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A adúltera de Deus

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012 Postado por Lindiberg Mustang


Luiz Felipe Pondé
O Deus de Israel sempre amou as adúlteras. Jesus também dispensou cuidados especiais para com elas, e para com as prostitutas, os ladrões e os desgraçados de todos os tipos. Deus parece não resistir à sinceridade do pecador, assim como a filosofia parece amar a verdade do melancólico.
Na Bíblia hebraica, Raquel, a segunda esposa de Jacó (depois chamado de Israel), por muitos anos uma mulher estéril e idólatra por raiva de Deus, enterrada fora do "cemitério da família" por ter sido uma vergonha para esta mesma família, será escolhida por Deus como consoladora do povo eleito no sofrimento
Raquel é a "mater misericordiae" do judaísmo. Quando Israel sofre, é o nome dela que deve ser lembrado. Deus ama as infelizes e as elege como suas conselheiras. Qual o segredo da infelicidade?
Não se trata de brincadeiras teológicas "progressistas" que erram achando que ninguém é pecador. A pastoral de hoje, vide as igrejas que crescem por toda parte (o judaísmo não escapa tampouco desse vício), cada vez mais se assemelha a grandes workshops de autoajuda ou treinamentos motivacionais. Nada menos cristão do que um Jesus consultor de sucesso. Ninguém quer ser pecador, só santo.
Mas aí reside o erro para com a teologia cristã mais sofisticada: nela, o grande pecador é o mais próximo do santo. A beleza da antropologia do cristianismo está neste sofisticado e denso vínculo dramatúrgico: quando o corpo se põe de joelhos, pelo peso do pecado, o espírito se ergue. Não se trata de dolorismo, mas, sim, da mais fina psicologia moral.
A santidade reside mais na alma do pecador do que na autoestima do "santinho".
Aliás, devo dizer que minha crítica à religião é diametralmente oposta àquela de tradição epicurista ou marxista. Esta, grosso modo, critica a religião porque ela faz do homem um alienado covarde, e que se vende a Deus para ser um alienado feliz. Eu me alinho mais ao pensamento do teólogo Karl Barth (século 20), para quem a religião torna tudo um mistério maior e traz à tona um sofrimento maior, mas que, por isso mesmo, amplia a consciência de nossa condição humana. Sofro, por isso penso, e logo, existo.
Recuso as religiões institucionais não porque elas fazem do homem um medroso, alienando-o de sua felicidade e autonomia (como creem Epicuro e Marx), mas sim porque as religiões fazem do homem um feliz, alienando-o de sua própria agonia. Quando a religião vira marketing, é melhor caminhar só pelo vale das sombras.
Revi recentemente o maravilhoso "Fim de Caso" (filme de 1999, dirigido por Neil Jordan), com a deusa Julianne Moore e Ralph Fiennes. O filme é uma adaptação do romance de Graham Greene e narra a "sua conversão". Trata-se de um fino tratado de teologia, melhor do que grande parte dos livros que afirmam sê-lo.
No filme, a compreensão da íntima relação entre pecado e graça é avassaladora. Nada mais forte do que a graça para iluminar a agonia do pecador para si mesmo: o santo não é um santinho.
A personagem de Julianne Moore é uma adúltera, que ao longo do filme apresentará traços claros de santidade, chegando a realizar um milagre. A adúltera, infiel ao seu marido, destruidora da fé no casamento e no amor que organiza a vida e a sociedade, o tipo mais vil de mulher, é aquela que mais fundo toca Deus em sua paixão pela agonia humana. No cristianismo, Deus leva a agonia humana tão a sério que resolveu Ele mesmo passar por ela, na figura da Paixão de Cristo.
Um musical a estrear, baseado na obra de Victor Hugo (século 19), "Os Miseráveis", com Hugh Jackman no papel de Jean Valjean, fugitivo da cadeia, e Russell Crowe no papel de seu perseguidor implacável Jabert, traz uma das maiores cenas da teologia cristã já representada na arte. Jean Valjean, após ter roubado os castiçais da casa de um padre, e ser pego pela polícia, é perdoado pelo padre que confirma para a polícia a mentira contada por Valjean: "Sim, eu dei os castiçais para ele".

Este ato transforma Valjean. O encontro entre a misericórdia e o pecador é uma das maiores afirmações do sentido da vida.

