A morte como uma obra de arte

quarta-feira, 26 de outubro de 2011 Postado por Lindiberg de Oliveira
Se a vida é tão curta como dizes por que é que 
estás me lendo agora?
Mario Quintana

O que é o suicídio se não um escândalo? Isso porque um suicida carrega consigo toda esperança. Lutamos contra a morte em todos os sentidos: contra o câncer, contra a AIDS; tentamos evitar guerras; moradores de rua vão ao limite ao comer lixo para poder sobreviver; mas um suicida pode estar diante de um banquete que mesmo assim seu desejo será o de se lançar no nada.  E é exatamente por causa da fineza deste assunto que Albert Camus o julgava o problema verdadeiramente sério da filosofia.
Em seu livro O mito de Sísifo, Camus chega às raias da heresia ao afirmar que o suicida prepara sua morte como uma obra de arte. Para ele, por mais trágico que fosse, os suicidas queriam que seu gesto significasse algo belo. Rubem Alves, grande admirador de Camus, estende a ideia e assegura que o mesmo deveria ser verdadeiro para aqueles que morrem sem ter cometido suicídio. Assim, o inusitado não estaria na preparação para a morte, mas no ritual fúnebre: "Um velório deveria ter a beleza e a simplicidade de um haicai".
Concordo com Rubem Alves, deveríamos ver encanto em algo tão sutil como os rituais fúnebres. Nossos funerais estagnados e massacrados pela feiura. Digo isso por que aprendi a contemplar a tristeza, não a cultua-la, mas admirá-la.
Os gregos aprenderam a extrair beleza da tragédia justamente por causa da sua contingência. Salomão, o sábio, garante com um pessimismo animador que "melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois a morte é o destino de todos, e os vivos, devem levar isso a sério" (Ec 7.2).
Funerais são ambientes que provê uma indispensável perspectiva para a condição terminal universal. Nesses ambientes vemos sofrimento, e o sofrimento gera solidariedade. Quem toma consciência de sua finitude, limitação e debilidade consegue ser mais compreensivo, tolerante e inclusivo. Quem não chorou, não tem lágrimas para derramar em solidariedade.
Já li sobre gente que planejaram seus velórios, mas nenhum deles foi tão criativo como Jesus. Sabendo que não ia ter um funeral, Jesus antecipou-se. Fez uma festa. Comeu, bebeu e pela primeira vez os evangelhos o mostra cantando. Festejou sua tragédia com cânticos; um velório com o defunto ainda vivo. Foi morto ali, tendo sua carne devorada e seu sangue sugado (o pão e o vinho) por aqueles que o amavam.

Para Nietzsche, o homem que realiza seu destino "morre como vencedor da morte que é dele, cercado dos que esperam e prometem". Para o filósofo do martelo "é assim que se deve aprender a morrer".
Talvez seja cedo para pensar nisso, mas quero meu funeral diferente desses arquétipos fúnebres tradicionais. Sei que haverá lágrimas, no entanto, não quero que ofusquem as gargalhadas de piadas contadas pelos cantos. Não quero aquelas parafernálias de metais enferrujados de funerárias – aqueles suportes de metais onde se apoia o caixão, os castiçais e tudo mais –, o horror dessas coisas faz violência à tristeza. 

Como Mario Quintana, quero em meu epitáfio a frase: “Não estou aqui...”. Ou quem sabe com um acréscimo: “Mas caso eu esteja, vamos conversar em silêncio”. Em silêncio, porque como diz Lavelle: "Assim como todas as cores estão presentes no branco que reflete o espectro inteiro das luzes, também o silêncio é pleno e contem todas as palavras".
E todas as palavras são queimadas pela vida, porque a vida, meu amigo, é como um incêndio. Se as chamas foram belas e altas, as cinzas serão um complemento, pois nada é descartado. Desta vida tudo se aproveita.
©2011 Lindiberg de Oliveira
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