Leituras de 2011

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012 Postado por Lindiberg de Oliveira
Nós lemos para saber que não estamos só.[1]

A frase acima reflete bem o que a leitura nos causa, e certamente você não terá essa sensação ao ler esse blog. Até onde me lembro, meu contato com a leitura começou não muito cedo, não tive uma biblioteca abastarda em casa. Comecei a gostar de ler por que adorava as séries e animes que eram transmitidas diariamente na Rede Manchete. A partir de então, dos 9 aos 17 anos de idade, lia tudo relacionados à games, animes, cinema, HQs, filmes, séries, bandas de rock, skate, etc., e fora pilhas de mangás que até hoje tenho guardado dentro de uma caixa.
Foi em 2004 o ano em que comprei minha primeira Bíblia, e posso dizer com sinceridade que foi com esse livro suficientemente especial que comecei meu processo de leitura na minha caminhada espiritual. Desde então, a leitura passou a ser um exercício impetuosamente constante. Como disse em outro post, minha leitura em 2011 foi muito produtiva. Foi o ano em que eu mais pude refletir no que eu realmente acreditava, abandonando velhas crenças lançadas pela igreja (algo que geralmente se resume em proibições fantasiadas de doutrinas), repudiando assim vários de seus abusos. Abdiquei várias de minhas opiniões politicas, cedendo a velhas ideias, reformuladas por novos juízos. Fui ponderado, acertando violentamente naquilo que queria ruminar. Li de tudo; livros, revistas, panfletos, bula de remédios, blogs e sites, mas agora vou me conter em fazer apenas uma pequena descrição pessoal de alguns livros livros.
Ecologia, mundialização, espiritualidade – Leonardo Boff
Um livro pertinente para o dia em que se chama hoje. Desmascara com veemência esse sistema que se alimenta à custa da miséria e a desumanização das maiorias, ou seja, dos pobres. Nesse livro, Leonardo Boff destaca-se simplesmente por não apontar o dedo de forma passiva e inadequada. Ele levanta sugestões sucintas, implicações que jamais podem ser ignoradas. 
Para que serve Deus – Philip Yancey
Com seu modo metodicamente simples de escrever, Yancey nos fascina com suas experiências em sua caminhada cristã. Neste livro, ele coloca no papel dez de suas mais brilhantes palestras pelo mundo. Deposita em forma de texto seus encontros com alcoólatras, prostitutas e estudantes da Bíblia, com executivos da China, com fãs de C. S. Lewis em Cambridge, com carismáticos da África e muito mais. Para que serve Deus é um livro bem dinâmico e que trás bastantes curiosidades sobre assuntos polêmicos da vida cristã sem sair da sua redoma sobre o sofrimento e a dor.
Filosofia contemporânea – Huberto Rohden
Mais um livro genial desse autor o qual eu criei (crear) um grande amor. Além de educador, o brasileiro Huberto Rohden foi filosofo e teólogo que tentava nas horas vagas fazer um matrimônio entre teologia cristã dualista e panteísmo, tirando de cada uma suas irracionalidades, e o que sobrava ele chamava de monismo.
Filosofia contemporânea é o segundo volume dos cursos de Filosofia e Religiões Comparadas que o autor ministrou na “American University de Washington” de 1946 a 1951. Em seus textos, Rohden mescla a beleza da arte com a dureza da teologia e a transforma na verdadeira filosofia. Se divergindo de escritores tradicionais, o autor expõe as ideias de filósofos contemporâneos combinando com seus juízos pessoais – às vezes discordando – e, pode acreditar, isso faz de seu trabalho uma obra sapiencial.
Infelizmente o autor cai na falácia de acreditar que o ato filosófico genuíno não é procurar conhecer o mundo como ele é – mas, fazer o mundo como ele deve ser, segundo nossos próprios delírios. Diferente do volume d'O pensamentofilosófico da antiguidade, Rohden segue uma cronologia colocando em paralelo as concordâncias e divergências de filósofos como Orígenes e Agostinho, Hobbes e Locke, Hume e Kant, Rousseau e Hegel, etc., enaltecendo sempre o Evangelho encarnado e seus mais brilhantes imitadores – Francisco de Assis, Tolstoi, Gandhi, etc.
