Você de novo dor?

terça-feira, 23 de março de 2010 Postado por Lindiberg de Oliveira
Não importa onde eu comece, sempre termino escrevendo sobre a dor. [...] Tudo o que sei é que me assento para escrever algo adorável, como as asas diáfanas de uma borboleta, e, não demora muito, vejo-me de volta às sombras escrevendo sobre a breve e trágica vida de uma borboleta.
"Como posso escrever sobre outra coisa?" É a melhor explicação que me vem. Existe algum fato mais fundamental da existência humana? Eu nasci em dor, apertado por entre tecidos dilacerados e sangrentos, e, como primeira evidência de vida, ofereci meu choro. Possivelmente morrerei em meio à dor também. É entre esses dois eventos de dor que vivo meus dias, claudicando entre um e outro. Como disse o contemporâneo de Donne, George Herbert: "Chorei quando nasci, e todos os dias me mostram por que".
O texto acima foi retirado do livro Alma Sobrevivente de Philip Yancey. Identifiquei-me muito com o texto, e, mesmo sem saber explicar o porquê, o problema da dor tem ocupado diariamente algum tempo nos meus pensamentos. Ultimamente tenho visto, ouvido e me sentindo atraído por questões que envolvem esse tipo de assunto. A Bíblia não nos dá resposta para a questão do sofrimento, aliás, a Bíblia nem tenta fazer isso, e Jesus, muito menos.
O que dizer de tantos genocídios, terrorismos, terremotos e tsunamis? O que dizer de tantas mortes por causa do dinheiro mal adquirido, mal repartido, fazendo com que a pobreza e a fome aumentem numa velocidade extraordinária? Como olhar para Deus numa perspectiva de uma adolescente que foi estuprada e quase morta? Como apreciar a beleza da vida na pele de um mendigo seminu, jogado numa sarjeta fétida, sem ânimo até para se matar? Muitas respostas têm surgido, pois, o problema da dor não é algo novo e uma das coisas que mais me deixa indignado são as soluções frias de pessoas que dizem: "mas isso é a vontade permissiva de Deus". Temos que parar de dar respostas idiotas para assuntos embaraçosos. Imagine um pai que acabou de ter a filha assassinada ouvir que aquilo aconteceu pela permissão divina. Que Deus é esse que permite que pessoas inocentes venham perecer em quedas de aviões, que bebês venham nascer com doenças terminais antes de terem consciência da vida ou que a vida de muitos se acabem em campos de concentração?
Colocar Deus em contextos como esses exige certa maturidade em relação ao tema, não em nível intelectual, e sim em questões empíricas. C. S. Lewis escreveu com muita excelência sobre a dor no livro O Problema do sofrimento, no entanto, Lewis só veio entender realmente sobre o assunto quando sua amada veio a falecer. Depois de passar por uma terrível agonia, Lewis produziu Anatomia de uma dor onde relata seus momentos difíceis, quando passou pelo crivo da terrível experiência de não está sendo visto nem ouvido pelo Senhor. Jesus também passou por isso; Ele soube o que é sofrer mais do que ninguém. "Deus, só teve um filho que não pecou, mas não teve nenhum filho que não sofresse", disse Agostinho.
Jesus não passou por nada pelo que nós não estejamos passando hoje. Em tudo foi tentado e, igualmente seus santos. Quando olho para as quantidades de catástrofes vejo que Deus está em todas elas, não de forma punitiva, mas se compadecendo sempre pelos que choram. "Onde estava Deus no atentado de 11 de setembro?" foi a pergunta que saiu na primeira folha do New York Times na época. A mesma pergunta foi feita ao Billy Graham, ao que respondeu com grande inspiração: "Nos bombeiros".

©2010 Lindiberg de Oliveira
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