Leituras 2013

segunda-feira, 21 de julho de 2014 Postado por Lindiberg de Oliveira
Nunca se debateu tantas ideias no mundo como agora; e nunca os debates foram tão rasos e superficiais. As redes sociais só alavanca esse cenário fazendo tudo isso se transformar numa grande arena onde o que reina é a violência. Eis o tridente dos comentários nas redes sociais: ignorância, desonestidade intelectual e mau caratismo. Por isso, aqui é onde me sinto bem. Apesar de que blogs se tornou uma “onda” totalmente fora de moda, o Fé, Razão e Graça continua sendo o meu cantinho onde posso ser ignorado tranquilamente.
Contudo, se os debates estão sempre numa esfera superficial, com as leituras não é diferente. Mas isso não chega a ser algo espantoso. Lê-se mais, mas o que é lido é suprimido substancialmente de qualidade. Somos a geração da doxa, da informação; somos a ascendência das convicções de nossas próprias opiniões. A cada dia se recorre menos aos livros e estupidamente mais ao Google. O resultado disso é observarmos o conhecimento passar sobre os trilhos, semelhante a um trem, sem deixar pegadas sobre a terra.
A cada ano que passa leio mais, aprendo mais, estudo igualmente e, como resultado, me deparo em constantes mutações. Sou um produto daquilo que absorvo. É magnifico você se perceber jogando fora ideias obsoletas, antigas verdades, e que agora já não fazem mais sentido. O ano de 2013 foi marcado por esse tipo de movimento: sem um plano de leitura anual, mas, no entanto, com objetivos a ser alcançados. A cada dia a φιλοσοφία (filosofia, literalmente amor pela sabedoria) tem sido uma força dentro de mim com violações irreversíveis. A pulsão para entender como as engrenagens da realidade se encaixam é uma sede ilimitada que cessa apenas com a morte.
Pois bem, a lista de 2013 será bem menor que dos anos anteriores. Apesar de ter-me detido nos clássicos da filosofia grega, A Republica e O Banquete de Platão, Ética e Política, de Aristóteles; a despeito de investigar a estrutura do mito em obras de Oswald Lorentz, Joseph Campbell; e ainda de esquadrinhar textos de autores como Paulo Brabo, Ricardo Quadros Gouvêa, Eric Voegelin, Roger Scruton, W. L. Craig, etc., finalmente, o que fiz dessa vez foi escolher três obras e apresenta-las para vocês. O critério foi: as obras tem tudo a ver com os assuntos que tratamos rotineiramente aqui, e os autores são os que mais têm influencia sobre o meu pensamento. Kierkegaard, meu mentor, o filósofo do absurdo, do paradoxo e o mestre da existência; C. S. Lewis, o teólogo que escreve de maneira simples e dócil, truncando corações de pedras impenetráveis; Jacques Ellul, o sociólogo, filósofo e teólogo que discerniu a realidade como nenhum outro. Tenho uma dívida impagável com esses três mestres.
Soren Kierkegaard – Temor e Tremor
Temor e Tremor foi o primeiro livro que li de Kierkegaard e, o primeiro livro que li em 2013. Como eu já tinha lido copiosamente várias de suas biografias, se deparar com os escritos de Kierkegaard foi algo magnifico. Tudo que eu li era algo que eu já tinha submergido intuitivamente há tempos. Com uma edição um pouco limitada em sua tradução, a obra não deixa de exalar a firmeza com a qual esse mestre dinamarquês escreve. Perto dele, quase todos os outros filósofos de seu tempo parecem artificiais. Contudo, Kierkegaard, de cara, não se diz um filósofo: “O presente autor de modo algum é um filósofo. E, sim, poetice et eleganter, um amador que não redige sistema e nem promessas de sistema”.
O que está em jogo nesta obra é a fé. Para Kierkegaard, a fé é um incrível paradoxo; paradoxo capaz de transformar um crime em um ato santo e agradável a Deus; paradoxo que não pode ser reduzido a qualquer raciocínio, pois a fé principia exatamente onde termina a razão. O autor chega a essa conclusão partindo da narrativa do livro de Gênesis, em que Deus ordena a Abraão que sacrifique o próprio filho, Isaac. Diante disso, Kierkegaard pergunta: existe um dever absoluto para com Deus? Questão que conduz ao cerne do drama humano diante do absurdo: desesperar ou lançar-se ao “salto da fé”. Nunca, em nenhum outro lugar, vi um elogio tão magnífico a Abraão, o qual ele chama de “cavaleiro da fé”.
Kierkegaard diz de fato o que é a fé, e ele a identifica como a maior paixão do homem. Está acessível a todos, mas ninguém pode ir além dela. É o último nível de consciência (o estágio religioso) que exprime-se através da “resignação”: um fenômeno notadamente ético-religioso, um morrer para o mundo, uma completa renuncia à realidade. É uma abdicação do finito em prol do infinito. Um impulso de ordem estética, que se detém no prazer imediato, jamais produzirá tamanho feito. A moral também não produz a fé, pois esta é a superação de todo critério moral estabelecido pelo geral – Abraão renuncia ao geral para atingir algo mais alto: uma relação absoluta com o Absoluto. Deter-se na moral é obscurecer o sentido de Indivíduo situado por Kierkegaard.
Hoje, mais do que nunca, Kierkegaard se torna um autor que merece atenção, justamente por que, através da ponta de sua pena, são desferidos golpes terríveis contra as besteiras produzidas pelas promessas reducionistas da neurociência. Ele é um mestre da consciência, o poeta que revela o desespero inerente à existência autêntica, ele é o responsável por fazer retornar precisamente esse debate que a ciência tenta suprimir.
