A crença humana

quinta-feira, 28 de março de 2013 Postado por Lindiberg de Oliveira


Há outro aspecto bem diferente em minha recusa em crer. Eu vejo objetos existentes, sejam políticos ou econômicos; vejo tendências e elementos irredutíveis neles. Vejo-os como posso ver uma rocha. Mesmo assim recuso dar-lhes meu apoio, recuso acreditar em sua excelência ou avaliação, recuso crer na existência delas. Vejo o estado moderno, ou burocracia, ou dinheiro, ou técnica[1] – tais coisas são o que são. Nunca acreditarei nessas coisas. Tais coisas são autossuficientes, embora elas constantemente solicitem minha aderência e até mesmo minha reverência. Elas estão por aí, mas não creio em seus valores, virtudes, verdades, utilidades ou vantagens. Que celebrem sua existência. Eu não, embora saiba perfeitamente que não posso me livrar delas. O que vemos aqui é que a crença humana acrescenta a tais objetos um valor incomparável. O que imediatamente as torna muito mais do que coisas; elas adquirem uma perspectiva humana. Marx frequentemente comparou o capitalismo ao legendário vampiro. Poderíamos alargar essa comparação a todos os objetos sociais, políticos e econômicos. São apenas coisas, mas repentinamente assumem aspectos ativos, proeminentes, e incontestáveis. Exercem efeitos quando as pessoas começam a acreditar nelas. Não se alimentam de sangue como o vampiro, mas de crenças que tendem à confiança e mesmo ao afeto. Quanto a mim, recuso acreditar nelas.

Jacques Ellul, em seu livro Em que eu creio. Sempre me despertando do meu sono dogmático.


[1] Para Ellul, técnica [ou tecnologia] significa "a totalidade dos métodos racionalmente aceitos como dotados de absoluta eficiência (para uma determinada fase de desenvolvimento) em qualquer campo da atividade humana". (The Technological Society, trans. John Wilkinson [New York: Knopf, 1964, p. xxv]. See also Jacques Ellul, Perspectives on Our Age, trans. Joachim Neugroschel, ed. William H. Vanderburg (New York: Seabury, 1981), pp. 32-33.-TRANS.