 

Fé e crença

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 Postado por Lindiberg Mustang
Jacques Ellul

De um único verbo, crer, originam-se dois substantivos que representam ações radicalmente opostas: crença e fé. Porém quando quero usar uma forma verbal para expressar a minha fé tenho ainda de usar crer, a não ser que escolha uma fórmula ainda pior, ter fé.

A crença provê respostas a nossas perguntas, a fé nunca o faz. Cremos para encontrar segurança, solução, uma resposta para os nossos questionamentos. As pessoas creem para desenvolverem para si um sistema de crenças. A fé (a fé bíblica) é completamente diferente. O propósito da revelação é fazer com que ouçamos as perguntas, e não suprir-nos com explicações.

A fé, em primeira instância, é ouvir, como Barth tão frequentemente nos faz lembrar. A crença fala e fala, atola-se em palavras, interpola os deuses, toma a iniciativa. A fé requer um posicionamento inteiramente oposto: a fé espera, permanece atenta, colhe sinais, sabe o que fazer das parábolas mais delicadas; ela ouve pacientemente o silêncio até que o silêncio seja preenchido pelo que ela toma sendo a inquestionável palavra de Deus, palavra da qual se apropria.

A fé isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas ideias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, quer seja religiosa ou social, falando o mesmo dialeto. A crença age como apaziguadora na sociedade, ela é a chave para o consenso que buscamos, o definitivo e há muito proclamado como necessário elemento essencial da vida comunal. A fé sempre trabalha de maneira exatamente oposta. A fé individualiza; ela é sempre e exclusivamente uma questão pessoal. Fé é o relacionamento pessoal com um Deus que se revela como uma pessoa. Esse Deus singulariza a pessoa, coloca-a à parte, e confere a cada pessoa uma identidade que não é comparável à de nenhuma outra. A pessoa que ouve a palavra de Deus é a única a ouvi-la; neste ato ela está separada das outras pessoas, e nele ela torna-se única – simplesmente porque o elo que liga esse indivíduo a Deus é único, exclusivo e inviolável. Trata-se de um relacionamento singular com um Deus único e absolutamente incomparável.

Deus particulariza, singulariza a pessoa a quem ele diz “eu te chamo pelo teu nome” (Isaías 45.4). A fé separa cada pessoa das demais e faz única cada uma delas. Na Bíblia a palavra santo significa separado, à parte. Ser santo é ser separado de todos os outros, é ser único em razão da tarefa que não pode ser desempenhada por nenhuma outra pessoa, tarefa que se recebe pela fé.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A fé não é o oposto da dúvida, a crença é. Os soldados da crença agem sem questionamento de acordo com a lei e os mandamentos. São inflexíveis nas suas convicções, não toleram a qualquer desvio. Na articulação de sua crença eles imprimem rigor e absolutismo ao extremo. Refinam incessantemente a expressão da sua crença e buscam dar a ela uma formulação intelectual específica num sistema tão coerente e completo quanto possível. Insistem na completa ortodoxia. Codificam rigidamente modos de pensar e de agir.

Isso leva a um elevado grau de eficiência; o crente é uma pessoa que faz o que precisa ser feito, mas toda a sua atividade é, no fundo, vazia. Os crentes tem uma realidade própria tão pequena que só são capazes de viver e expressar essa realidade dentro de uma unidade convencionalmente estabelecida. São gente de ajuntamentos. Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, dependem da certeza de que esses outros realmente acreditam, e assim têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária. Multiplicar o número de liturgias, compromissos e atividades dá aos crentes a completa satisfação; rodeados por isso tudo eles não tem necessidade de questionar a verdade ou realidade da sua própria crença: a atividade os mantém ocupados.

Nesse cenário a diversidade de crenças torna-se intolerável. A dúvida e as incertezas são radicalmente destrutivas para a crença, e em razão disso a crença não pode tolerá-las. A crença é inimiga da diversidade. A diversidade é sempre uma fonte de novos questionamentos e propicia um ambiente para a autocrítica. Diante da diversidade corremos o risco de nos depararmos outra vez com a dúvida. Para evitar esse inimigo a crença precisa ser e é de fato rapidamente transformada em senhas, ritos e ortodoxia.

