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O que é arte?

sexta-feira, 7 de outubro de 2016 Postado por Lindiberg Mustang
O que faz de algo uma obra prima? O que é arte? Bem, até o século 19 as respostas poderiam ser bem convencionais, todas aprovadas por um fator essencial da experiência humana: o êxtase, o devaneio, o arrebatamento íntimo, o sentimento que elevava o ser ao Eterno; era a iniciativa pela qual o indivíduo, amparado pelas mãos dos deuses, se anunciava ao mundo.
Foi no século passado que toda proclamação de valor estético caiu no vazio do relativismo. Depois de expor um urinol como obra de arte, intitulado como A Fonte, Marcel Duchamp espalhou um resíduo de ceticismo e muita gente começou a se perguntar: “O que de fato é arte?”. Desde então as respostas para essa pergunta começou a transitar entre o sublime e o vulgar, entre o admirável e o trivial. Em um mundo em que a afluência artística que tinha em si o brilho da beleza, a arte chega ao século 20 ofuscada pela piada de Duchamp.
Particularmente penso em arte como uma unidade composta por forma e conteúdo. Explico: como pensava Aristóteles, forma não se reduz a uma mera figura externa das coisas, mas é o princípio da sua própria funcionalidade. Forma seria então a estética de uma obra, são os traços de um desenho ou o contorno de uma pintura; é a estrutura da composição de uma música ou todo arcabouço de um filme; é a métrica de uma poesia ou o busto de uma escultura. O conteúdo, por outro lado, é o que dá o aspecto dialogal de cada obra; são os meios estéticos de expressão que se organiza em função de seu efeito artístico. O conteúdo é o que o artista quer passar, é a sua mensagem; é todo o aspecto dramático da obra em que o artista arrisca a vida para dar existência a sua criação. 

