Leituras 2012

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013 Postado por Lindiberg de Oliveira
 “Os livros falam sempre de outros livros e toda história é uma história já contada”.
Umberto Eco

Como já virou tradição, sempre coloco aqui a lista de livros que li durante o ano. Em 2012 meu ritmo de leitura foi extremamente produtivo. Apesar de deter-me a maior parte do tempo com livros acadêmicos relacionados à minha graduação em filosofia – algo que é apaixonadamente prazeroso pra mim –, não deixei de me ater àqueles livros que leio por puro lazer, e são esses que irão entrar na lista desse ano. Optei por colocar nessa lista apenas esses livros porque quero que esse blog ainda siga seu propósito pelo qual foi criado: de ser um veículo apologético da Fé, que atua nas várias esferas das ciências. Não quero deixar esse blog ir numa direção muito rígida e filosofal, algo que está – mesmo contra a minha vontade – acontecendo.

Enfim, a lista não é muito grande, mas contém algumas obras curiosas. Entre elas estão:

Muito mais que palavras – (Vários autores)
Muito mais que palavras foi organizada por James Calvin Schaap e compilada por Philip Yancey, e se resume em uma coletânea de ensaios aonde cada autor ou autora identifica um momento ou uma série de momentos em sua biografia quando algum mestre literário deu-lhe a impressão nítida e certa de estar ali, perto para ajudar – com conselhos, orientações e exemplos edificantes. Os maravilhosos mestres aqui homenageados são nada mais que J.R.R. Tolkien, William Shakespeare, Soren Kierkegaard, Henri Nouwen, George MacDonald, entre outros, que serviram de inspiração e instrumentos para escritores aprendizes no mundo das letras. E eles não são chamados de mestres por acaso: todos sem exceção foram gigantes da literatura que conseguiram transformar direto ou indiretamente leitores em escritores. Foram pessoas que se sentiram chamadas a uma vocação, e nessa obra, oferecem tributo aos seus mentores.

Manifesto do partido comunista – Marx e Engels
Karl Marx e Friedrich Engels revolucionaram a história da economia mundial com suas ideias, que levaram a metade da população do mundo a empreender a revolução socialista, na intenção de coletivizar as riquezas e distribuir a justiça social. O Manifesto – como a obra geralmente é chamada – é o conjunto de ideias do partido comunista, um dos textos mais lidos por todos os partidos de esquerda que lutaram pelo fim da opressão burguesa.

A obra tem como objetivo expor o programa político dos comunistas após a tomada do poder. Após a tomada do poder, o comunismo tem por ambição extinguir o Estado através de um novo Estado: o Estado de transição. Esse Estado de transição lançará as bases da sociedade sem estado.

O Manifesto em si é um opúsculo. O livro em sua abordagem integral é acrescentado de biografias, entrevistas e sete prefácios de determinadas edições. Eu indico para todos aqueles que se interessam pelo assunto em particular.

Guia politicamente incorreto da filosofia– Luiz Felipe Pondé
Pondé é filósofo e educador brasileiro. Sua crítica nessa obra é o que ele chama de “praga do politicamente correto”, que na visão do autor é uma mentira moral.

Este Guia não consiste em um livro de história da filosofia; na verdade é um conjunto de ensaios que tratam de assuntos do cotidiano: felicidade, religião, sexualidade, tragédia, arte, amor, entre outros. Uma obra instigante e de uma leitura fácil e rápido (li em três dias num congresso de filosofia em Belém – PA). O objetivo de Pondé é ser desagradável para um tipo específico de pessoa (eu ou alguém que eu conheça). Creio que ele atingiu seu objetivo, porque esse livro com certeza será um incômodo para gente que não gosta de pensar, ou como ele mesmo diz: “gente covarde e idiota”. Pondé é frio e ao mesmo tempo divertido e irônico. Desmascarando as verdades dissimuladas pelos costumes politicamente correto, Pondé não aborda nada novo, mas nos confronta com a pura realidade; de que não somos bonzinhos, gerando uma desconfortável sensação de que o mundo talvez não tenha salvação mesmo.

Para viver com poesia – Mario Quintana
Essa é uma obra antológica organizada por Márcio Vassallo (jornalista e escritor carioca). Para viver com poesia consiste na seleção de textos de 14 livros de Mario Quintana, que foi um poeta admirável, sedutor, autêntico, encantador e inesquecível. Os escritos de Quintana são simplesmente mágico, provocante, singelo, desperta para a fantasia, ilumina os sentimentos.

A cada página fui surpreendido. Quintana nos convida a olhar para tudo com o coração cheio de despedida, com os olhos elegantemente de um menino. Nos faz perceber que a beleza está disponível, as emoções, os silêncios, os paradoxos. Nos faz perceber que ninguém precisa ser poeta para viver com poesia.

