Espiritualidade e paixão

domingo, 4 de outubro de 2009 Postado por Lindiberg de Oliveira
Ricardo Gondim
Nasci católico, criei-me presbiteriano, mas tornei-me pentecostal. No catolicismo aprendi a reverenciar o sagrado, no presbiterianismo, a pensar a fé, no pentecostalismo, a experimentar Deus.
Quando conheci a mensagem pentecostal, de joelhos, em verdadeira agonia, supliquei a Deus que derramasse o seu Espírito. Eu desejava que ele transbordasse em mim como chuva torrencial. No silêncio da madrugada, na Assembléia de Deus da rua Tereza Cristina em Fortaleza, meu corpo foi sacudido pelo numinoso (termo que significa a manifestação do transcendente, isto é, do que está além do natural).
Naquela alvorada chuvosa, atravessei um portal até a dimensão misteriosa e assombrosa do divino. Em êxtase, gaguejei; também atravessei a barreira da linguagem. Balbuciei uma língua primal, pueril, estranha - “glossolalia”, dizem os fenomenólogos da religião.
Paul Tillich, sem saber, redimiu pentecostais semelhantes a mim. Ele dizia que o êxtase religioso não é um estado irracional, mas uma maneira de conhecermos o que está além da percepção cotidiana ou natural. O êxtase religioso é o jeito do “profundo falar ao profundo”. E eu noto que todas as pessoas buscam essa linguagem com o profundo, nem que seja através dos sonhos.
Encantei-me com a minha experiência pentecostal. Pela primeira vez eu não me sentia constrangido a catequizar com uma doutrina. Desejava que todos experimentassem o mesmo que eu: a possibilidade de transcender; o fascínio que se mistura ao medo no mistério. A alegria de se sentir tocado pelo dedo de Deus passou a ser o mote de minha espiritualidade.
O pentecostalismo ganhou impulso no início do século XX quando negros, marginalizados sociais e pobres dos Estados Unidos afirmaram que Deus os tinha visitado. A mensagem era clara: o Todo-poderoso se dignara eleger aquele povinho. De lá, missionários anunciariam a volta iminente de Cristo. E Deus os escolhia não por serem exatos na doutrina, sequer por possuírem um nobre pedigree. Deus os elegia pela dedicação em buscá-lo.
Sim, o dever de buscar a Deus se tornou o imperativo dos pentecostais. E como se busca a Deus? De joelhos, na disciplina da oração, na sede de experimentá-lo, no anseio de ser imerso em seu Espírito. Lembro-me de horas, literalmente horas, em que orei pedindo basicamente uma coisa: “Preciso mais de ti”. - o significado exato de “precisar mais de Deus” não pode ser explicado, é parte do ethos pentecostal. Sem querer ser gnóstico: só os iniciados entendem.
Nas reuniões de oração, dores afloraram e fui confrontado com complexos antigos. Desafiado a experienciar o coração de Deus, vivenciei os “afetos divinos” (expressão de Jonathan Edwards). A reta doutrina do pequeno catecismo perdeu força nas vezes que naveguei no oceano do Espírito.
Devidamente expulso da igreja presbiteriana, assumi a fé pentecostal nos tempos em que os evangélicos ainda a tratavam como heresia. Obrigado a engolir sarcasmos maldosos, permaneci. Eu estava entusiasmado (o valor simbólico de entusiasmado é proposital). Perdi a vergonha de considerar-me membro de uma igreja tosca, acusada de cometer erros exegéticos.
O mundo mudou. O pentecostalismo ganhou respeito. Os evangélicos, que precisam do seu fantástico crescimento demográfico para se mostrarem importantes, agora os aceitam.
Uma fé passional me acompanha desde que fui batizado no Espírito Santo. Na busca de ser cheio, aprendi a chorar até encharcar lençóis; a implorar para ser instrumento nas mãos de Deus; a querer alcançar nações com a mensagem do Evangelho; a atravessar décadas sem férias; a suar nos sermões; a prometer nunca ser cínico na causa do Reino.
Minha história, portanto, está atrelada àquela bendita noite. Aceitei o convite de buscar o Espírito Santo e nunca mais fui o mesmo.


Soli Deo Gloria
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