntar onde Deus quer ser encontrado. A resposta que o Evangelho nos oferece desconstrói toda uma tradição. Ora, o Novo Testamento nos mostra que o Filho do Homem é um Deus que assume temporariamente a face do Outro, e é no próximo que ele quer ser encontrado: “Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a alguns dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. O tabernáculo móvel continua existindo: e é o sedento, o faminto, o nu, o estrangeiro, o enfermo, o encarcerado, etc. Deus misteriosamente resolve se revelar tomando o Outro como máscara. E é no relacionamento que temos com o próximo que nós se relacionamos também com Deus: “o Reino de Deus está no próximo”. Para as religiões orientais tudo toma a forma de Deus, inclusive o próprio sujeito, ou seja, todos nós somos Deus. Para o Mestre de Nazaré, Deus é os outros.

A unidade de Jesus

Apesar dessa pequena divergência, Jesus ao mesmo tempo faz uma ligação singular com o pensamento oriental.

Segundo o panteísmo pregado pelas religiões orientais, Deus é identificado com a essência das coisas – o que está certo. O errado está em identificar Deus com a existências das coisas – é nesse ponto em que o Criador é confundido com a criatura. Por outro lado, as teologias ocidentais, para evitar o perigo do panteísmo, afirma a transcendência de Deus, e nega a sua imanência, estabelecendo separação entre Deus e o mundo. O Deus revelado no Novo Testamento é um Deus transcendente – pois não se confunde com sua criatura –, e também imanente – pois a sua essência, está inserida na criação. Jesus, de forma pessoal e puramente literal, revela uma total identidade com o Criador: “eu e o Pai somos um”. E isso ganha uma dimensão literal em nossas vidas quanto ao fato de sermos chamados “filhos de Deus”.

O Filho do Homem dá testemunho de um Deus, e afirma tanto a sua transcendência quanto a sua imanência no mundo, proclamando distinção entre causa e efeito, mas não separação entre eles. A onipresença de Deus revela que ele não só está em todo lugar, mas que também está em todas as coisas: Deus está em tudo, mas ele não é tudo. Huberto Rohden sistematiza esse pensamento dizendo que Deus fez tudo a partir de si mesmo, e que todo o universo contém partículas de Deus: sua essência. Por existir essa essência de Deus no homem, Jesus escandaliza os fariseus ratificando as mensagens dos profetas hebreus quando disse: “Vós sois deuses” (Jo 10.34). Para Rohden, as religiões ocidentais cometeram um grande erro ao dizer que Deus criou o mundo do nada, isso é metafisicamente inconcebível – nada pode ser criado do vácuo.

Essa ideia não foi escândalo para nenhum escritor do Novo Testamento. Muito pelo contrário, isso soou como poesia tanto na boca quanto na ponta de suas penas: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos”, afirmou o apóstolo categoricamente (At 17.28). No Novo Testamento, não há essa distância que as religiões ocidentais fazem entre Deus e sua criação. Muito pelo contrário: “O Reino de Deus está dentro de vós”. Sendo sabedor dessa boa nova, Paulo não poderia ser mais claro quando disse que “não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. O apóstolo Pedro se aproxima ainda mais das palavras de Cristo quando afirma que “somos participantes da natureza divina”. E assim se cria também os primeiros mestres da igreja primitiva: “A alma é cristã (divina) por natureza” (Tertuliano), cristã, ou divina, em virtude de sua própria natureza íntima. “Deus estava sempre presente em mim, eu que estava ausente dele” (Agostinho). Infelizmente percebemos que essas ideias não foram levadas a sério. Dizer ao homem que ele é um ser essencialmente divino, é o mesmo que tornar as autoridades eclesiásticas supérfluas e diminuir-lhe grandemente o prestigio e suas influências. Os apóstolos mal esfriaram em seus túmulos e o cristianismo já começara a impor formações hierárquicas no seio eclesiástico. Assim como hoje, disciplina era a grande palavra da época, a regra de ouro, e não liberdade.