“Eu creio; ajuda-me na minha incredulidade” (Marcos 9.24) são as palavras que resumem o que é a fé. A fé me constrange acima de tudo a avaliar o quanto não vivo pela fé – o quão raramente a fé enche a minha vida. A fé coloca à prova cada elemento da minha vida e do meu contexto social; não poupa nada nem ninguém. Ela é implacável em me levar a questionar todas as minhas convicções: cada uma das minhas moralidades, crenças e posições políticas. A fé me impede de atribuir significado definitivo a qualquer área da atividade humana. Ela me desprende e me livra do dinheiro, da família, do meu emprego e da minha capacidade intelectual.

Ela é o caminho mais certo para me levar a admitir que a única coisa que sei é que nada sei. A fé não deixa nada intacto. A única coisa que a fé me traz é o reconhecimento da minha impotência, incapacidade e inadequação. Ela faz com que eu me depare com minha condição de incompleto, e desmascara minha incredulidade (naturalmente a fé é a arma mais certeira e letal contra as crenças em geral).

A crença é confortadora. A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura. Ao contrário, a fé continuamente nos coloca no fio da navalha. Embora saiba que Deus é Pai, ela nunca minimiza o seu poder. “Quem é este, que até mesmo o vento e o mar obedecem?” (Marcos 4.41). Essa é uma pergunta da fé. Para a crença as coisas são simples: Deus é Todo-Poderoso. Com a crença nós normalizamos Deus, para que possamos nos sentir confortáveis diante do seu poder. Apenas a fé é capaz de apreciar a imensidão de Deus e a sua verdadeira natureza.

A dúvida, que constitui parte integral da fé, diz respeito a mim mesmo; não diz respeito à revelação de Deus ou ao seu amor nem à presença de Jesus Cristo. Trata-se da dúvida a respeito da efetividade, até mesmo da legitimidade, daquilo que faço e a respeito das forças a que me submeto na minha igreja e na sociedade. Além disso, a fé coloca a si mesma à prova. Se discirno o tumulto da fé dentro de mim, tenho de adotar como primeira regra não enganar a mim mesmo, não me deixando abandonar à crença indiscriminadamente. Passarei a ter de sujeitar minhas crenças a uma crítica rigorosa. Terei de dar ouvidos a todas as negações e ataques dirigidos a elas, de modo que possa compreender o quão é sólido o objeto da minha fé. A fé não apoia meias-verdades e meias-certezas. Ela me obriga a enfrentar o fato de que não sou nada, e ao fazer isso recebo todas as coisas de presente.

A crença está associada a coisas, a realidades e a comportamentos que são elevados ao status de valor definitivo, a ponto de serem merecedores de que se morra por eles. A crença veste realidades humanas finitas para que se apresentem como sendo realidades definitivas, absolutas e fundamentais. Através da crença tudo que pertence ao âmbito da Promessa, da Palavra de Deus e do Reino é transformado em efeito colateral, em palavras doces e piedosas, em meios de tornar a vida mais fácil e num processo de auto-justificação.

A fé trabalha de forma oposta. Ela reconhece o Definitivo em sua verdade incontestável, e assim atribui pouca importância a qualquer coisa que se apresente como substituto desse Definitivo. Não se trata de olhar para uma fonte externa de uma realidade definitiva; o Reino dos céus está agora entre e ou dentro de vocês. A partir de agora você é que constitui o reino. A fé é a exigência de que encarnemos o Reino de Deus agora, neste mundo e nesta época.

Ninguém jamais progride da crença para a fé, muito embora a fé em muitos, com muita frequência, degenere em crença. Você não pode chegar à fé por meio de qualquer religião ou crença antiga, através de alguma vaga exaltação espiritual ou de emoções estéticas. De um ponto de vista cristão, crer não é melhor do que não crer; ter uma religião não é melhor do que não ter. A crença é uma estrada que não leva à fé. Não é possível transformar uma convicção pessoal a respeito do valor de rituais num ato de postura solitária diante de Deus. A implicação disso é verdadeira: toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião. Elas induzem a escolhas espirituais que não substituem a fé, impedindo-nos de descobrir, de ouvir e aceitar a fé revelada em Jesus Cristo.

