O discurso do diabo

sexta-feira, 26 de agosto de 2011 Postado por Lindiberg de Oliveira
Centenas de pessoas sentadas em suas cadeiras, algumas em pé, naquele imenso salão, atentas às palavras persuasivas de um homem que falava ininterruptamente, gesticulando sempre com suas mãos firmes formas abstratas no ar. “Não posso acreditar que muitos aqui vivem na miséria, é inadmissível que os escolhidos sejam cauda e não cabeça, você nasceu para conquistar tudo que quiser”.

A multidão reunida bradava em êxtase com tais palavras, o que proporcionava ainda mais vigor ao estranho homem que falava. “Transforme essa pedra em pão meus amigos, se jogue do alto dos montes e os anjos prontamente te sustentarão, olhe do alto deste lugar e veja os reinos da terra, você pode ver? Diga-me pode ver? Eu lhes digo uma coisa, isso tudo pode ser teu, apenas adore, se prostre, adore-me, odeie a pobreza, repudie a fraqueza, pise com seus pés a humildade, afaste de ti satisfação com coisas simples, se o melhor pode ser seu, por que se contentar com migalhas como aquela pobre mulher Cananéia?”.

Os olhos de um homem que escutava tudo ali de baixo lacrimejavam de emoção, com suas mãos estendidas ele poderia imaginar estar segurando todas aquelas visões para si, como um moribundo que de tanta fome vê na sua frente em um momento de delírio um manjar inexistente, percebi que aquele homem venderia sua alma não por 30 moedas, ele venderia por muito menos. Enquanto isso o homem bradava mais alto do grande púlpito, como se a pressão de uma panela estivesse prestes a explodir, o relógio marcava oito e meia da noite de um domingo qualquer, e já não se podia distinguir se quem falava era um homem ou um lobo.

Kallil Sousa