A revolução dos bichos – George Orwell
Uma sátira sobre qualquer tipo de poder constitucional centralizado, A revolução dos bichos transcende os marcos históricos da ditadura russa que inspirou o autor. Um livro para todo tipo de leitor, que sobrepuja as barreiras politicas e vai além. Uma ótima recomendação para quem quer entender de forma simples a implosão comunista.
O grande abismo – C. S. Lewis
Uma obra valiosa, uma epopeia genial. A melhor analogia sobre Céu e Inferno já escrita depois da Bíblia – sem querer inferir o brilhantismo de Dante ao escrever a Divina Comédia. A. W. Tozer disse que o melhor livro é aquele que você o joga de lado fazendo-o pensar por si só, e foi exatamente nesse espirito que fiquei ao ler O grande abismo. O autor deixa claro que é somente um livro de fantasia – tirada da imaginação – com uma lição moral, mas não há como negar que não houve uma iluminação divina na suposta imaginação de Lewis.
Click aqui para ler uma resenha muito elucidativa sobre o livro.
O Reino de Deus está em vós – Liev Tolstoi
Tolstoi é um grande peso pesado da literatura mundial, não ficando atrás de gênios como Dostoievsk, Dante, Borges e outros. Influenciado por Buda, Jesus e Schopenhauer – e influenciando figuras totêmicas como Gandhi, jovens fascinantes como Christopher McCandless e escritores do mundo todo –, o seus livros sempre se encontram no topo dos melhores, levando seus leitores ao devaneio. Um dos biógrafos de Tolstoi comentou que quando terminou de ler Guerra e Paz, e voltou a “vida normal”, teve a sensação de voltar a algo mais pálido e menos verdadeiro do que a própria arte de Tolstoi. “Ele nos ensina ir além de nós mesmo”, diz Yancey.
Ora, diante de todos os galanteios direcionados aos seus romances, ainda sim, Tolstoi se refere a O Reino de Deus está em vós como sua obra-prima, ou sua obra máxima, escrito no ápice de sua maturidade, o que ele define como “os melhores anos de sua vida”. Diante dessa obra, ele se refere aos outros títulos escritos anteriormente, como “conversa fiada”.
Nesse livro, Tolstoi é absoluto, implacável, violento e ao mesmo tempo doce, sensível e cheio de graça. Considerado como um tratado anarquista cristão, O Reino de Deus está em vós aponta para paisagens terrivelmente belas que nos chega a produzir vertigens. Tolstoi tem a sua pena como uma arma, e com ela, ele começa a desferir violentos golpes contra a Igreja Russa, o Estado e as formas de governo. Nada parece lhe escapar. Nada passa diante dele sem ser percebido. Os argumentos de seus opositores, por mais firmes que pareçam, para Tolstoi é como se fosse castelos de areia nas mãos de crianças.
O que o autor sustenta em todo o livro é a validade social do preceito de Cristo no Sermão da Montanha: "Não resistais ao mal" (Mt 5.39). E isso não se trata de permanecer passivo frente ao mal ou à violência, mas de responder a ela pela não-violência: a bondade, a mansidão e a caridade. Nesse ponto ele afirma que as igrejas, servindo e andando em consonância com o Estado, deturpou o sentido real do Evangelho levando muitos ao engano, com suas imposições de doutrinas e regras exteriores. Ora, a doutrina de Cristo distingue-se das antigas religiões exatamente nesse ponto, no fato de que não há regras, “não existe lei para atingir a perfeição almejada por Cristo nos Evangelhos, existem sim, passos”.
Em relação ao Estado, Tolstoi é inexorável, atacando todos os seus desenvolvimentos e manifestações – suas formas de governo, suas leis, a polícia e o exército como objeto de dominação, etc. Para Tolstoi, o governo nada mais é que “uma reunião de homens que exploram outros, e, em sua essência, uma força que viola a justiça”. Nesse contexto, Tolstoi se aproxima essencialmente de um anarquista deixando a entender que o cristão não pode sequer submeter-se a quem que seja, ou ao que quer que seja, nem reconhecer qualquer submissão. Assim, ele propõe a extirpação de qualquer sistema de dominação instituída na terra, ou seja, Tolstoi, não critica o governo esperando do mesmo certo tipo de mudança, mas sim a sua aniquilação total, deixando claro que como verdadeiros cristãos, nossa única submissão deve ser à Lei do Amor.
