O governo invisível do passado

quinta-feira, 27 de abril de 2017 Postado por Lindiberg de Oliveira

É uma tolice tornar a experiência a instância suprema de julgamento em todas as circunstâncias. Embora essa afirmação pareça sutil, não é preciso se colocar no lugar de algum drama enquanto experiência direta para compreender os elementos categoriais que regem aquele estado de coisas.
O número de coisas que podemos averiguar pelos sentidos é sempre mínimo. Para realizarmos qualquer experiência que seja, é preciso confiar em tantas coisas que nos foram legadas pelas gerações anteriores que a experiência iria apenas complementar o julgamento do que é real. Ou seja, a experiência não pode ser o centro do conhecimento. O que se pode conhecer por experiência é apenas uma fração daquilo que podemos imaginar e conceber, e que só conhecemos por experiências e narrativas de terceiros.
Para irmos até as últimas consequências sobre este critério, é preciso deixar claro que não há nenhuma experiência que confirme que a experiência é o juiz supremo do conhecimento. A experiência de cada ser humano, limitada e claudicante, prova justamente o contrário, pois sem a herança cultural não podemos sequer começar a pensar. Ou confiamos nesse legado cultural ou sequer sairemos do lugar. De outro modo, seria impossível reproduzir esse oceano de experiência que foi cultivado antes da nossa existência. Existem várias fontes de conhecimento e a experiência direta é apenas uma delas.
Michael Crichton, em seu livro Timeline, nos faz mergulhar nesta compreensão quando diz:
A verdade é que o mundo moderno foi inventado no passado. Quem não sabe disso não sabe os fatos básicos a respeito de si mesmo. Todos nós somos governados pelo passado, embora ninguém compreenda isso. Ninguém reconhece o poder do passado. Mas se você pensar no assunto, o passado sempre foi mais importante do que o presente. O nosso mundo cotidiano está construído sobre milhões e milhões de eventos e decisões que ocorreram no passado. Um adolescente toma café da manhã e vai até uma loja comprar um CD da sua banda favorita. O adolescente pensa que vive no momento moderno. Mas quem definiu o que é uma “banda?” Quem definiu “loja”? Quem definiu “adolescente?” “Café da manhã?” Isso pra não falar no resto, todo o seu ambiente social — família, escola, roupas, trans­porte e governo. Nada disso foi decidido no presente. A maior parte dessas coisas foi definida há mais de cem anos. O ado­les­cente está em pé na montanha que é o passado. E não percebe. Ele é governado pelo que não vê, por aquilo em que não pensa, por aquilo que não conhece. Esse mesmo adolescente é radicalmente contra qualquer espécie de controle — restrições dos pais, propaganda, leis do governo. Mas o governo invisível do passado, que decide praticamente tudo na sua vida, passa despercebido.
O contato com o que Crichton chama de governo invisível do passado é basicamente uma das fontes mais poderosa de conhecimento que existe; é desse toque que colhemos a intuição fundamental de que, aquém da política e do progresso tecnocientífico, existe uma ordem moral permanente e eterna que guia as mudanças sociais. Assim, além de termos uma melhor compreensão sobre nós mesmos, é possível ter acesso a essa ordem quando conseguimos escalar vigorosamente a construção intelectual dos grandes homens, dos grandes gênios — santos, artistas, poetas, estadistas, filósofos — da humanidade. Desprezar isso é submergir na alienação sobre as próprias percepções do espírito; essa rejeição nos faz perder a capacidade de aprender a desenvolver um diálogo com os sábios de todas as épocas e de todos os lugares. Ora, existem mais pessoas mortas do que vivas, portanto, aprender com a humanidade é ouvir os mortos. É tocar no mesmo tecido de compreensão que eles alcançaram; é ter acesso a mesma variedade das situações humanas e espirituais registradas.
Ortega y Gasset já dizia que as pessoas mais hostis a cultura são os “señoritos satisfechos” que se beneficiam do legado da civilização sem ter a menor idéia de como foi conquistado e, por ignorância de saber como tudo isso apareceu, acabam por reduzir tudo a escombros.