C. S. Lewis – Milagres
É irresistível não gostar de Lewis até mesmo para um ateu. Como muitos, o primeiro livro que li desse autor foi o clássico Cristianismo puro e simples. Lewis foi um ateu por quase metade de sua vida, sendo desde cedo um intelectual que aprendeu a pensar de forma crítica, dentro das regras estritas da lógica, o que faz dele um apologeta impecável.
Com Milagres não é diferente, em todo o livro Lewis atua com um olhar sempre acurado para cada detalhe. De início ele admite que a existência de milagres não podem ser confirmados apenas de forma empírica. Isso seria apelar banalmente para tratar do assunto. Nossos sentidos são falhos e, primeiramente, Lewis estabelece uma base filosófica para prosseguir, lançando mão até mesmo das pesquisas históricas: “as regras comuns não podem ser empregadas até que tenhamos decidido se os milagres são possíveis e, caso positivo, qual a sua probabilidade”. Com essa afirmação, Lewis já deixa claro que seu texto se trata de uma obra apologética.
Para Lewis, o milagre é uma intervenção “na natureza mediante poder sobrenatural”. Deixando isso claro, os primeiros capítulos de Milagres dá início a uma desconstrução do naturalismo (materialismo) mostrando suas principais dificuldades diante da realidade. Logo, Lewis se empenha de maneira brilhante para provar que existe o sobrenatural, Deus, uma realidade tão perfeita que foge aos nossos sentidos sensoriais.
Dessa forma, assim como em suas outras obras, Lewis nos arrebata com sua linguagem alegórica (deixando até um capítulo sobre o assunto), dispensando toda uma homilia científica fadigosa, pois, todo discurso que está acima dos sentidos é – e deve ser – metafórico no mais alto grau.
A obra não é cansativa, e pode ser considerada como uma introdução para pesquisas mais densas, como os livros de W. L. Craig, que tem praticamente o mesmo objetivo.
Jacques Ellul – Apocalipse, arquitetura em movimento
Estudar escatologia é uma paixão que deixei em minha adolescência. Depois de tantas referências desastrosas que tive sobre o assunto, resolvi esperar até poder encontrar um estudo realmente sério, de pessoas realmente comprometidas com o Evangelho. Esse é o caso de Jacques Ellul. A última edição dessa obra é de 1979, sendo possível encontra-la disponível somente em sebos, o que faz desse livro uma obra rara no Brasil – assim como outros títulos desse autor.
Apocalipse, arquitetura em movimento não uma obra de leitura fácil para uso dos fiéis, mas também não chega a ser um comentário exaustivo – mas com certeza esse é aquele tipo de livro que exige uma leitura metricamente compassada, como se estivesse lendo uma partitura: leio uma página e volto duas.
Ler Jacques Ellul é uma empreitada que sempre supera minhas expectativas, e com essa obra não foi diferente. Dotado de uma originalidade sem igual, Ellul reconhece que escrever sobre o Apocalipse é uma tarefa excessivamente ambiciosa e perigosa. Ambiciosa, levando em conta os milhares de comentários que já existem; ora, o que ele poderia acrescentar? E perigosa, sobretudo por causa da advertência final “sobre aquele que acrescentar ou suprimir alguma coisa a este livro da Revelação”. Se sabe muito bem que elaborar um estudo sobre o Apocalipse é entrar em um terreno perigoso, pois nunca houve um livro que tenha provocado tantos delírios, tolices e excessos sem qualquer ligação com a pessoa de Jesus. No entanto, Ellul se mantém sóbrio até o fim do livro, não se perdendo no caminho e tomando cuidado com todos os desvios possíveis.
Nesta obra, há uma leitura vigorosa e completa do Apocalipse, o qual é considerado um conjunto. Mas não um conjunto imóvel e definitivo; antes, é um movimento que vai de um começo a um fim. E é justamente isso que o título do livro tenta evocar, uma arquitetura em movimento. Dessa forma, o Apocalipse não é reduzido a uma narrativa destinado a reanimar a Esperança de uma comunidade cristã em perigo, ou um livro político proposto a questionar o poder de César. Tentar procurar um sentido geral dentro desse movimento é olhar de forma simplista demais para o Apocalipse. A erudição dos comentários é ao mesmo tempo amplamente integrada e judiciosamente criticada.
Enfim, esta obra é a tentativa de Ellul mostrar sua posição dialética em ralação à sociedade, às obras humanas e especialmente a técnica – que foi um assunto inaugurado por ele no século XX e, mais do que nunca, se torna essencialmente relevante hoje. Muitos dos problemas dos nossos dias se encontram colocados neste livro de forma oportuna e brilhantemente esclarecidos. Para Ellul, o Apocalipse é o exemplo privilegiado (e não a doutrina) do sentido da obra do homem, e igualmente da sua falta de sentido.
Concluíndo
Esse texto é mais uma indicação de leitura do que do que, de fato, uma lista de leitura de 2013. Apenas uma tentativa de apresentar quem eu admiro e apontar o caminho que pretendo trilhar. De todos os autores e filósofos, certamente esses três são meus preferidos, e não há um ano que eu não leia pelo menos uma obra desses autores. Mas também não posso me esquecer de autores como Platão, Aristóteles, Orígenes, Agostinho, Erasmo, Spinoza, Pascal, Nietzsche, Proudhon, Voegelin, Lavele, Ortega y Gasset, Mário Ferreira dos Santos, Olavo de Carvalho, etc. Enfim, de certa forma, o pensamento de todos esses tem um peso sobre a forma de como eu enxergo o mundo.
©2014 Lindiberg de Oliveira
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