Kierkegaard defende a ideia de que, para uma pessoa criada com toda a cultura do Natal, que teve todas as suas pequenas necessidades espirituais satisfeitas pela igreja, é mais difícil receber o choque da revelação, descobrir o Único, e entrar na noite escura da alma, do que para aquele que não fez outra coisa na vida a não ser buscar continuamente sem nunca chegar a uma resposta satisfatória. Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro. Não existe caminho que leve de um pouquinho de religião (de qualquer tipo) a um pouquinho mais e finalmente à fé. A fé destrói toda a religião e tudo que entendemos como espiritual. Por outro lado, a passagem da fé para a crença é possível e uma ameaça constante. É o caminho do retrocesso ao qual a igreja e vida cristã estão sempre sujeitos. A fé está constantemente degenerando em múltiplas crenças. Nenhum termo expressa melhor essa mudança imperceptível do que “ter fé”. Quando nós tomamos posse da fé, quando alegamos sermos proprietários dela, naturalmente estamos pensando que podemos dispor dela do modo que desejarmos. A única coisa que temos o direito de dizer é “a fé me tem”. Todo o resto é mera crença.

Fé não é nem crença nem credulidade. Não é uma aquisição razoável nem um feito intelectual; é mais a conjunção de uma decisão definitiva com uma revelação, e convida-me a efetuar hoje a encarnação da realidade última, o Reino de Deus presente entre nós. Sou intimado por uma Palavra que é eterna, universal e pessoal aqui e agora. Aceitar a intimação. Dispor-se a agir de forma responsável, entrando numa aventura ilógica, sem saber sua origem nem o seu fim. Assim é a fé.

A apologética tenta provar que o cristianismo responde às perguntas da humanidade, que ele é verdadeiro e superior às outras religiões. Fica evidente que isso limita nossa discussão ao nível religioso. Somos capazes de demonstrar que o cristianismo pode conduzir um debate razoável. Ocorre porém que esses debates entre intelectuais são totalmente estéreis; um jamais chega a convencer o outro. Nenhum apologeta chegou a trazer um incrédulo para a fé, mesmo os que sabiam que haviam vencido a retórica do adversário. A abordagem meramente lógica e intelectualista leva a um beco sem saída. O intelecto não é capaz de invocar ou demonstrar o caminho da fé.

A crença é um refúgio e um escape da realidade. Em nossa busca natural por proteção nos agarramos a ela como uma garantia ou uma apólice de seguros. Radicalmente oposta à crença é a fé. Fé é assumir riscos, deixar para trás segurança e tranquilidade, desprezar garantias: é pisar, como o discípulo, para fora do barco no mar da Galileia. Se vivemos pela fé, não há necessidade de implorar que ele nos salve do perigo. Torna-se suficiente saber que ele está ali, mesmo que o perigo se mostre mortal; o que quer que o amor de Deus queira fazer ou esteja fazendo em nós será feito, não importa o quê.

Por que crer? Usando “crer” no sentido de “participar da fé”, não temos nenhum resposta. Acreditar porquê? Com vistas a quê? Para realizar o quê? Para conseguir o quê? São questões sem sentido. Cremos por razão nenhuma. Não existe razão objetiva para a fé; a fé tem de ser vivida. A fé não tem origem ou objetivo. No momento que admite qualquer objetivo ela deixa de ser fé. Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita. Isso vai parecer chocante, especialmente para os protestantes, que falaram tanto de salvação pela fé, da fé como condição da salvação, que chegaram a dizer “você crê, por isso será salvo”. Mas temos de ficar voltando à fé e a sua gratuidade. Se Deus ama e salva a humanidade sem pedir preço algum, ele quer a contrapartida de ser crido e amado sem propósito algum; Deus quer ser crido e amado sem que seja por mero interesse pessoal, simplesmente por nada.

Isso é escandaloso, e ainda assim tão fácil de compreender se considerarmos o amor. No momento em que um homem e uma mulher se amam por alguma razão concreta, qualquer que seja, dinheiro, prestígio, beleza ou posição, o amor deixa de ser. O amor é sem causa e sem interesses pessoais ; o amor é sem razão.

A fé é uma constante ação recíproca; ela nunca fica estagnada ou se acomoda. Não se pode encarnar a fé de um modo estático e definitivo. A fé é um perene novo ponto crítico. A fé portanto é a contínua presença da tentação e uma visão cada vez mais clara da realidade. Ela implica na crítica à religião cristã, às missões civilizadoras, aos códigos morais cristãos impostos de fora; crítica a uma verdade cristã que exclua reivindicações sobre si de qualquer outra área da cultura humana.