Para Nietzsche, de tudo quanto se escreve só vale a pena se deter naquilo que é escrito com o próprio sangue. Eu diria que na arte não é diferente; o sangue é símbolo dionisíaco, significa vontade; símbolo também da vida. Escrever com essa vida significa a própria elevação do espírito, que possibilita estar à frente de todos, de antecipar situações e tendências. Isto acontece quando o artista transforma a situação em que vive na situação de sua própria época, tornando a obra não somente um comentário de seu tempo, mas também um comentário sobre todas as épocas, universalizando o que há de comum na história humana.
Ora, nem sempre é possível contemplar de imediato a forma e o conteúdo em perfeita harmonia numa obra. Às vezes o conteúdo se apresenta fixada numa forma embaraçosa, onde as imperfeições estéticas são as condições humanas da obra falar — prefigurando a própria beleza da obra.
Dessa forma, o que impressiona nas músicas de Bob Dylan não são seus simples acordes acompanhado de uma fonografia indefinida; o que nos surpreende nos filmes de Stanley Kubrick não é seu perfeccionismo já há muito ultrapassado pela tecnologia atual; o que assombra nos romances de Dostoievski não é o niilismo que parece engolir todo mundo. Não. Nada disso fica em pé diante da profunda experiência que emana do conteúdo dos trabalhos desses gênios, atulhado de angústia, solidão, orgulho, loucura, morte.
É assim que a arte cumpre seu papel funcional no mundo, inspirando, consolando, elevando o espírito ou comunicando o desprezo, a decadência e a humilhação. Tudo isso através da caneta, dos pinceis, da argila, da tinta, das imagens, dos sons, dos acordes, do movimento, da dança, etc.
Entretanto, só se pode perceber a função da arte quando se entende o conflito entre forma e conteúdo; e isso só é possível na medida em que o conteúdo sobrepõe à forma. É nesse momento que a redenção brada mais alto que as imperfeições estéticas, revelando que a supremacia do Bem prevalece sobre a desordem que arrasta para baixo toda dignidade humana. Assim, a arte oferece sempre uma arriscada travessia que vai das determinações mais baixas e aponta para uma dimensão sublime da realidade. Essa travessia não é possível para pessoas que mal sabem suas próprias opiniões sobre a natureza humana, ou seu lugar dentro da História; não é possível nem mesmo para uma elite que é incapaz de encontrar o sublime na fragilidade do grotesco.
Foi Paulo Brabo que me fez entender que o sublime estampado no grotesco também nos lembra de que somos gente, com nossas falhas e deformidades, revelando a crueza de nossas funções biológicas como a fome, a cede, o suor, o arroto, o peido — elementos estes que para a superficialidade do orgulho humano apenas nos distrai da ideia de eternidade. Ledo engano.
Não se trata de elevar essas necessidades primárias do homem, mas de entender que o sublime também pode ser encontrado no grotesco justamente porque este evoca o ciclo da vida e morte das coisas. E isso o homem urbano sofisticado não acolhe porque trata de uma realidade que arranca o sujeito da ideia de transcendência jogando-o na esfera do temporal, do relativo, do constrangedor, do indecoroso, do hic et nunc. Aqui o sublime se apresenta quando a beleza faz dessas coisas uma abertura para se vislumbrar algo mais elevado, que vai além do temporal. É a travessia que seguimos juntos com o artista da terra ao céu, do inferno ao paraíso que começa justamente na nossa decadência fisiológica.
Como Paulo Brabo deixa claro, essa é a ideia embutida na literatura de cordel: “O cordel é anguloso, despretensioso, barato, escatológico, relaxado, inferior, almeja o popular – sua mensagem é: posso estar na mão de todos”. Seu conteúdo é a de explicitar uma genuína participação que vai além dos anseios padronizados pela cultura. Ora, a beleza também é graça divina acessível a todos os homens e pensar o contrário é negligenciar sua natureza subversiva.
Diferente de cada criação da Apple, seja um dispositivo ou um anúncio, que fala de um ideal sofisticado, elegante, superior, distinto e sem arestas — com sua mensagem: posso estar na mão de poucos —, o cordel, grotesco, carregado de uma estética defeituosa, replicando tragédia, outrora comédia, representa igualmente a necessidade humana de consolo e harmonia; aquela ânsia da alma pela ordem que se alimenta precisamente do valor último que essas obras indicam. Nesse caso, o cordel indica, ou nas palavras de Paulo Brabo: “ilustra um modo subversivo de ler o mundo, um modo que fala de espaços abertos, temporários e sociais — festas populares, feiras e circos mais do que casas e shoppings”. Ou seja, exala um conteúdo que evidencia esse valor último que evoca o sentimento de participação numa comunidade.
É singular o fato da beleza repousar justamente naquilo que se universaliza no homem. Não por acaso a graça, “que se manifestou a todos os homens” (Tt 2.11), é atrelado ao conceito de beleza.
Quanto a verdadeira obra de arte, ela não só é uma expressão da vida moral, mas também o resultado de uma luta interior em que o objeto artístico se torna algo muito além da intenção do artista. É aquela situação em que o artista produz algo maior que a si mesmo, transcendendo suas sensações básicas e imediatas — uma missão que até os anônimos cordeis também cumprem. Afinal de contas, a expressão artística mais elevada não é aquela onde a perfeição estética fala mais alto, e sim aquela em que o Bem fala mais alto. E quando o Bem fala mais alto o horror desaparece sob o luz da beleza.
©2016 Lindiberg Mustang