A “disciplina”, isto é, autoridade de cima e obediência de baixo, que nos submente as religiões, não conseguem sobreviver à constrangedora liberdade que Cristo nos presenteia. Deus está em nós. Não precisamos das instituições, de suas hierarquias, pois o que está em nós, também é nosso Pai.

©2012 Lindiberg Mustang



[1]Por várias vezes observamos Deus usar nações estrangeiras como açoite para repreender Israel. Devemos entender esse processo de derrubar, desfazer e recomeçar como um ato de amor de Deus em relação a sua criatura.
[2] Levando isso em conta, é bem provável que assim como o povo pediu um rei, imitando os outros povos, é possível que o mesmo tenha acontecido em relação ao templo, pois Deus rejeita esse projeto de imediato.
[3] Essa tentativa de querer individualizar Deus é muito antiga. A resposta de Deus ainda ecoa incessantemente no universo: “Eu Sou o que Sou” (Ex 3.14)

O deleite da fragmentação

quarta-feira, 20 de junho de 2012 Postado por Lindiberg Mustang


Um começo apropriado seria fazermos a pergunta schellinguiana: o que o “tornar-se homem” por parte de Deus na figura de Cristo, sua descida da eternidade ao domínio temporal da nossa realidade, representou para o próprio Deus? Aquilo que para nós, finitos mortais, parece ter sido a descida de Deus até nós, não pode ter sido, do ponto de vista de Deus, uma ascensão? E se, como Schelling deu a entender, a eternidade for inferior à temporalidade? E se a eternidade for um domínio estéril, impotente e sem vida de potencialidades puras, que, a fim de efetivar-se, deve passar pela existência temporal? E se a descida de Deus até o homem, longe de ser um ato de graça em favor da humanidade, tiver sido a única maneira de Deus ganhar plena atualidade, libertando-se das sufocantes restrições da eternidade? E se Deus só for capaz de se atualizar através do reconhecimento humano?

Devemos nos livrar do velho motivo platônico do amor como Eros que gradualmente se eleva do amor por um indivíduo em particular ao amor pela beleza do corpo humano em geral, e daí ao amor pelo belo como tal, até chegar ao amor pelo Bem supremo além de todas as formas. O verdadeiro amor é o trajeto precisamente oposto: o de deixar para trás a promessa da eternidade por um indivíduo imperfeito (essa sedução da eternidade pode assumir várias formas, de uma fama pós-mortal ao cumprimento de determinado papel social). Não será o gesto de escolher a existência temporal, de por amor abrir mão da existência eterna – segundo o exemplo de Cristo e o de Siegmund, no segundo ato de As Valquírias de Wagner, que prefere permanecer mortal se sua amada Sieglinde não pode segui-lo ao Valhala, a morada eterna dos heróis mortos – o ato ético mais elevado de todos?

Costumamos dizer que o tempo é a mais consumada das prisões, e que o propósito de toda filosofia e de toda religião é libertar-nos dos grilhões do tempo para adentrarmos a eternidade. Porém e se, como Schelling dá a entender, for a eternidade a mais consumada das prisões, uma sufocante clausura? E se for apenas o resvalar tempo adentro a introduzir uma Abertura na experiência humana? Não será “tempo” o nome para essa ontológica abertura?

