Lições de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011 Postado por Lindiberg de Oliveira

“O temor do Senhor
prolonga os dias da vida”.
Salomão, em Provérbios 10.27a.

2011 foi um ano sem muitas surpresas e bastante produtivo pra mim. Coisas boas e ruins me sobrevieram, e creio que várias experiências serão armazenadas em mim para o resto da vida. Tive tempo e ânimo para ler, escrever e moderar esse blog sucessivamente. Fiz novos amigos, assisti velhos filmes e comprei livros que talvez eu jamais venha ler.

Aprendi a ser honesto nas minhas desilusões, e que nada, absolutamente nada na vida é permanente. Tudo passa por variações, tudo flui, e desta vida, tudo se aproveita. Tudo debaixo do sol são sistemáticas repetições daquilo que foi sucedido, nada passa pelo crivo da originalidade. “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente” disse Salomão.1 Umberto Eco diz que “os livros falam sempre de outros livros e toda história é uma história já contada”. Tudo no universo são ciclos metodicamente repetidos.

Aprendi a dar valor ao tempo, e descobri que o melhor modo de aproveitá-lo é perdendo tempo. Que Nietzsche não matou Deus, muito pelo contrário, o ressuscitou em mim. Que ter amigos é um dom. Que ser amigo não é fácil e que é muito simples machucar as pessoas.

Aprendi a viver como se não houvesse prêmio e nem punição. Que o céu não existe como recompensa para os bons. Que todos os homens são maus e todos os homens são salvos. E nesse ponto, não pondero em termos de bons e maus ou salvos e condenados, mas em termos dialéticos. E não confunda as coisas, não sou universalista, nem calvinista e não comungo com religiões orientais; apesar de acha-las (muitas vezes) mais ajuizada que a noção cristã contemporânea.

Aprendi que uma religião é mais visivelmente determinada pelas suas proibições.2  Por isso, creio que Rubem Alves acertadamente disse que “Deus nos deu asas e as religiões inventaram as gaiolas”.

Finalmente entendi que os livros não mudam ninguém. Muitos discordarão de mim, mas, não se enganem minha gente, é verdade. Dizer isso numa época em que os evangélicos cultuam mais o Livro que a Palavra não é fácil. A letra mata – e por ela matamos também – disse Paulo, entendendo o porquê Jesus não gastou um segundo escrevendo ou dogmatizando nada do que veio viver. As Escrituras só são sagradas quando culminadas na Palavra (Jesus), daí procederá a “revelação” imponderável acerca da natureza e da vontade de Deus.

Aprendi que duas das coisas mais trágicas da vida são: primeiro, é não realizar o desejo do coração. A outra é realiza-lo. Que é o sucesso, e não o fracasso, o maior perigo que ronda todo servo de Deus. Pois na medida em que buscam o sucesso, o poder e a fama, todos – sem exceção – são variantes do absolutismo. Ora, poder é sempre poder. Qualquer que seja sua forma constitucional, ele sempre toma a forma de poder absoluto. Sempre sofrerá da irremediável obsessão da autonomia.

Aprendi que as crianças são fantásticas. Observa-las diariamente em suas evoluções intelectuais é tão fascinante quanto ler um livro de poesia. O mesmo também digo em relação à nossa passividade diante das manifestações de todas as espécies de vida na natureza. “Que batam palmas os rios, e juntos cantem de alegria os montes”,3 disse o salmista, diante da grande criação.

Aprendi que não é fácil fazer revolução em um mundo de “revoluções”. O capitalismo, que se apropria de tudo e reverte em seu favor, apropriou-se por inteiro do discurso da revolução. Hoje tudo é “revolucionário”, um novo produto no mercado é que faz a “revolução”. Che Guevara, insígnia revolucionário, é uma marca numa camiseta que você quer comprar.

Aprendi que não há dicotomia entre mundo espiritual e mundo natural. Que o mundo espiritual, mesmo que invisível, é exatamente tão real quanto o mundo “natural” de estradas, de refeições e de calor humano. Elaboramos uma vida diária de atividades – trabalhar, tirar uma folga, concertar o computador – e depois tentamos criar tempo para nossos momentos “espirituais” como ir à igreja, orar, jejuar, cultivar momentos devocionais. Assim como C. S. Lewis disse, o ideal de um seguidor de Cristo é “relacionar a Deus tudo na vida, cada ato simples ou sentimento, cada experiência, agradável ou não”.

Enfim, esse ano terminará cheios de símbolos que se tornarão grandes recordações. Gastei e perdi tempo falando besteira, trabalhando e deixando de trabalhar, escrevendo e deixando de escrever, viajando e não viajando, indo à praia, explorando ilhas desertas, tirando fotografias, perpetrando tatuagens, pulando da ponte, influenciando pessoas, ouvindo punk, apaixonado e deixando de me apaixonar, amando e continuando a amar.

©2011 Lindiberg de Oliveira


1 Eclesiastes 1.9
2 Sobre isso, Paulo Brabo, diz que para os teólogos, a essência da fé está nas filigranas e coisas profundas que a massa não tem como entender; para a massa dos fiéis, a essência da fé está nas proibições muito práticas que lhes fornecem por um lado uma identidade e por outro lhes garantem uma recompensa.
3 Salmos 98.8