Anarquia e cristianismo – Jacques Ellul
Conheci os textos de Ellul a partir dos fortes elogios concebidos por Caio Fabio. Esse filósofo, teólogo e sociólogo protestante, ainda é pouco conhecido no Brasil pelos cristãos, mas a cada dia que passa seus textos vem ganhando espaço. A vida desse gigante francês sempre foi marcada pelo seu engajamento politico e social. Ellul ficou conhecido na América através de criticas elucidativa à cultura técnica e sua eficiência produtiva que, em última análise, determina as decisões éticas, provocando efeitos corrosivos sobre a vida moderna.
Em Anarquia e cristianismo, Ellul afirma não crer que a sociedade anarquista possa se tornar realidade. Diferente de Tolstoi, que deixa entender a possibilidade de criação de um novo mundo, Ellul segue seu raciocínio mais lúcido e em vias mais contemporâneas.
Ellul garante que a Bíblia é uma fonte de anarquia, sempre lembrando que a Bíblia contém textos que parecem legitimar a “autoridade”. Sempre advertindo e corrigindo os comentários banais da palavra anarquia – que não é sinônimo de desordem –, pois estamos persuadidos de que a ordem só pode ser estabelecida por algum tipo de poder centralizado. Anarchos, a palavra grega que significa apenas “sem governante”, pode expressar tanto a condição negativa de ausência de governo, quanto à condição positiva de não haver governo por ele ser desnecessário à preservação da ordem.
Enfim, Ellul não desencadeia nada novo, nada oculto, mas sobretudo desconstrói conceitos, questiona estruturas, desafia convenções, vira do avesso todos os lugares-comuns sobre o tema, e recusa em última instância todo tipo de hierarquia, incluindo a interna. Livros como esse funcionam como raios-x, para enxergarmos o quanto nossas comunidades estão precárias e longe de serem identificadas como reino de Deus numa ótica bíblica.
Em 6 passos o que faria Jesus – Paulo Brabo
Quem aparece por aqui periodicamente já deve ter percebido que ler Paulo Brabo pra mim se tornou um hábito e, apesar do nome parecer um pouco clichê, esse livro é satisfatoriamente original. Uma obra com uma essência existencialista, que nos faz enxergar outro Evangelho, outro Jesus, outra espiritualidade – totalmente diferente dos padrões convencionais evangélicos. Em 6 passos o que faria Jesus, convida-nos a conceber uma espiritualidade sensualizada, na esfera do toque, da visão, da companhia, do sabor, da voz, dos elementos, da comida, da natureza, do abraço.
Brabo quebra no meio essa visão dualista entre o espiritual e o material, afirmando que a verdadeira revolução espiritual é mais material, mais palpável em seu caráter do que qualquer outra. Com seu modo peculiar de escrever, Paulo Brabo nos faz entender que a verdadeira alegria da caminhada cristã não está limitada em contar os passos – como sugere o titulo do livro –, mas em aproveitar a jornada.

O que é existencialismo – João da Penha
Mais que uma doutrina filosófica, o existencialismo passou a ser identificado como um estilo de vida, uma forma de comportamento que designava atitudes excêntricas. Esse pequeno opúsculo com menos de cem páginas nos oferece uma leitura rápida e bem prática caracterizando traços gerais dessa doutrina e seus antecedentes filosóficos. Vale a pena conferir!
O Deus que conheço – Rubem Alves
“Deus é um espelho no qual a imagem da gente aparece refletida com as cores da eternidade”, diz o autor. Defino este livro como um labirinto de ensaios sobre precisamente religião, moral e ética. O autor, nada intransigente, com seu jeito irônico, mordaz, irreverente e poético, vai tentando desmitificar valores religiosos e éticos. Assim como em suas conferências, o livro é muito agradável, às vezes bobo e infantil, mas, estamos falando de Rubem Alves né.
A Bíblia e o Impeachment – Caio Fábio
A Bíblia e o Impeachment foi escrito escrito em apenas seis dias, em um momento bem oportuno da década de 90 – em pleno sobressalto, revolução e motim do impeachment do ex-presidente Fernando Collor.