O evento da encarnação não é tanto a ocasião em que a realidade temporal da experiência é tocada pela eternidade, mas mais o momento em que a eternidade consegue alcançar o tempo. Esse mesmo argumento foi sustentado muito claramente por conservadores inteligentes como G. K. Chesterton, que a respeito da popular noção de uma “alegada identidade espiritual entre o budismo e o cristianismo” escreveu:

O amor deseja a personalidade, pelo que o amor deseja a divisão. O cristianismo deleita-se instintivamente em que Deus tenha quebrado o universo em pedacinhos. É esse o abismo intelectual entre budismo e cristianismo: para o budista ou para o teosofista a personalidade é a queda do homem, enquanto para o cristão ela é o próprio propósito de Deus, o sentido mais essencial de sua ideia cósmica. O mundo anímico dos teosofistas pede que o homem o ame para que posso lançar-se dentro dele. O centro divino do cristianismo efetivamente lançou o homem para fora dele, para que o homem se tornasse capaz de amá-lo. Todas as filosofias modernas são cadeias que conectam e algemam; o cristianismo é uma espada que separa e liberta. Nenhuma outra filosofia faz com que Deus verdadeiramente se deleite com a fragmentação do universo em almas viventes.

Slavok Žižek, em The Puppet and the Dwarf.

