Na natureza selvagem

quarta-feira, 2 de março de 2011 Postado por Lindiberg de Oliveira

A felicidade é estar com a natureza, ver a natureza e conversar com ela.
Tolstóy, em Os Cossacos

Recentemente me indicaram o filme Na natureza selvagem, dirigido por Sean Penn, que conta a historia verídica de Christopher McCandless. O P.H e o Kallil – meus “mano” – me fizeram promessas de lágrimas e tudo mais ao assisti-lo – o que gerou em mim uma expectativa gigante. Segui em frente, fui vê-lo sem um pingo de moderação, com um olhar crítico e a alma armada para qualquer tipo de fragilidade emocional que aquilo viesse a emanar. Não deu em outra, na ultima cena do filme eu já estava soluçando, com o rosto conglomerado de lágrimas (risos).

O filme é verdadeiramente ótimo, dramático e com uma trilha que faz realmente emocionar. Mas, o que mexeu comigo não foi exatamente isso. Foi o pano fundo dessa obra de arte.

Christopher McCandless teve emoldurado em sua mente o inconformismo de muitos em relação a essa sociedade materialista, hipócrita e cheia de mentiras. Mas foram poucos que tiveram sua ousada atitude. O fato de vir de classe média alta e ter graduação universitária escondeu um crescente desprezo interior para o que ele via como o materialismo vazio da sociedade americana. Os trabalhos de Jack London, Liev Tolstoi e Henry David Thoreau tiveram uma grande influência sobre McCandless, e ele sonhava em deixar a sociedade para viver um tipo de liberdade, para ter a vida simples como alicerce de sua habitação, para um período de contemplação solitária.

Logo após acabar o curso na Universidade de Atlanta, em 1990, Christopher doou os seus 24 mil dólares que tinha no saldo bancário a instituições de caridade e desapareceu sem avisar a família. Abandonou o seu carro e ao lado queimou todo o dinheiro que tinha no bolço – cerca de cento e vinte e três dólares. Por onde passou, Chris alterou as vidas das pessoas que o conheceram. A sua personalidade forte, muito inteligente e simpática surpreendia quem quer que ele conhecesse.

O filme nos brinda com cenas marcantes, nostálgicas e belíssimas. Sua jornada durou apenas dois anos, viajando por vários estados da America, passando pelo território mexicano também. Sua meta era o Alaska o qual permaneceu cerca de quatro meses nas montanhas, sobrevivendo à custa do que encontrava, totalmente sozinho, livre. Os ideais de Tolstoi foram vividos radicalmente por esse jovem o qual também cria que “a vida tanto mais verdadeira quanto mais próxima da natureza". Os arquétipos de vida elaborados por Thoreau – o qual os escritos influenciaram Tolstoi e Ghandi – foram por ele imitados na prática também – em 1845, com 27 anos, Thoreau foi morar no meio da floresta, às margens de um lago, o qual construiu sua casinha e um porão para armazenar comida.

Enfim, a vida desse jovem gerou em mim uma convulsão de pulsões e sentimentos que estavam alojados em minha alma já alguns anos. Meu deslumbramento pela natureza não é pouco, e meu fascínio pela solidão já foi menos moderado. McCandless morreu feliz; ele próprio o disse numa entrada no diário, percebendo o seu fraco estado de saúde: “Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe a todos”. A atitude desse jovem nos evangeliza e nos punciona a repudiar esse sistema que alimente em nós um desejo cada vez maior de acumulação daquilo que nós não precisamos para ser felizes. Christopher foi uma figura que lutou com o precário balanço entre homem e Natureza e contra o consumismo da sociedade, ele foi resposta a uma sociedade doente. Seu legado é sua história.

“Os dias mais felizes da minha vida eu não tinha um tostão”.

©2011 Lindiberg de Oliveira