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Um baile de sombras

domingo, 7 de agosto de 2016 Postado por Lindiberg Mustang
Quando imitamos alguém isso revela um profundo desejo de querer ser essa pessoa. Ou seja, de viver, entender, ou internalizar as mesmas experiências que moldaram tal personalidade. De algum modo todos nós passamos por isso, quando lemos uma biografia, ou quando ouvimos algum músico, ou até mesmo quando assistimos a um filme. A imitação como um amparo instrumental é essencial para o aprendizado seja do que for, e de forma mais densa, nos leva à maturidade; é o que se passa quando encaramos pensamentos de gente como Nietzsche, Tolstoi ou um Chesterton da vida.
O problema é que a falta de caráter de nossa época tem produzido quilos e quilos de sujeitos que se contentam apenas com a imitação enquanto tal — elas não querem participar do mesmo drama, não querem ser, elas só querem parecer —, não acreditando na realidade mas apenas na encenação. Isso me lembra Machado de Assis em seu conto A teoria do medalhão, onde um pai aconselha seu filho dizendo que o que é realmente valioso é a aparência. Assim, o autor demonstra o caráter artificial dos círculos da sociedade em que ele mesmo viveu.
Hermann von Keyserling, filósofo alemão que passou parte de sua vida viajando pelo mundo, ao chegar no Brasil constata em seu diário esse mesmo fenômeno entre a elite brasileira. Ele concluiu que os brasileiros se satisfaziam tranquilamente se colocando no mundo apenas como simulacros: uma cópia imperfeita do que é real.
Isto nos explica muita coisa, porque é justamente esse comportamento que observamos em todas as dimensões de nossa cultura. Praticamente importamos todo tipo de ideias dos gringos: as músicas, programas de TV, enredos de novelas, gírias, moda, modinhas de rede social, etc. Com a diferença que tudo nos chega como uma cópia mal feita.
Tomemos rapidamente como exemplo o mundo gospel da metade do século XX até hoje. Importamos o neopentecostalismo com o mesmo formato de pregações e as mesmas ênfases na administração, na entonação da voz, no dinheiro, no sucesso. A imitação foi tão bem sucedida que não parou aí. A música gospel, sempre no lugar comum, recheado de bandas e artistas como Diante do Trono, André Valadão, David Quilan, Talles, Fernandinho, Aline Barros, parece ser repetições ou até mesmo plágio de bandas e artistas como Hillsong United, Planetshakers, Lifehouse, U2, Toby Mac, Jeremery Camp, Brooke Fraser, etc. Não questiono o talento desses músicos, mas a coisa é tão mal feita, que introduções musicais, riffs, solos, efeitos, performace, tudo isso chega aqui com adaptações e simplesmente estacionam nesse lugar comum. Não há uma busca por uma identidade ou originalidade. É apenas a imitação pela imitação.
A imitação deve ser cultivada como instrumento pedagógico para a aquisição de uma habilidade em que se possa encontrar a própria identidade do indivíduo. Mas em terras tupiniquins, a imitação se transformou num recurso para se atingir apenas o brilho social — é o mimetismo em sua função mais vulgar, que decorre do simples fato de seus meios serem, ao mesmo tempo, o seu fim.
Há de se abandonar esse culto à imagem e ao espetáculo das representações, pois como afirma Debord, o espetáculo “não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo”. A construção de uma identidade própria a partir da imitação mimética é essencial para evitar que o sujeito não seja consumido por uma falsa consciência. Assim, essa identidade não será apenas a impressão que você quer dar, mas também uma expressão real do que você é.
Mas as pessoas, os brasileiros, eu, tu, ele, nós, vós, eles, vivem numa espécie de palco de teatro e tudo que sabem é atuar. Habitam o mundo contemplando as estrelas como se o ser humano se encontrasse abandonado às traças divinas, sem forças para escalar até o céu na busca de algumas respostas. Como o mendigo do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, estirado nos degraus da igreja fitando o céu como se quisesse dizer: “Afinal, não me hás de cair em cima”. E o céu: “Nem tu me hás de escalar”.
Neste mundo abandonado por nós mesmos somente os corajosos encontram respostas. Somente os bravos conseguem ultrapassar esse jogo de imitações para alcançar a serenidade do ser. A imitação deve ser superada pela força da personalidade individual, caso contrário, continuaremos a admirar toda a vida social ser determinada por esse baile de sombras que se tornou nosso país, cheia de pessoas famintas por títulos, cargos, dinheiro e sucesso; constroem um edifício emocional insustentável como finalidade da existência humana, transformando a vida numa triste narrativa sobre a terra; tudo isso entorpece a alma e nubla nossas percepções sobre a bondade e a verdade.
Penso que a vida humana não precisa ser um teatrinho, que pode ser integralmente real, que um homem pode passar do autoengano das imitações para uma existência verdadeira. Pois é assim que o mundo é vencido: pela firmeza de pessoas que não se deixam levar pelo fascínio das encenações. Fascínio este que se assemelha a um abismo de espelhos, que paralisa, e dificulta uma verdadeira comunicação entre o próximo, porque é disto que se trata também.
Falar sobre isso é complicado se considerarmos que estamos inseridos numa sociedade industrial que produz infelicidade generalizada e felicidade superficial em igual modo. O drama da sociedade atual é que o comportamento de massa dá origem a vidas de massa, gerando uma existência efêmera que produz um ser covarde. Segundo Heidegger, só poderíamos ir além das máscaras eliminando o acidental e o trivial, concentrando-nos no cerne do ser humano; ou seja, tendo consciência de nossa finitude e nos libertando da superficialidade que a vida nos apresenta. Dessa liberdade brota coisas importantíssimas. Verdadeiros milagres, como por exemplo, a gentileza com o próximo, a sinceridade com nós mesmos, ou a lucidez necessária para se discernir as sombras.
©2016 Lindiberg Mustang
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Fé e razão, entre a loucura e a inteligência