Entender a importância que o passado exerce sobre nós é a plena execução do mandamento bíblico: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Êxodos 20:12). Honrar teu pai e a tua mãe é nutrir um respeito pela tradição, pelos nossos antepassados, por aqueles que deram a vida por este mundo presente. É a inclinação afetuosa àquela ordem que Edmund Burke chamava de “o contrato da sociedade eterna” e G. K. Chesterton, de “democracia dos mortos”.
Como pensava Burke, o verdadeiro pacto social é estabelecido entre os mortos, os vivos e os que ainda irão nascer. O desprezo pela tradição é o desrespeito pelos mortos — e quando os mortos não valem nada, ninguém vale nada. É o respeito pelo passado que nos faz caminhar em bom-tom para o futuro. O século 21 se ergue realçado por pessoas que acreditam que o mundo em que elas vivem nasceu prontinho; caminham sobre a história desconhecendo e desrespeitando o passado, incapazes de perceber que a ordem social se estabelece no tipo de mundo que você recebe dos seus pais e avós e o tipo de mundo que você entrega para seus filhos e netos. Esse é o tipo de reconhecimento da consciência interior necessário para vislumbrar uma unidade na própria realidade humana, que iluminou, da mesma forma, as almas mais corajosas que passaram pela história da humanidade.
O retorno da autoconsciência aos tempos pretéritos, como tentativa de se integrar — para frisar uma abordagem do poeta Matthew Arnold — no grupo das pessoas que criou o que há de melhor na alta cultura ao longo dos tempos, não é suficiente para resolver os problemas do mundo; no entanto, preenche as lacunas que nasce da violência do ser humano, da qual muitos ingenuinamente acreditam que a política irá resolver — a “religião política” que controla as nossas sensibilidades e que também é incapaz de resolver a destruição inerente em tudo o que realizamos.
Não existe uma solução humana para os dramas humanos. Por isso mesmo o que podemos fazer é entender que a história humana tem nuances, declínios e ascenções, momentos de grandezas e decadências, sempre oscilado de um olho de um furacão ao outro. Deste modo, estou convencido de que uma abordagem mais humanista, através de uma lente clássica e tradicional, voltada aos dilemas religiosos e propensa à elegância das grandes conclusões milenares possa ser uma âncora mais segura dentro da realidade. Essa âncora é o “mistério” que ao mesmo tempo sobrepõe à realidade, é o paradoxo, e que só pode ser tomada pela mesma experiência individual dito acima. Esse caminho se oferece como uma longa e sombria noite da alma onde todos temos de atravessar, mas poucos conseguem, pois é a vida de cada um que está em jogo à medida que o problema se apresenta. Esse é o trajeto para a conquista da liberdade interior, proclamada por Sócrates, encarnada em Jesus, anunciada por Paulo, confessada por Agostinho, e vaticinada por uma tradição que nos aponta o caminho, mas cabe a cada um de nós atravessá-lo com a dignidade de quem enfrenta os próprios demônios da alma.
Isso quebra a concepção moderna bem característica entre alguns filósofos, sociólogos e historiadores, do desenvolvimento progressivo da história, onde a época moderna é vista como um período culminante de libertação e desenvolvimento intelectual, de novos alinhamentos políticos e revolução cultural. Este é o tipo de concepção que se ergue como um eclipse que impede um olhar mais lúcido sobre a realidade humana e existencial, degradando-se na forma de ideologia. O tipo de noção que dificulta a ascese do individuo rumo ao topo da excelência espiritual, pois é contaminada pela arrogância de querer expandir os limites da realidade, caracterizando a revolta do homem contra o próprio homem.
A comunicação viva e intensa entre nós e o passado acontece tendo como palco nossa própria consciência; através da imaginação podemos nos lançar no esforço de recuperar a experiência originária daqueles que já morreram, mas que deixaram suas vozes ecoarem através de obras dignas de serem reconhecidas ainda hoje. É assim que ampliamos nosso campo de referência para aprender com os sábios de outras épocas, outros lugares, outras situações, para termos meios de comparação e um repertório de alternativas mais alargadas.
Essa é a mesma empreitada dos escolásticos, que acreditavam que o sábio não acredita somente naquilo que as pessoas do seu meio acreditam, mas busca aquilo que todos sempre e em toda parte acreditaram. Aquilo que é crença comum da humanidade. Eis o caminho que dá acesso à comunidade espiritual dos sábios.

©2017 Lindiberg de Oliveira