O que eles estão falando da Igreja – (Vários autores)
Essa é uma obra coletiva, organizada por Ricardo Quadros Gouvêa, e consiste em um conjunto de ensaios sobre os muitos caminhos possíveis da eclesiologia atual. É difícil encontrar quem seja neutro sobre o assunto, e acho que esse não foi o objetivo do livro. Gouvêa, Ricardo Gondim, Paulo Brabo, e outros, tentam ponderar sobre Igreja e igrejas; tentam identificar seus códigos e fenômenos, sua missão, suas transições e as várias identidades que sustentam as instituições. Os autores nos brindam com uma produção literária teologicamente rica, abalizada, crítica e pertinente.

Os quatro amores – C. S. Lewis
Mais um livro brilhante em que Lewis nos faz entender assuntos complicados de maneiras especialmente simples. Nessa obra, escrita três anos antes de sua morte, Lewis faz distinção e examina o que ele chama de amores naturais e o amor divino. Os amores naturais – afeição, amizade, Eros – é distinguido por Lewis como Amor-Necessidade, ou seja, aquele tipo de amor que leva a criança sozinha ou amedrontada correr para os braços da mãe. Logo, o amor divino – a Caridade –, é colocado como Amor-Doação. O melhor exemplo, segundo Lewis, seria o amor que leva um homem a trabalhar, planejar e economizar pelo bem estar futuro de sua família, do qual ele não vai saber ou desfrutar em vida. Lewis nos alertar também dos enganos e distorções que certos amores podem se tornar: “o amor passa a ser um demônio no instante que passa a ser um deus”.

A obra é fantástica, aliás, é sempre redundante falar assim em se tratando de Lewis.

Deus em questão: C. S. Lewis e Freud – Armand M. Nicholi Jr.
Armand Nicholi é professor e psiquiatra em Harvard. Depois de vinte e cinco anos de ensino e pesquisa sobre Freud e Lewis, o autor coloca o resultado à disposição de todos em Deus em questão. A obra traça um paralelo entre a vida e o pensamento de Freud e Lewis: O que levou essas duas mentes brilhantes a serem ateus? Por que somente uma delas se torou cristão? O que os dois pensam sobre a consciência, a moralidade, o sexo, o amor, a felicidade e a morte? Qual dos dois nos dará uma resposta mais crivada na realidade?

Essas são as perguntas. As respostas são equilibradas, desafiadoras e comoventes, prendendo firmemente nossa atenção. Deus em questão é assim. É tão empolgante quanto um romance, com uma diferença: nós escrevemos o final.

Igreja entre aspas, somos pedras ou gente – Tuco Egg
Artur (Tuco) Egg, é artista plástico e publicitário e esse é seu primeiro livro. Há dez anos o autor rompeu com instituição eclesiástica, mas mesmo assim (e assim como eu), continua falando sobre Deus. Não se trata de querer ser melhor do que alguém, para Tuco, é precisamente o contrário: trata-se de abrir mão, do modo mais radical que se possa conceber, do projeto de ser melhor do que qualquer um. Essa obra nos faz um convite, e não é para que você saia de sua igreja, mas para que venhamos entender que o testemunho mais fundamental é o da humanidade compartilhada, e que a igreja, como no Novo Testamento, deve incluir muito mais do que estamos acostumados a pensar.

Igreja entre aspas com certeza será um tapa na cara dos evangélicos. Tuco expõe com paciência a estrutura da “igreja”, sua opressão, a performance de seus líderes, os vícios de comunicações, seus muros, e isso sem se dar o “luxo” de acusar o clientelismo das loucas “igrejas da prosperidade”. Precisamos, segundo o autor, de um novo paradigma teológico e missiológico que nos liberte da espiritualidade do consumo, fragmentada, imediatista e utilitarista. Precisamos, simplesmente porque devemos dar continuidade ao Reino que Jesus inaugurou.

Políticas de Deus e políticas dos homens – Jacques Ellul
Ellul me fisgou desde a primeira vez que o li. Mais um pensador que caminhou do ateísmo para a Graça do Evangelho, e quando o fez tornou-se uns dos discípulos de Jesus mais desafiadores do século XX, sendo realmente sal da terra e luz no mundo. Ellul é provocativo e dono de uma cultura ampla e privilegiada, escrevendo sobre tudo o que era importante em sua geração.

Em Políticas de Deus e políticas dos homens, Ellul toma o profeta Eliseu em seu tempo histórico, e mostra como o profeta pode servir de modelo profético para a relação tão conturbada entre fé e política. Essa tênue linha é traçada precisamente entre esses dois mundos, o qual o cristianismo parece nunca ter levado à sério como deveria. Ellul nos ajuda a discernir o verdadeiro significado politico da presença da Igreja no mundo; e toma intrepidamente como falácia diabólica os caminhos enganosos nos quais a “igreja” e seu clero acabam por se envolver sempre na política, e sempre sob o pretexto de que isso tem alguma coisa a ver com o reino de Deus na terra. Ellul acaba com essa farsa! Desmascara tanto a “propaganda” quanto a “idolatria tecnológica” embutida nesse pacote.