sábado, 7 de maio de 2016 Postado por Lindiberg Mustang
Entendo a fé como o maior de todos os saltos; um salto para as camadas mais profundas da existência na angustiante tentativa de criar uma abertura no universo para tocar o infinito. Louis Lavelle declara que isso é uma dialética permanente a unidade da autoconsciência. Uma experiência tão cheia de sentido que suprime qualquer hiato entre a realidade e a idealidade.
Assim, é um erro compreender a fé como um mero símbolo de barganha para conseguir os favores de Deus. Os cristãos abandonaram o sentido — e consequentemente a experiência — existencial da fé contida nas Escrituras, assimilando-a a ajuntamentos cada vez maiores nas igrejas, todos orientados na mesma direção e arrolados no mesmo engano; transformaram a fé em sinônimo de conquistas financeiras, numa relação de posse e egoísmo, de obediência aos usos e costumes, aos dogmas, quando na verdade é o oposto disso; ou seja, uma viagem para as determinações mais profundas da existência tendo exclusivamente a implicação do encontro com o Eterno. Trata-se não só de seguir uma verdade, mas de experimentá-la, e vive-la até as últimas consequências.
Lavelle nos faz entender que essa não é uma experiência permanente  é rápido e embaraçoso; "são momentos privilegiados que parece que o Universo se ilumina e afigura-se como se nós mesmos tivesse escolhido nosso destino; depois o Universo volta a se fechar e logo tornamo-nos novamente solitários e miseráveis". Portanto, a sabedoria consiste em fazer permanecer em nossa memória esses momentos paradoxais e construindo sobre eles a trama da nossa existência quotidiana, e por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.
A confusão em apreender a fé reside em confundi-la com crença. Ellul, que faz uma lúcida distinção entre fé e crença, me convenceu de que crenças são meras insígnias e práticas que no final apenas atrapalha o grande passo para a fé. A crença turva nossa percepção de Deus transformando-o num ídolo, isto é, numa força a ser manipulada e temida. A fé, como deixa claro Kierkegaard, “é um incrível paradoxo capaz de transformar um crime em um ato santo agradável a Deus; paradoxo que não pode ser reduzido a qualquer raciocínio, pois principia exatamente onde termina a razão”. Dessa forma, Kierkegaard relaciona a fé à maior paixão humana, “uma relação absoluta com o Absoluto”.
Quem abraça a fé abraça também o desconforto, a insegurança e a dúvida, pois é um movimento que o deixa sozinho com um Deus que talvez pode não estar lá. Logo, a razão não serve mais como um guia, porque ainda está emaranhada pelos limites estabelecidos da cultura e da sociedade. Abraão não se deixou levar pelos elementos culturais ou os valores éticos de sua época ao decidir sacrificar seu próprio filho. O pai da fé se lançou de imediato em direção ao paradoxo da vida. Por amor a Deus, e de modo idêntico, por amor a si mesmo.
A fé é um milagre e ninguém está excluído dela, entretanto, não é conveniente dizer que os filósofos gregos deram o salto da fé. Porém, podemos acatar o esclarecimento de Eric Voegelin, que afirma que através de uma ordem noética os gregos tiveram o salto no ser. Sócrates fez o movimento infinito sob o critério intelectual, puramente cognitivo. Neste caso, a razão se torna a simples tendência da inteligência humana em direção ao fundamento, ou seja, a ordem divina. Para Platão, a realidade não pode ser desprovida de um alicerce transcendente, pois seria impossível pensar logicamente sem as determinações dos princípios universais. Isso é importante, e chegar aonde eles chegaram já é uma tarefa bastante elevada para as forças humanas; contudo, não seria possível abrir essa perspectiva sem o toque divino.
Os gregos entendiam a razão como o espírito, portanto, tudo que daí procede já nasce fechado para os limites da razão. Logo, a fé proposta pelo Evangelho, para eles era filosoficamente loucura, um suicídio intelectual. Platão e Aristóteles foram aos limites da razão na tentativa de esclarecer a realidade conceitualmente, através de definições e explicações. Segundo esse modo de encarar o mundo é possível dissecar a realidade a partir de um refinamento constante dos conceitos de que trata, tendo sempre a razão como a ferramenta que baliza e orienta o indivíduo na busca da verdade.
A questão é que o Evangelho estabelece um novo sentido para o que seja a verdade; eis a grande loucura do Evangelho: a verdade não pode ser depurada, corrigida, não pode ser dividida ou sequestrada pela retórica, pois não se trata de um conceito e sim de uma Pessoa. Não se trata de aderir a uma “doutrina cristã”, mas de confiar numa pessoa que se comunica com você. Então, não há outro modo de compreender e discernir a verdade a não ser através da fé. Por isso Paulo nos guia a seguir a verdade em amor; ou seja, trata-se seguir a verdade, e não de adotar um sistema de doutrinas ou teorias obcecadas pela perfeita formulação conceitual. Seguir a verdade é o mesmo que “seguir Jesus” — e viver todas as consequências dessa escolha.
Ainda assim, é preciso deixar claro que o salto da fé não exclui a razão, não é um movimento irracional preenchido de uma realidade abstrata. A fé assimila a razão formando uma unidade na consciência, reconhecendo o Definitivo em sua verdade incontestável. Portanto, a fé é a presença cada vez mais clara da realidade, não aceita nada imposto de fora; encara tudo com a máxima seriedade em face daquilo que é permanente, da eternidade, e em última instância, daquilo que é decisivo. Tudo que é transitório será olhado à luz do que é definitivo.
Diante disso temos duas escolhas: aceitar o refúgio da crença como um escape da realidade, como consequência da nossa busca natural por proteção, ou ser inundado pela fé e viver como um andante na existência, e não como um pedestre.
©2016 Lindiberg Mustang
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Meu mundo ideal

