Um pulo para a solidão

segunda-feira, 28 de maio de 2012 Postado por Lindiberg de Oliveira


A felicidade só é plena quando compartilhada, disse Christopher McCandless (1992). Estagnado pelo consumismo hipócrita americano, McCandless, com apenas vinte anos, resolve colocar seus princípios em prática deixando sua casa e família para ter como lar o mundo. Um jovem ousado que renunciou status, dinheiro e todo o conforto que sua família de classe media podia lhe oferecer, para viver o que ele acreditava ser um caminho em direção à liberdade. O que McCandless fez foi dar um pulo na solidão; saltou impetuosamente rumo à Vida, renunciando tudo para se integrar no Todo.

Quando Christopher McCandless sugeriu que a felicidade só é plena quando compartilhada, não quis dizer que devemos obrigatoriamente compartilha-la somente com outras pessoas. A própria vida de McCandless negou isso. Ele compartilhou sua felicidade não só com gente, mas, também com a natureza, pois, para ele, havia um prazer nas florestas desconhecidas; um entusiasmo na costa solitária. Uma sociedade onde ninguém penetra.

A pulsação para a solidão não é para qualquer um, tem que ser possuído pela fé. Sem fé, isso seria uma empreitada completamente frustrada. Como disse em outro lugar, a verdadeira solidão é um ato de isolamento, e essa ação causa tudo menos sentimento de abandono.

Ora, esse tipo de isolamento é um ato de fé simplesmente por que é um salto para ouvir Deus no silêncio, pois, esse tipo de salto deixa-me sozinho com um Deus que pode não estar lá. E são poucos os homens que tiveram essa intrepidez: Moisés quando passa quarenta dias em jejum no monte; Elias, em sua solitária jornada, tendo sido no final assombrado pela estrondosa presença de Deus revolvida numa singela e suave brisa. João Batista, que teve quase a vida toda mergulhada solitariamente no anonimato, naufragado no deserto. João foi uma voz, e não um mero eco. Uma voz entronizada na Voz, no Verbo, na Palavra; Jesus, que antes de entrar em ação, foi impetuosamente levado pelo Espírito para o deserto, para “sossegados” quarenta dias de oração e jejum; Paulo, que antes de ingressar no ministério dado por Cristo, foi para a Arábia, e tem três anos de sua vida silenciosamente não revelada.

Dessa lista não escapa também homens como Agostinho, Francisco de Assis, Lutero, Espinoza, Thoreau, Tolstoi, Nietzsche, Ghandi e outros tantos espíritos iluminados que vagam por aí no anonimato. São poucos. Mas estão espalhados por aí. Bem-aventurados os que tropeçam neles. Até porque eles jamais se interpõem em nosso caminho. Não se julgam dignos.

Mas, apesar disso, são grandes homens! As grandes águias voam sozinhas; os leões maiores caçam sozinhos; as almas grandiosas vivem sozinhas, a sós com Deus. É muito difícil suportar tal solidão; é impossível apreciá-la, a não ser acompanhado de Deus. Entretanto, sábio é aquele que discerne o momento de se ausentar de tudo para integrar-se no Todo, pois, mergulhar na solidão, nunca será um passo para o silêncio absoluto.

©2012 Lindiberg de Oliveira


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