A ilusão do julgo exterior

terça-feira, 6 de novembro de 2012 Postado por Lindiberg de Oliveira


O espírito humano é incrivelmente flexível, prestes a imitar e a se curvar sob as circunstâncias exteriores. Aquele que obedece, aquele cuja palavra de outrem determina os movimentos, as penas, os prazeres, sente-se inferior, não por acidente, mas por natureza. No outro extremo da escala, sente-se do mesmo modo superior e essas duas ilusões se reforçam uma à outra. É impossível ao espírito mais heroicamente firme guardar consciência de um valor interior, quando essa consciência não se apóia em nada de exterior. O próprio Cristo, quando se viu abandonado por todos, ultrajado, desprezado, sua vida valendo nada, perdeu por um momento o sentimento de sua missão; o que pode querer dizer de diferente o grito: Meu Deus, por que me abandonaste? Aos que obedecem parece que alguma inferioridade misteriosa os predestinou a obedecer por toda a eternidade; e cada marca de desprezo, mesmo ínfima, que eles sofrem da parte de seus superiores ou dos seus iguais, cada ordem que eles recebem, sobretudo cada submissão que eles próprios cumprem, confiram-lhes esse sentimento[1].

Tudo o que contribui para dar àqueles que estão embaixo na escala social o sentimento de que eles têm um valor é, em certa medida, subversivo. O mito da Rússia soviética é subversivo pelo quanto ele pode dar ao trabalhador de fábrica demitido por seu contramestre o sentimento de que, apesar de tudo, ele tem por trás de si o exército vermelho e Magnitogorsk[2] e, assim, permite-lhe conservar seu amor-próprio. O mito da revolução historicamente inelutável desempenha o mesmo papel, se bem que mais abstrato; já é alguma coisa quando se é miserável que se tenha a história a seu favor. O cristianismo, em seu início, era também perigoso para a ordem. Não inspirava nos pobres a cobiça dos bens e do poder, muito ao contrário; mas dava-lhes o sentimento de um valor interior que os situava sobre o mesmo plano ou mais alto que os ricos, e era o bastante para colocar a hierarquia social em perigo. Bem depressa ele se corrigiu, aprendeu a colocar entre os casamentos, os enterros dos ricos e dos pobres, a diferença que convém e a relegar os últimos lugares das igrejas aos desgraçados.


 Simone Weil (1909-1943), em Meditação sobre a obediência e a liberdade (1937).



[1] Essas amargas observações concernem ao que a própria Simone Weil não somente observou de muito perto, mas viveu como operária metalúrgica, entre 1934-1935, nas fábricas Alsthom e Renault.
[2] Cidade da Rússia, na região dos montes Urais, fundada em 1929, onde Stálin mandou construir uma grande fábrica siderúrgica que, por vários anos, foi a maior do mundo. Ali, durante a Segunda Guerra mundial, empreendeu-se uma intensa produção de tanques de guerra, obuses e balas.