domingo, 21 de fevereiro de 2016 Postado por Lindiberg Mustang
A noção de se reencarnar me parece demasiadamente infantil — uma hemodiálise existencial sem qualquer racionalidade metafísica. No entanto, o pensamento de voltar ao passado sempre me perturbou. Minha imaginação já fabricou ideias fantásticas sobre esse tema. Admito, voltar ao passado é minha obsessão. Mas não aquele passado medieval ou renascentista — estes também me causam certo saudosismo —, mas aquele passado da minha infância, onde as ideias pareciam ser mais originais; onde os cortes de cabelos eram menos extravagantes e vagarosamente mais ousados; os shorts da molecada eram todos acima dos joelhos e deixava uma sensação de mais liberdade; sem contar com aquelas excêntricas roupas que coloriam a cidade na pequena pracinha aos finais de semana.
Minha infância é meu mundo ideal, e como disse Paulo Brabo: “O presente, senhoras e senhores, é uma afronta e uma piada. Somos a continuação medíocre, a parte 2 que o bom senso não deveria ter deixado chegar aos cinemas. Somos o capítulo mais fraquinho de uma série de ficção científica que o roteirista não tem mais criatividade ou saco para terminar”. Algo como The Walking Dead ou Lost.
O presente não é meu mundo. Isso porque o presente parece ser o lugar nenhum: o nada é o fruto dessa pós-modernidade. A modernidade fracassou em querer resolver os problemas da humanidade; inseriu no mundo deuses como a Ciência, a Política, a Natureza, a História. Por isso acho equivocada a concepção popular de que o homem moderno se tornou completamente secularizado. Invés disso, acredito que criou apenas novas expressões religiosas. Não é de se espantar que nossa civilização, na ânsia de superar o discurso religioso — tido como uma ideia atrasada e obsoleta —, se desague em pleno século 21 prestando culto à extraterrestres (os deuses astronautas do History Chanel) e cristais “mágicos” do movimento New Age. 