Ellul é um exemplo de um verdadeiro pensador, e prova isso em todos os seus escritos.

Macanudo Nº5 – Ricardo Niniers
Pablo Picasso disse certa vez que “tudo que você puder imaginar é real”. Liniers levou isso da forma mais literal possível. Macanudo é um livro de tirinhas que já é um clássico dos quadrinhos sérios e de humor, reflexivas e ternas. O mundo criado por Liniers é fascinante, e seus personagens são graciosos, cômicos, misteriosos e poéticos, que transbordam fantasia e realidade. Descobri seus desenhos tem pouco tempo, mas logo me identifique apaixonadamente. Recomendo para todas as idades.

Divina comédia – Dante Alighieri
Dante é mais um gigante da literatura mundial, e não é para menos: a Divina comédia influenciou tanto a literatura como a arte, a filosofia, teologia, política e certo tipo de folclore mundial. A obra é dividida em três partes: O Purgatório, o Inferno e o Paraíso. Até hoje o termo "Comédia" é motivo de dúvidas. Comédia se refere ao sofrimento em antítese, o oposto de tragédia, ou seja, alegria e paz do Paraíso. A obra é mais entendida quando se concebe o contexto medieval em que foi escrito, para qual a cosmovisão do universo era divido em círculos concêntricos.

Divina comédia é interessante por estabelecer uma hierarquia de pecados para condenação final, fica definido que as almas que estão no Inferno não têm mais salvação. Já as que se encontram no Purgatório podem ascender, aceita a expiação transitória que as libertará no final com a premiação suprema, Deus no paraíso. As interpretações que surgiram durante o tempo foram muitas, por isso as explicações são as mais variadas dentro da teologia, da arte, da política e outros. Retratando a natureza filosófica, científica, poética, política e histórica do mundo antigo - romano, grego, ocidental e religioso.

A escada do fundo da filosofia – Wilhelm Weischedel
Weischedel foi teólogo e filósofo alemão, tendo como mestre o próprio Heidegger. Nessa obra o autor nos apresenta uma biografia diferenciada de 34 grandes filósofos. Diferenciada porque para falar desses filósofos, o autor resolve entrar em suas casas pela “escada dos fundos”; revelando suas manias e particularidades que pouco são conhecidos. Ou seja, Sócrates jamais teria sido um grande pensador se não fosse por causa de sua mulher Xantipa. Por ter uma mulher tão insuportável, Sócrates era obrigado a sair de casa diariamente. E aparentemente seu destino era a feira e praças esportivas o qual ficava a vontade para bater papo com as pessoas. E Aristóteles, que quando volta sua investigação para o homem, do ponto de vista anatômico, descobre coisas estranhas, como por exemplo, o fato de o cérebro ter pouca importância. A mente, para Aristóteles teria sua sede no coração. O cérebro, ao contrário, seria simplesmente uma espécie de refrigerador para o sangue. Leibniz, uns dos pensadores mais brilhantes e reconhecido de seu tempo, morre com 70 anos e foi enterrado na quase total indiferença. Heidegger demonstra maestria não só na sua compreensão do ser, mas também em manobras de esqui.

Enfim, Weischedel nos apresenta mais que detalhes biográficos, ele nos fornece preciosas indicações de como ligar as ideias mais abstratas às vicissitudes da vida concreta. E ele faz isso numa apresentação não convencional, sem preconceito, mas ao mesmo tempo divertida e excitante.

O universo numa casca de nós – Stephen Hawking
O autor e a obra são bem conhecidos no campo cientifico. Hawking é considerado um gênio da física teórica desde Einstein, chegando a ter ganhado o Prêmio Nobel.

O universo numa casca de nós é uma obra magnifica e luxuosamente ilustrada onde o autor apresenta uma conversa franca sobre a natureza da ciência e do universo. Esse foi um daqueles livros que sempre me fez visitar outras obras e artigos para obter uma melhor compreensão e alcançar uma visão mais desejada – ou de vez em quando me fazia deixar o livro de lado para mergulhar nos meus próprios devaneios. Hawking conseguiu ser simples sem ser raso, obteve profundidade sem se vender ao dogmatismo, e acima de tudo, sempre esboçando seu ponto de vista com honestidade e equilíbrio, expondo contradições e impossibilidades de várias teorias.

Enfim, vou me ater aqui, recomendando essa lista a todos os que visitam esse espaço. Mas, deixo claro que nenhum livro por mais claro que seja, pode confinar a verdade, a divindade ou a vida – e é necessariamente evidente que essa incapacidade até a própria Bíblia como livro, o reconhece. Desse modo continuo acreditando que para chegarmos à verdadeira transcendência é preciso o toque de um relacionamento – uma pessoa. Mas isso é assunto para outra hora.

©2013 Lindiberg de Oliveira