A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões. A fé é levada a prosseguir em criticar, julgar e radicalmente rejeitar todas as reivindicações religiosas humanas. Precisamos ser cautelosos nesse ponto. Não são pessoas que estão sendo julgadas ou criticadas aqui; a vontade de poder das pessoas e a expressão disso na forma de religião é que é criticada, julgada e rejeitada. Mas a crítica da religião feita pela fé pode estar enraizada apenas na sua crítica de si mesma.

A fé me leva a tomar parte de tudo, e ao mesmo tempo me mostra tudo sob uma luz que não é a razão, a experiência ou o senso comum. Não se trata de uma operação intelectual, é sim uma atitude existencial. A fé traz a luz a nova pessoa manifestada em amor e lucidez.

Hoje em dia a fé dos cristãos na igreja se desencaminhou. A sua obsessão com o conteúdo da sua fé (teólogos discutindo termos técnicos) ao invés da paixão pelo movimento e pela vida da fé, acabou desencadeando a nossa crise mundial. Mas o imutável permanece imutável. O Último, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro não mudou. A fé é nossa responsabilidade de fazer com que o Transcendente, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro Ser, torne-se uma realidade ativa dia após dia em nosso contexto, hoje onde quer que estivermos. A fé só move montanhas quando fala ao onipotente criador – quando me sujeito a ouvir a palavra da fé

Extraído de Fé Viva: Crença e Dúvida num Mundo Perigoso. San Francisco: Harper and Row, Publishers, 1983.
Tradução: Paulo Brabo
Revisão: L. Ivan Volcov

E os fracassados?

quinta-feira, 26 de maio de 2011 Postado por Lindiberg Mustang


Nas bem aventuranças, nas parábolas, em seus contatos sociais, Jesus tendia a exaltar os perdedores deste mundo, não os vencedores. Nossa cultura moderna recompensa de modo extravagante a beleza, a habilidade atlética, a riqueza e a realização artística, qualidade que de modo algum pareciam impressionar Jesus. Como podemos harmonizar um compromisso com a excelência com a compaixão por aqueles que nunca a conseguem? [...]. Como podemos admirar a Miss Universo sem depreciar a aluna adolescente que usa óculos, tem espinhas e que mais parece um poste? Ou como podemos homenagear Bill Gates e também o lixeiro de Bill Gates?

Como cristãos somos convidados a abraçar o mundo com gratidão para com o Pai de todas as coisas boas [...]. Ao mesmo tempo somos chamados a respeitar os marginalizados – os idosos, os inválidos, os doentes, os sem atrativos, os pobres – que se sentem privados de dádivas naturais e talvez não possam usufruir certos prazeres. Eles também refletem algo da imagem de Deus.

Philip Yancey, em Para Que Serve Deus.


O Rico e seu Camelo

sábado, 22 de janeiro de 2011 Postado por Lindiberg Mustang
A triste sina do rico
Ilustração de Mateus 19:23-24. Um rico tenta entrar pela porta estreita do céu mas suas bolsas de dinheiro o impedem. Atrás dele três homens tentam fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Gravura de Phillip Galle (1537–1612) a partir de Maarten van Heemskerck (1498–1574).

DURANTE 1500 ANOS a ética cristã sustentou a exigente e improvável noção, fundamentada no igualmente intransigente ensino de Jesus, de que o desapego aos bens materiais é não apenas virtude, mas sensatez. A ambição, a ganância e o acúmulo de riquezas eram, por sua vez, tidos unanimemente como coisa feia – ao mesmo estúpida e condenável.

Naturalmente havia ricos e esses de certa forma se beneficiavam da popularidade da idéia. Enquanto vissem a pobreza como virtude os pobres não representariam ameaça ao estado de coisas. Porém mesmo os mais abastados senhores não sonhavam com as possibilidades de um sistema como o capitalismo contemporâneo, que é sustentado pela noção oposta e vive de vender incessantemente aos pobres a possibilidade de se tornarem ricos.

Mas não quero me adiantar: falemos desses dias estranhos em que a pobreza era enxergada (e no mundo ocidental!) como virtude.

O principal patrocinador da idéia foi, naturalmente, Jesus de Nazaré, que aparentemente deleitava-se em semear escândalo em todas as esferas. Jesus falava a um mundo que era infinitamente menos competitivo e ganancioso, mas já nos seus dias suas injunções e demandas sobre o dinheiro devem ter soado tremendamente difíceis de engolir:

O amor ao dinheiro é raiz de todos os males.