O que dizer de Einstein, Heisemberg e Planck? Onde estão homens como Freud, Jung e Husserl, que conseguiam discernir o mundo? O que eles nos ensinam hoje? Coisa nenhuma, pois os trocamos por fast-foods, iPhones e redes sociais. Tudo isso, aparentemente, atende perfeitamente as condições necessárias da imaginação moderna, nublada por crenças grosseiras que substitui a angústia de um desejo autenticamente espiritual.
Como pensava o filósofo Edmund Burke, o verdadeiro pacto social é estabelecido entre os mortos, os vivos e os que ainda estão por nascer. O que gente moderninha não entende é que, quando os mortos não valem nada, ninguém vale nada. É o respeito pelo passado que nos faz caminhar decentemente para o futuro. O século 21 nasce habitado por gente que acredita que o mundo em que elas vivem nasceu prontinho; caminham sobre a história desconhecendo e desrespeitando o passado, incapazes de perceber que a ordem social se estabelece no tipo de mundo que você recebe dos seus pais e avós e o tipo de mundo que você entrega para seus filhos e netos.
Não se enganem, o futuro é uma distopia e se reencarnar seria o pior de todos os tormentos. É acreditando nisso que faz meu pai viver longe desse padrão de vida que orienta o consumo de todos hoje em dia. Meu pai ainda hoje — apesar de morar na capital tocantinense — prefere levar a vida de forma simples, andando na mesma bicicleta a mais de vinte anos, fazendo as próprias refeições, usando seu celular exclusivamente para fazer ligações, e raramente chega a perder um episódio d’A Praça é Nossa; os maiores valores que me ensinou foram através do exemplo — porque é assim que tem que ser — e sem muitas palavras.
Assim, meu apelo neste mundo é exclusivamente por independência, para que, assim como meu pai, todos busquem sua liberdade e não se deixem escravizar por trivialidades sem sentido e, finalmente, para que as pessoas façam suas conexões uns com os outros — como se fazia antes da internet, quando todos entendiam que viver era melhor do que postar. Não sou ingênuo o bastante para achar que isso vai acontecer. Bem, talvez essa seja minha irresistível obsessão de querer voltar ao passado.
©2016 Lindiberg Mustang