Religião, culpa e outras coisas

sábado, 14 de abril de 2012 Postado por Lindiberg Mustang



Considero as instituições religiosas necessárias, mas nenhuma, sagrada — ou eterna. Desconfio piedosamente delas, mas, sobretudo, creio piamente naquilo que Deus instituiu. Ora, para o Nazareno, a Igreja nunca esteve limitada a algum tipo de espaço geográfico, porém, onde estivesse dois ou três em nome dele, ali ele estaria também. E esse ali, não se resume neste ou naquele monte, nem neste ou naquela catedral especifica, porque o que Deus institui, ele estabelece na alma, no coração, simplesmente por que o seu Reino não vem com visível aparência (Lucas 17:20); unicamente por que o seu Império não é comida e nem bebida (Romanos 14:17).
A deficiência das instituições é simplesmente por que elas são instituições, sendo assim, todas elas ambicionam petrificar algo que deveria fluir como um rio. O Novo Testamento não nos dá base para criar algo permanente no âmbito exterior da nossa existência; pois no mundo da experiência e dos fatos, todas as coisas passam por uma sucessão de mudança onde o Espírito trabalha como uma força criativa e dinâmica de vida; diferente das instituições, que na pretensão de perpetuar algo bom, cria um ambiente rígido que paralisa todo movimento criativo da existência.
Consequentemente, a igreja-instituição tem de morrer. “Se o grão de trigo caindo na terra não morrer ele ficará só, mas se ele morrer dará muito fruto”. Muita energia já foi e estão sendo gastas para eternizar o “grão de trigo”, estagnando todas as suas potencialidades. Ora, um elemento com vida cíclica não pode ser perpetuado. O “vinho novo precisa de odres novos”.
O Evangelho não cabe nas maquetes estabelecidas pelas instituições. Nosso compromisso é com o nosso tempo, com os nossos dias. Paulo afirma que Davi serviu sua própria geração segundo a vontade de Deus (Atos 13:36), ou seja, sua genealogia foi perpetuada, mas não as diretrizes seu reino. Vemos que muitas coisas do reinado de Davi foram ignoradas no reinado de Salomão. No Reino inaugurado pela vinda de Cristo também foram rejeitadas várias (se não todas) normas de procedimentos tidas como honrosas do reino de Salomão.
O Evangelho tem um caráter puramente subversivo em relação ao modo institucional da igreja. Jesus derruba todos os lugares-comuns de lideranças hierárquicas, já que para o Nazareno “as autoridades são postas para manter domínio”, porém, entre seus discípulos “não será assim, o maior é aquele que mais serve” (Marcos 10:42-43). Estamos diante de igrejas que querem ser servidas — sem contar nas megalomanias de seus lideres que vivem como se fossem papas protestantes.
Cristo nos instiga a ser livres diante da vida e da existência, todavia, a igreja exclui a liberdade, a poesia e a beleza do Evangelho, restando apenas uma lista com tamanha caduquice, cheia de horários para cumprir e abarrotadas de responsabilidades desinteressantes e cansativas, que na verdade — pasmem — não serve pra nada.
É sempre interessante e sucinto que a igreja use como lubrificante social variadas regras e proibições, e nesse caso é realmente espantoso conceber a liberdade que Cristo nos outorgou. Jesus evitou por completo as armadilhas religiosas e, portanto rasa, de proibição e recompensa. Não gastou um minuto da sua vida ventilando teologia ou reduzindo a ética a uma resposta “sim ou não” para um problema complicado. Era contando historias que ele revelava e apontava o seu Reino. Os ideais de Jesus eram tão ambiciosos que ele não só oferecia liberdade, mas também emancipação e autonomia de escolhas e decisões para cada um de nós: “por que vocês não decidem por si mesmos o que é certo?” pergunta Jesus (Lucas 12:57).
Nenhum autor do Novo Testamento entendeu melhor essa afirmação do que o apóstolo Paulo: “Tudo é puro para os que são puros; mas nada é puro para os impuros” (Tito 1.15), “Por estar unido com o Senhor Jesus, eu estou convencido de que nada é impuro em si mesmo” (Romanos 14.14), “Felizes as pessoas que não se condenam naquilo que aprovam (Romanos 14.23)”. É evidente que essas declarações foram ignoradas sem nenhum peso na consciência ao largo de dois mil anos. E contundentemente Paulo continua:
Portanto, que ninguém faça para vocês leis sobre o que devem comer ou beber, ou sobre os dias santos, Festa da Lua Nova, e o sábado. Tudo isso é apenas uma sombra daquilo que virá; a realidade é Cristo. [...] Vocês morreram com Cristo e por isso estão livres. Então, por que é que vocês estão vivendo como se fossem deste mundo? Não obedeçam mais a regras como estas: “Não toque nesta coisa”, “não prove aquela”, “não pegue naquela”. Todas essas proibições hão de perecer pelo uso. São apenas regras e ensinamentos que as pessoas inventam. De fato, essas regras parecem ser sábias, ao exigirem culto voluntário, falsa humildade e um modo duro de tratar o corpo. Mas tudo isso não tem nenhum valor para controlar as paixões da carne (Colossenses 2.16-23).
O que Paulo está fazendo é lutando efetivamente contra a institucionalização do Evangelho, contra o “trafico da religião” que é o negócio mais rentável do mundo, estando na frente do álcool, da maconha e da cocaína, por exemplo. Desse modo, as instituições trabalham com o débito, com o medo e com a culpa. Com a ausência de débitos, as instituições não tem como sobreviver. A moral controlada pelas religiões deixam numa invariável dívida com Deus, ou com as instituições que o representa, pois são transgredidas constantemente. E isso nos leva à culpa, e a culpa nos leva a vontade de se purificar.
Assim, as autoridades religiosas ou a própria religião é (aparentemente) uma autoridade superior que se obedece não porque ordene o que é “melhor”, mas simplesmente porque ordena, entretanto, questioná-la já é uma imoralidade. É o medo perante essa “inteligência” superior que ordena, que nos leva a agir de cabeça baixa sem o menor senso crítico.
Jesus de Nazaré desmantela todos esses trâmites nos absorvendo incondicionalmente, de forma totalmente integral e — por incrível que pareça — gratuito. Todos esses padrões de débitos, culpas e medo é naufragado no mar da graça. O anúncio de Jesus apresenta a disponibilidade de absorção universal de débitos, culpas e medo. Esse anúncio desfere pancadas não só em instituições religiosas, mas também a qualquer sistema politico ou econômico estabelecido.
Agora entenda uma coisa; você não deve mais nada, tudo já foi pago. Esqueça os ritos, os dogmas, as proibições, as regras, as campanhas, as recompensas, os castigos e todas as ilusões que essas coisas trazem — ou seja, a dívida, a culpa e o medo.
Consegue viver com tamanha liberdade distraído leitor?

©2012 Lindiberg de Oliveira
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