Caio Fábio segue o mesmo raciocínio de Jacques Ellul, lógico que com maturidade e ótica distintas. Diferente de Ellul, Caio diz que seu texto não segue, portanto, nenhuma preferência político-ideológico, e que sua única motivação é apenas espiritual. Independente de suas motivações, o livro segue um contexto puramente político, jogando por terra, qualquer tipo de “autoridade” com manifestações dominantes. Esse mestre amazonense mostra que a revelação de Deus, sofre progreções não só no campo da moralidade, da ética familiar, social, teológica e litúrgica, mas, evolui também no ponto de vista político, deixando a entender que as “autoridades”, tanto no Novo, quanto no Velho Testamento, sofre questionamentos contundentes.
Textos sagrados como (Romanos 13), (1 Timóteo 2. 1-4), (1 Pedro 2. 13-19), que parecem legitimar a “autoridade”, são analisados na íntegra, em seus contextos históricos e sociológicos. Em textos como esses, Caio nos lembra de que nós deveríamos sempre tentar fazer um exercício de conciliação entre a “doutrina dos apóstolos” e a pratica apostólica. Ou seja: a melhor maneira de entender o que os apóstolos estão dizendo é vendo como eles viveram aqueles princípios na sua experiência histórica.
Caio termina seu livro com uma breve exposição de alguns capítulos do livro de Apocalipse. Livro que foi escrito no meio de muita pressão, onde cristãos eram visto como inimigos do Império – ou seja, inimigos políticos –, pois o cristianismo, com sua visão absoluta a respeito do senhorio de Cristo, era totalmente incompatível com o culto ao imperador e o relativismo do panteão romano. Enfim, nesse livro Caio é conciso e bem idêntico aos princípios de Ellul. Finalizo dizendo que esse é um dos livros que gostaria que todos os que se dizem seguidores de Cristo lessem.
Eclesiogênese: A reinvenção da igreja – Leonardo Boff
Esta obra é sucintamente cansativa, mas mesmo assim o encarei. Leonardo Boff expõe como deve ser as investidas da CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), o que ele chama de uma nova experiência da Igreja. As CEBs, um movimento dentro do catolicismo, são uma nova ordem eclesiástica que tenta romper com a atual estrutura, criada ao longo dos séculos, baseada na hierarquia composta só de homens, reservando só pra si o uso da palavra e a tomada de decisões sobre todos os assuntos referentes a ela.
As bases dessa nova estrutura eclesiástica a qual Boff tenta dar vida é mais uma tentativa de reformar o catolicismo através da Teologia da Libertação. Em razão disso, foi formulada a expressão eclesiogênese, que quer descrever a gênese da Igreja a partir da fé do povo. Boff parte do ponto de que o principio da Igreja é engendrado na unidade da Trindade, que é sempre a unidade de três pessoas divinas, as quais, diversas, vivem em eterna igualdade de natureza e de comunhão, atacando assim a hierarquia, dizendo que com os Doze, Jesus não visou algum tipo de hierarquia constituída, mas a comunidade Messiânica.
Por fim, Boff tenta definir Povo de Deus como o conjunto de todos os povos, pois estão todos sob o arco-íris da Graça divina; embora em distintos graus de inserção na realidade teológica daquilo que chamamos de igrejas.
A Bíblia que Jesus lia – Philip Yancey
Terminei de ler esse livro quase no ano novo, e como alguns livros dessa lista, já fazia anos que estava em minha estante.
Yancey é bem dinâmico, e sua exposição do Velho Testamento é honestamente bela. Não sei por que, mas sempre subestimo Yancey antes de lê-lo, e por esse motivo sempre me surpreendo quando leio seus livros. Com A Bíblia que Jesus lia não foi diferente, rematando assim numa leitura simpaticamente agradável e cheia de novidades. A visão pessoal que Yancey adquiriu ao ler o Velho Testamento é bem formulada nesse livro de forma surpreendente. Em cada capitulo vinha o seguinte pensamento em minha mente: “Esse é o melhor capitulo desse livro”. E quando lia o próximo decorria o mesmo pensamento. Ou seja, o livro é integralmente ótimo.
Então é isso, a lista de livros lidos em 2011 não é precisamente grande, mas sei que por onde quer que eu navegue, misteriosamente ao lado deles, saberei que não estarei só.
©2012 Lindiberg de Oliveira
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[1] Frase dita por um aluno de C. S. Lewis no filme Shadows land (Terra das sombras).
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