A simplicidade da santificação

quarta-feira, 8 de abril de 2015 Postado por Lindiberg Mustang
O maior desserviço do movimento evangélico está no fato de ter incutido no inconsciente coletivo de que só é possível falar de Deus se, de alguma forma, formos escravos de púlpitos. Ou seja, se você não é membro de alguma igrejinha, não usa gravata na hora de pregar, não segue determinados usos e costumes, provavelmente pouca gente te dará ouvidos.
Já está implacavelmente inserido no imaginário das pessoas o estereótipo de quem tem “autoridade” para falar de Jesus. Geralmente são aquelas pessoas que exalam certo tipo de “santidade”; nesse caso, santidade, seria um abraço a certas regras como: não ouvir “música do mundo”, não beber álcool, não jogar bola, dizer (apenas dizer) que não assiste novelas, frequentar campanhas, internalizar um novo vocabulário — palavras como: "vaso", "canela de fogo", "levita", "na carne", "retété", "tá amarrado", "vigiar", etc., a lista é grande e, qualquer pessoa que não esteja disposta a introjetar estes elementos do mundo gospel, será uma voz solitária.
Ora, para o Mestre de Nazaré, santidade é o próprio crescimento do ser na graça; isto é, um crescimento da consciência humana na própria pessoa de Jesus. Isto se resume numa caminhada de amor e misericórdia, e não numa lista de coisas a se fazer, pois, santificação não é uma burocracia divina. Santidade, para Jesus, é simplicidade, gratidão e contentamento; é amar quem ninguém ama, mesmo que isso signifique transgredir a lei. Santidade é maturidade para não se escandalizar com mais nada nesta vida, sabendo viver tudo que é lícito e discernindo o que convém e o que edifica.
A visão dessa moçadinha evangélica sobre santidade é pagã, farisaica e cheia de justiça própria, anulando totalmente a graça. Assim como os fariseus, tratam a lei com extremo zelo, ao ponto de sacrificar pessoas pelas regras. Quando falam em santificação, falam de suas próprias angústias, pois não enxergam o que foi realizado na Cruz. Nesse meio há uma pobreza da linguagem falada e vivida; “pastores” que são masturbadores de metáforas e não pregadores autênticos; não sabem o sentido do que ensinam. O movimento evangélico pode tranquilamente ser resumido como um povo que vivem a acender a fogueira das vaidades, com cultos sem a elegância da simplicidade, e totalmente desconexos com o movimento da Igreja Primitiva. E é justamente essa falta de conexão com o verdadeiro Evangelho que guia o movimento evangélico a essas novidades, fazendo a neurose ser identificada como devoção.
No momento em que estivermos seguro de já estarmos cumprindo os dois mandamentos supremos do Evangelho (amar a Deus acima de tudo e o próximo como a si mesmo), não haverá mais desejo de nenhuma regrinha imposta por instituições religiosas. Essas normas a cada dia se revelam mais inúteis do que nunca. É por pensar assim que há evangélicos que adorariam me ver no inferno, porque não sou “gospel” o suficiente segundo seus rigorosos critérios (graças a Deus não são por eles que sou julgado). Paulo, que era um apóstolo de verdade, nos adverte que “tais regras, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, todavia, não tem valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.8-23). Pensem comigo. Aliás, nem se deem ao trabalho de pensar. Apenas concordem. É preciso maturidade diante de questionamentos como: é lícito fumar? É lícito ouvir Cazuza? É lícito dizer palavrões? É lícito beber cerveja? É lícito achar Jean Wyllys um imbecil?
O apóstolo Paulo é excepcional ao dizer que é “bem aventurado o homem que não se condena naquilo que aprova” (Rm 14.22). Ora, admiramos e citamos com frequência homens como Lutero, que sabia apreciar uma boa cerveja; Calvino, que às vezes recebia seu salário em toneis de vinho; Charles Spurgeon (considerado o príncipe dos pregadores), que fumava charuto pra relaxar; C. S. Lewis, que fumava cachimbo e bebia whisky; Dostoievski, que gostava de vodca e, que tal Jesus, que comia com estelionatários, bebia com publicanos e era amigão de prostitutas (Lc 7.34). Esses homens entenderam perfeitamente as palavras do rabi de Nazaré quando disse que o que “contamina o homem não é que entra pela boca”… não é modelo da roupa, não é o teor alcoólico do vinho, não são os acordes de “Faroeste caboclo”, não é a marca da maionese e, sim, o “tamanho da língua”.
Finalmente, quem entendeu o Evangelho, entendeu que “tudo é puro para os que são puros” (Tt 1.15); entendeu que santificação não é uma conquista do indivíduo, não é mérito, não é medo; é graça, percebida pelo fruto da vida, em amor.