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque onde está o teu tesouro aí estará também o teu coração.

O desprezo de Jesus à riqueza material não permanecia no campo da recomendação. Ele vivia frugalmente e parecia crer, contra todo o bom senso, que o indigente se encontra em posição estrategicamente mais vantajosa do que o mais confortável dos ricos.

Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome.

A respeito do que viria a ser chamado mais tarde de “ética do trabalho”, o programa de Jesus é essencialmente
hakuna matata – ou, como se diz em bom português, no stress.Não aindeis ansiosos com o dia de amanhã”, tranqüiliza ele. Jesus chama de imbecil o esforçado empreendedor que previdentemente estocou riquezas em seus armazéns, e finalmente argumenta:

Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que as aves?

Na tradição judaica esse mesmo sentimento já era expresso, para falar a verdade, mil anos antes de Jesus.
“Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados [Deus] o dá enquanto dormem”, zomba o segundo verso do Salmo 127.

Por mais de mil anos esses conceitos gêmeos, do desapego como virtude e da ambição como vício, permearam a ética cristã e a cultura popular. Ambas faziam parte do caráter inerentemente subversivo da mensagem cristã, que neste campo (como em todos) invertia os papéis e as expectativas tradicionais, louvando o frugal e humilde e colocando o rico e orgulhoso em inesperada desvantagem.

Do impacto universal dessas idéias há abundante testemunho iconográfico – como testemunham as alegorias medievais que ilustram este documento.


A triste sina do rico (outra gravura da série)
O carro da rainha Pecúnia (Moeda) é puxada pelo Perigo e pelo Temor, enquanto o Latrocínio se oculta sob seu manto. Ela é seguida pela Insensatez, pela Inveja, pelo Furto e pela População Inteira. Gravura de Phillip Galle (1537–1612), a partir de Maarten van Heemskerck (1498–1574).


O triunfo das riquezas
A Riqueza, mãe do Poder, anda na carruagem chamada Fama, que é puxada pela Fraude e pela Rapina. Seguem-na a Traição (Proditio, com duas caras e fogo numa mão e água na outra), a Usura, a Luxúria (Libido), a Falsa Alegria (Vana Letitia, divertindo-se com bolhas de sabão) e outros Prazeres Vãos. Gravura de Dirck Volkertsz Coornhert (1519–90) ou Cornelis Cort (1533–78) a partir de Maarten van Heemskerck (1498–1574).

Uma caçada alegórica
A Moeda é perseguida por um trabalhador (carregando uma pá) cujos sabujos são a Frugalidade, o Empreendedorismo e o Trabalho; pela Prodigalidade, cujos sabujos são Rapina e Sorte; e pela Avareza, cujos sabujos são Usura e Fraude. A Justiça é pisoteada. Gravura de Pieter van der Heyden (fl. 1557), a partir de Pieter Breughel the Elder (1525–69).

O mundo conduzido pelo dinheiro
Moedas de ouro formam as rodas de uma carruagem sobre a qual está o Mundo, enquanto dois nobres cegados pelo dinheiro acompanham à pé. Um grupo de camponeses é impedido de avançar pela Pobreza, que está em pé sobre a Roda da Fortuna. Gravura de Mathias Greuter (1564–1638).

As duas mortes
À esquerda um homem pobre e piedoso recebe as riquezas do céu (incluindo, veja na versão ampliada, riquezas de conhecimento). À direita a morte prepara-se para abater um rico avarento que está fazendo sua contabilidade (o edifício em construção ao fundo, para quem vai ficar?). Gravura de Hieronymus Wierx (1553–1619) a partir de Marten de Vos (ca. 1531–1603).

Honra
Um homem piedoso e íntegro resiste à tentação das riquezas. Gravura de Raphael Sadeler I (1560–1628) a partir de Marten de Vos (ca. 1531–1603).

Riqueza e soberba
A Riqueza ostenta dinheiro, jóias e prata. Junto dela está sentada a Soberba, que é filha da Riqueza. Gravura de Karel van Mallery (ca. 1571–ca. 1635) a partir de Marten de Vos (ca. 1531–1603).

***

Freado pela ideologia cristã medieval, o capitalismo não encontrava lugar para vir à luz. Permanecia sem forma e sem corpo no limbo, como mera possibilidade – aguardando paciente o momento de nascer.

Sua improvável parteira seria a teologia protestante.


Fonte: A Bacia das Almas