O Enigma da Graça - Caio Fabio

terça-feira, 20 de outubro de 2009 Postado por Lindiberg de Oliveira

O Enigma da Graça, escrito por Caio Fabio em 2002, - um dos poucos pastores sinceros que ainda acredita no Evangelho, não como fonte de lucro, mas, como poder de Deus - é um ótimo livro. Caio Fabio decidiu escrever o livro a partir das seguintes perspectivas: Ele queria escrever um texto existencial; ou seja: Queria jogar para a escrita aquilo que pensava sobre a existência do ser, e suas pulsões. Por isso o único livro que ele se ateve foi a Bíblia.

Seus textos são bem elucidativos em relação a Jó e seus "amigos". E, como gostei muito do livro, quero aqui fazer uma breve resenha usando alguns textos do próprio livro. Caio nos dá um visão panorâmica do que se passava realmente. Ele nos desafia a ler o livro de Jó pulando os dois primeiros capítulos, e diz que sem eles o Livro de Jó é apenas a revelação da presunção do juízo humano sobre o mal que acomete o próximo.

O assunto gira em torno do que ele chama de "Teologia Moral de Causa e Efeito", dogmatizada pelos "amigos" de Jó, e usada por eles para tentar mostra para Jó a raiz do mal que lhe acometera. Muitas foram as barbaridades que saíram da boca dos "amigos" de Jó:

Primeiro disseram que as angústias de Jó se multiplicaram quando ele chegou perto da apostasia. Chegando a repetir varias vezes para que se achegasse novamente ao Pai. Não sabiam eles que "apostasias” não são em relação a Deus, mas aos seus pretensiosos representantes na Terra! A tentativa dos amigos de Jó de explicarem o inexplicável, o Mistério Absoluto, fez com que eles mergulhassem cada vez mais profundamente num mundo de disputas teológicas e de sentimentos de inveja dissimulada.

Depois que foram vencidos pelos argumentos de Jó, eles utilizaram-se da “Teologia Moral de Causa e Efeito”, ao contrário, ou seja, aplicaram o princípio de uma história cronológicamente inversa: agora era o pecado dos filhos de Jó que caíam sobre a sua cabeça! Que tolice!

E como não “achavam em Jó lugar de arrependimento”, acusaram-no de ter enriquecido ilicitamente, obtendo tais resultados não pelo trabalho, pela verdade e pela justiça, mas pela desavergonhada exploração do próximo. Esses são os argumentos morais que os "amigos" de Jó usaram para tentar entender o por que de seu sofrimento. Essa era a teologia dos amigos de Jó, chamada de Teologia Moral de Causa e Efeito. E Caio Fabio deixa bem claro que "quanto mais moralmente cristão é o consciente humano, mais tragicamente pagão torna-se o seu inconsciente". Portanto, quanto mais uma pessoa se torna moral nos seus julgamentos, mais frágil ela se torna quanto a se dispor a se encontrar com Deus, com o próximo e consigo mesmo!

E quando seus "amigos", definitivamente, viram-se impossibilitados de vencer a Jó em qualquer que fosse o campo de batalha, sentiram-se ofendidíssimos, e por essa razão, talvez até inconscientemente, baixaram o nível do confronto e apelaram para as ofensas de caráter e usaram de escárnio contra ele. A resposta de Jó, todavia, era sempre a mesma; pedindo para que Deus seja o seu advogado contra o Próprio Deus(Jó 16:19 a 17:3). No início demorei entender esse pedido. Mas, muitas vezes o que nós não percebemos é que a salvação proposta na Bíblia é aquela na qual Deus nos salva de Sua Justiça, Juízo, Verdade e Santidade, pela via de sua Graça, Justificação, Propiciarão, e Bondade! Se Deus não enfrentar a Deus em favor do homem, quem poderia ser salvo na Terra?

Jó é um exemplo, ele não entendia o que Deus lhe estava fazendo, e ele constitui Deus seu advogado contra Deus. E como não entende as reações de seus amigos, ele constitui Deus seu advogado contra o seu próximo também.

A salvação humana só acontece num embate de Deus contra Deus. E, em toda a História só um há lugar onde Deus enfrenta Deus, num combate onde Deus ganha e Deus Perde; e é na Cruz de Jesus que esse encontro aconteceu, com a derrota e com a vitória de Deus! Na Cruz, Deus vence a Si mesmo e Sua misericórdia prevalece sobre o Seu próprio juízo; sendo Suas palavras finais a respeito desse Combate, as seguintes: “Esta Consumado!


Jó, Jesus, e o Sermão do Monte

O interessante, é que eu sempre tive as mais belas impressões sobre Jó. Sempre o julguei como um homem reto, justo, integro, sem macula, "o varão perfeito". E na verdade Jó não era nada e nem ninguém, além de Jó!

Ele, de um lado, era apenas um homem; e de outro lado, sobretudo, um homem!

Dizendo isso, quero deixar claro que Jó não era a sabedoria e nem a encarnação da verdade.

Sua integridade era caída e sua justiça era relativa, como é verdade acerca de todos os demais humanos.

Quando analisamos o cap. 30 com um olhar analítico, vemos que Jó nos apresenta uma lista de serviços prestados. E ele tem isso como uma verdade absoluta de comportamento de um verdadeiro "Justo". Todavia, quando expostas aos valores de significados e verdades ensinados por Jesus, nenhuma daquelas virtudes pode ser absolutizada como verdade em nenhum homem da Terra – nem na mente, nem nas tramas da alma, nem nos porões do inconsciente e, muito menos, nos ambientes do espírito e de suas luzes verdadeiras!

Ou seja: Jó não sobreviveria aos critérios de medição das verdades do coração apresentando-se ante os valores do Sermão do Monte.

O Sermão do Monte é, de fato, o Sermão do Abismo!

Isso porque ali percebemos nossa necessidade absoluta da Graça para viver.

Jó e Satanás

Satanás aparece nos primeiros dois capítulos, e ali mesmo fica. Não é mencionado mais em nenhum outro canto. É deixado no esquecimento.

Jó se direciona somente a Deus, e mais ninguém. Seus diálogos são remetidos a Ele, e somente por Ele Jó quer ser ouvido e compreendido. Deus é o seu alvo, a quem Jó atribui todas as coisas, tanto o bem quanto o mal.

E mais: Jó não sataniza sua calamidade!

Satanás é esquecido até ao fim da história. Afinal, aqueles males tinham “vindo da parte do Senhor”!

É tudo o que se diz e é tudo o que presisa se dizer: Se há um Deus, o diabo é um detalhe! Bem e mal vêm de Deus!

Deus não é o “mal”, justamente por isto o “mal” pode vir Dele sem ser Ele! Ele é bom, mas Nele a bondade não é um exercício espiritual e muito menos moral. Bondade é sua natureza. Portanto, mesmo quando ele faz ou permite o “mal”, quando o con-sente ou o envia, o faz visando um bem maior, pois “Ele é bom e sua misericórdia dura para sempre”.

Assim sabemos que Ele abre a ferida e Ele a cura!
©2010 Lindiberg de Oliveira