©2015 Lindiberg Mustang

A autoajuda e sua não-possibilidade

quarta-feira, 30 de abril de 2014 Postado por Lindiberg Mustang

Ser lúcido diante da vida é uma atitude pra poucos. O normal mesmo é achar que podemos encontrar a felicidade bem ali na esquina; ou achá-la manuseando um guia prático – tipo, “dez passos para ser feliz”, “sete lições para ser bem sucedido” –, como se fosse uma receita de bolo. O interessante é que livros com esses títulos estão sempre na lista dos best-sellers anunciando as ilusões do coração como se fossem verdades.
Qualquer discurso que vai contra essa mensagem da autoajuda é escândalo e é justamente isso que me faz entender o porquê os profetas do Antigo Testamento foram tão rejeitados. Afinal de contas, “o seu destino é ser vitorioso”. Você já foi predeterminado desde antes você nascer, quando, numa corrida, você deixou pra trás mais de duzentos milhões de espermatozoides e venceu em primeiro lugar. E isso é uma verdade que vale pra todos; desde Bill Gates até o gari que recolhe o lixo da sua casa.
Mas não para aí; “você é insubstituível” e “seu lugar é no pódio”. Exatamente, isso vale pra todos que concorrem à presidência da Republica a aqueles que participam da corrida olímpica. O primeiro lugar é de todos. Ignore as contradições, como diz o sábio, “quem pensa sofre”, e você não foi feito pra sofrer.
Não alcançou o primeiro lugar ainda? Relaxa, “não desista dos seus sonhos”. Isso vale pra qualquer sonho também, para aqueles mais bobos aos mais impossíveis. Por isso, não economize imaginação, sonhe alto, afinal de contas você é do tamanho dos seus sonhos. Hitler não desistiu dos seus sonhos. Chegou onde queria.
O livro do Eclesiastes, que nunca foi um best-seller, nos convida a andar com os pés no chão. Diz o sábio que “os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos” (Eclesiastes 9:11). Salomão deixa entender que na vida nem sempre dois mais dois são quatro; e nos convida a encarar o absurdo da existência e suas impossibilidades.
Jesus, com sua simplicidade, nos alerta que no mundo teremos aflições. “Tende bom ânimo”, é o seu conselho. Ora, isso não quer dizer que não seremos felizes. A felicidade é o processo dessa caminhada na vida. É a construção de uma ordem interna mesmo diante da inexorável angústia que nos rodeia. Nem o próprio Jesus se livrou dela: “estou angustiado até a morte”, disse o Mestre de Nazaré.
Enfim, o problema disso tudo é a confusão que criamos em identificar a dor com sofrimento e prazer com felicidade. Muita gente tem prazer, mas não é feliz. A felicidade transcende um mero conceito de prazer. O homem lúcido é aquele que tem consciência de sua angústia, e isso não suprime o fator felicidade. Felicidade não é ausência de dor.

©2014 Lindiberg Mustang

O tamanho da nossa grandeza

quinta-feira, 7 de março de 2013 Postado por Lindiberg Mustang

Somos poetas inveterados. Quando uma quantidade é excessivamente grande, deixamos de considera-la simples quantidade. Nossa imaginação desperta. Em lugar de mera quantidade, temos agora qualidade: o Sublime. Para isso, porém, a grandeza puramente aritmética da Galáxia não nos impressiona mais que os números em um livro contábil. Para uma mente que não compartilha de nossas emoções e carece de nossa energia imaginativa, o argumento contra o Cristianismo com base no tamanho do Universo seria simplesmente ininteligível. É, portanto, de nós mesmos que o Universo material recebe seu poder para nos intimidar. Os homens sensíveis observam o céu à noite com espanto, mas os tolos e insensíveis não são tocados. Quando os silêncios dos espaços eternos aterrorizou Pascal, foi a grandeza do próprio Pascal que os capacitou a isso. Amedrontar-se diante a grandiosidade das nebulosas é, quase que literalmente, espantar-se com a própria sombra. Como cristãos, não sei se estamos errados em tremer diante dessa sombra, porque creio que ela seja a sombra de uma imagem de Deus. Entretanto, se a vastidão da Natureza um dia ameaçar sufocar nosso espírito, devemos lembrar-nos de que é apenas a Natureza espiritualizada pela imaginação humana que faz isso.

C.S. Lewis, em Milagres.